Daily's TreasuresBiblioteca de objetos do cotidiano
Verbete nº 053 · Moda e acessórios

Guarda-chuva

Antes de proteger da chuva, protegia do sol e marcava o poder de reis; só no século XVIII virou objeto de rua.

Antiguidade Proteger Acessório Mesopotâmia, Egito e China · c. século XII a.C.
Guarda-chuva: Antes de proteger da chuva, protegia do sol e marcava o poder de reis; só no século XVIII virou objeto de rua.
Imagem: W.carter · Wikimedia Commons · domínio público

01Origem

O ancestral do guarda-chuva é o guarda-sol, e ele é muito antigo. Relevos assírios do segundo milênio a.C. mostram servos segurando um grande disco de tecido sobre o rei; cenas semelhantes aparecem no Egito faraônico, na Pérsia e na Índia, onde o chhatra, guarda-sol cerimonial, é símbolo de realeza e de proteção divina até hoje, inclusive na iconografia budista. Nessas culturas o objeto protegia do sol e, sobretudo, marcava quem tinha direito a sombra carregada por outros. A etimologia conserva isso: 'umbrella', do latim umbra, sombra; 'parasol', parar o sol.

A China foi onde o guarda-sol se tornou dobrável e impermeável. Textos e achados arqueológicos indicam que, já no século I a.C., existiam guarda-sóis de bambu com varetas articuladas e cobertura de papel ou seda tratada com óleo ou cera, usados por funcionários e também contra chuva. Alguns autores recuam a invenção ao período dos Reinos Combatentes, e uma lenda a atribui a Lu Ban, carpinteiro semilendário do século V a.C., mas isso não é verificável. O certo é que o guarda-sol dobrável de papel encerado circulou pela Ásia e serviu de modelo para o objeto europeu.

Na Europa, gregos e romanos conheceram o guarda-sol como acessório feminino, e na Idade Média o objeto sobreviveu em procissões, protegendo o papa e o sacramento. Como instrumento contra chuva, reaparece na França e na Itália no século XVII, em 'parapluies' de couro ou tecido encerado, pesados e caros. A difusão como objeto cotidiano é do século XVIII, e a história inglesa cita Jonas Hanway, filantropo que a partir da década de 1750 passou a andar por Londres com um guarda-chuva, enfrentando zombarias e a hostilidade dos cocheiros, que viam nele um concorrente.

02Período histórico

O guarda-chuva como objeto de rua pertence ao século XVIII urbano. Londres e Paris cresciam, as calçadas começavam a ser pavimentadas e uma classe média de comerciantes, funcionários e profissionais liberais andava a pé, sem carruagem própria. Para quem precisava chegar seco a um escritório ou a uma loja, o guarda-chuva era uma alternativa ao aluguel de coches e cadeirinhas. O Iluminismo também trouxe a ideia de que o conforto e a saúde eram direitos razoáveis, e manter-se seco deixou de parecer afetação.

Ao mesmo tempo, o comércio com a Ásia levava à Europa guarda-sóis de papel e seda, e relatos de viajantes descreviam seu uso na China e na Índia. Os fabricantes europeus copiaram a estrutura de varetas e trocaram o papel por tecido encerado e, depois, por seda e algodão impermeabilizados, num objeto mais pesado e durável que o oriental.

03Evolução ao longo do tempo

  1. Do guarda-sol cerimonial ao dobrável chinês

    Os primeiros guarda-sóis eram fixos, feitos de folhas, penas ou tecido sobre uma haste que um servo carregava. A inovação chinesa foi a armação de varetas de bambu ligadas a um cursor que desliza pela haste, abrindo e fechando a cobertura. Esse mecanismo é, em essência, o mesmo de hoje. A cobertura de papel de amoreira tratada com óleo de tungue tornou o objeto resistente à água, e em cidades como Hangzhou e Fuzhou o guarda-sol de papel encerado virou artesanato de renome, ainda produzido.

  2. Barbatana de baleia e seda encerada

    Os guarda-chuvas europeus do século XVIII usavam varetas de barbatana de baleia ou junco e cobertura de seda ou algodão encerados, com cabo de madeira torneada. Pesavam mais de um quilo, encharcavam e demoravam a secar. Em Paris, em 1769, o comerciante Marius já alugava guarda-chuvas em postos pela cidade, e a primeira loja especializada de Londres, a James Smith and Sons, abriu em 1830 e segue funcionando. O objeto era caro o bastante para ser consertado muitas vezes, o que sustentava um ofício de consertadores ambulantes.

  3. A armação de aço de Samuel Fox

    Em 1852 o industrial inglês Samuel Fox patenteou a armação Paragon, com varetas de aço em perfil de U, leves e resistentes, que substituíram a barbatana de baleia. A inovação reduziu peso e preço, permitiu produção em série em Sheffield e nas fábricas francesas e deu ao guarda-chuva a silhueta fina que o caracteriza. No mesmo período surgiram tecidos de algodão impermeabilizado mais baratos, e o guarda-chuva preto masculino se tornou parte do uniforme do funcionário de escritório britânico.

  4. Dobrável, automático e descartável

    O guarda-chuva telescópico, que se encolhe para caber na bolsa, foi desenvolvido pelo engenheiro alemão Hans Haupt, cuja empresa Knirps o lançou em 1928. A abertura automática por mola popularizou-se a partir dos anos 1950, e o náilon substituiu o algodão. Nas últimas décadas a produção se concentrou na China, onde a cidade de Shangyu fabrica centenas de milhões de unidades por ano. O guarda-chuva barato tornou-se quase descartável, e desenhos com ventilação, hastes de fibra de vidro e abertura invertida tentam resolver o velho problema de virar ao vento.

04Fatos curiosos

  • A loja James Smith and Sons, em Londres, vende guarda-chuvas desde 1830 e mantém a fachada vitoriana original na New Oxford Street.
  • Jonas Hanway, considerado o primeiro inglês a andar com guarda-chuva regularmente, era também conhecido por campanhas contra o consumo de chá, que julgava prejudicial à saúde.
  • Em 1978 o dissidente búlgaro Georgi Markov foi morto em Londres com um projétil disparado de um guarda-chuva modificado, episódio célebre da Guerra Fria.
  • O guarda-sol de papel encerado de Fuzhou, na China, é reconhecido como patrimônio cultural imaterial e ainda é produzido com dezenas de etapas manuais.
  • Mary Poppins e os banqueiros da City fizeram do guarda-chuva longo e preto um emblema britânico, apesar de o objeto ter sido ridicularizado em Londres por boa parte do século XVIII.

05Contexto social

Por milênios, ter sombra portátil significou ter poder. O guarda-sol carregado por outro era insígnia de reis assírios, faraós, rajás e papas, e em reinos do Sudeste Asiático o número de camadas do guarda-sol real indicava a hierarquia. Quando o objeto passou a ser segurado pelo próprio usuário, ganhou outro sentido: o guarda-chuva da Europa do século XVIII marcava quem andava a pé, e por isso os ricos, donos de carruagens, o desprezaram por décadas. Jonas Hanway foi ridicularizado por parecer alguém sem meios para um coche.

O guarda-chuva também foi dividido por gênero. A sombrinha de seda, pequena e enfeitada, era acessório feminino, ligado à pele clara como sinal de distinção, e manteve esse papel até a moda do bronzeado, nos anos 1920, torná-la obsoleta. O guarda-chuva preto e grande ficou com os homens e virou no século XX símbolo da respeitabilidade burocrática, a ponto de Neville Chamberlain ser caricaturado com um em 1938.

06No Brasil

No Rio de Janeiro do século XIX, guarda-chuvas e guarda-sóis eram vendidos em lojas da Rua do Ouvidor e anunciados nos jornais da Corte, importados da França e da Inglaterra. Viajantes estrangeiros registraram o costume de escravizados segurarem guarda-sóis sobre senhores e senhoras nas ruas, o que remete ao antigo sentido hierárquico do objeto, e Debret retratou cenas assim nas pranchas sobre a cidade. O guarda-chuva pessoal se popularizou com a expansão das cidades, e consertadores ambulantes de guarda-chuva foram figura comum nas ruas brasileiras até meados do século XX.

Hoje o Brasil importa a maior parte dos guarda-chuvas que consome, sobretudo da China, e usa o objeto nas duas funções antigas: contra a chuva nas capitais do Sudeste e Sul, contra o sol nas cidades do Norte e Nordeste.

07Linha do tempo

  1. c. 1200 a.C.

    Relevos assírios e egípcios mostram guarda-sóis sobre reis e faraós.

  2. Século I a.C.

    Guarda-sóis dobráveis de papel encerado são usados na China.

  3. Século XVII

    Guarda-chuvas de couro e tecido encerado aparecem na França e na Itália.

  4. c. 1750

    Jonas Hanway passa a usar guarda-chuva em Londres, enfrentando zombarias.

  5. 1852

    Samuel Fox patenteia a armação de aço Paragon.

  6. 1928

    A Knirps lança o guarda-chuva telescópico de Hans Haupt.

08Comparativo

Guarda-chuva do século XVIII e de hoje
AspectoSéculo XVIIIHoje
ArmaçãoBarbatana de baleia ou juncoAço ou fibra de vidro
CoberturaSeda ou algodão enceradoNáilon ou poliéster
PesoMais de um quiloEntre 200 e 500 gramas
PreçoArtigo caro, consertado por anosBarato, muitas vezes descartado
StatusSinal de quem andava a péObjeto neutro, de uso geral

09Perguntas frequentes

Quem inventou o guarda-chuva?

Não há inventor conhecido. O guarda-sol existe há mais de três mil anos no Oriente Próximo, e a versão dobrável e impermeável se desenvolveu na China antiga.

Por que os ingleses demoraram a aceitar o guarda-chuva?

No século XVIII o objeto era visto como afetação francesa e como sinal de quem não tinha carruagem. Jonas Hanway o usou em Londres por décadas até o costume pegar.

Qual foi a maior inovação técnica do guarda-chuva?

A armação de varetas de aço em U, patenteada por Samuel Fox em 1852, que substituiu a barbatana de baleia e tornou o objeto leve, barato e produzido em série.

10Conteúdos relacionados

ModaIdade Média

Óculos

A história dos óculos, das pedras de leitura à invenção na Itália por volta de 1286, das hastes do século XVIII aos armações de hoje, e sua chegada ao Brasil.

Norte da Itália (Pisa ou Veneza)c. 1286
TransporteSéculo XX

Mala com rodinhas

História da mala com rodinhas: a patente de Bernard Sadow em 1970, a Rollaboard de Robert Plath em 1987, o spinner e a bagagem de mão nos aeroportos do Brasil.

Nova York, Estados Unidos1970
CasaAntiguidade

Sabão

O sabão nasceu de gordura e cinzas na Mesopotâmia, virou indústria em Marselha e Aleppo e só se tornou item de higiene diária com a química do século XIX.

Mesopotâmia (Suméria)c. 2800 a.C.
CasaAntiguidade

Ferro de passar

Das panelas de brasa da China Han ao ferro elétrico a vapor, a história do ferro de passar é também a história do trabalho pesado de alisar roupa.

China, dinastia Hanc. século I a.C.

11Fontes consultadas

  • T. S. Crawford, A History of the Umbrella, 1970
  • Marion Rankine, Brolliology: A History of the Umbrella in Life and Literature, 2017
  • Jean-Baptiste Debret, Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, 1834-1839
  • Encyclopaedia Britannica, verbete Umbrella

Este verbete foi redigido e revisado pela equipe editorial do Daily's Treasures a partir das fontes acima. Encontrou um erro? Escreva para nós.