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Verbete nº 051 · Moda e acessórios

Óculos

Nasceram em oficinas de vidro da Itália medieval e prolongaram em décadas a vida útil dos olhos de copistas e leitores.

Idade Média Vestir e adornar Acessório Norte da Itália (Pisa ou Veneza) · c. 1286
Óculos: Nasceram em oficinas de vidro da Itália medieval e prolongaram em décadas a vida útil dos olhos de copistas e leitores.
Imagem: Thomas Quine · Wikimedia Commons · CC BY 2.0

01Origem

A ideia de que um objeto transparente e curvo aumenta as coisas é antiga. Sêneca, no século I, notou que letras vistas através de um globo de vidro cheio de água pareciam maiores, e o matemático árabe Ibn al-Haytham, o Alhazen dos latinos, descreveu por volta do ano 1000 a refração em seu Livro da Óptica, traduzido no século XIII. Monges europeus usavam 'pedras de leitura', segmentos de cristal ou berilo apoiados sobre a página. Nenhuma dessas soluções, porém, se prendia ao rosto nem corrigia a visão com duas lentes.

Os óculos propriamente ditos surgiram no norte da Itália no fim do século XIII. A prova mais sólida é um sermão do frade dominicano Giordano da Pisa, pregado em Florença em 1306, em que ele diz que não fazia vinte anos que se descobrira a arte de fazer óculos, e que ele mesmo conhecera o inventor. Outro dominicano, Alessandro della Spina, de Pisa, é descrito numa crônica de seu convento como alguém que soube reproduzir os óculos depois que o inventor original se recusou a ensinar o segredo. O nome desse primeiro fabricante permanece desconhecido.

Veneza, com seus vidreiros de Murano, entra na história logo depois: regulamentos da guilda do cristal, de 1300 e 1301, mencionam 'discos para os olhos' e proíbem vender vidro comum como cristal. Durante séculos circulou a atribuição a um certo Salvino degli Armati, de Florença, com base numa lápide forjada no século XVII, hoje descartada pelos historiadores. O que resta é um objeto sem inventor conhecido, nascido entre Pisa, Florença e Veneza por volta de 1286, feito de duas lentes convexas em aros rebitados.

02Período histórico

O fim do século XIII foi um período de expansão intelectual na Europa. Universidades como Bolonha, Paris e Oxford formavam juristas, médicos e teólogos; mosteiros e oficinas copiavam manuscritos em ritmo crescente; mercadores italianos mantinham livros de contabilidade complexos. Tudo isso dependia de olhos que, com a idade, perdiam a capacidade de focar de perto. A presbiopia, que atinge quase todos depois dos quarenta anos, encerrava a carreira de copistas e estudiosos, e os óculos de lentes convexas resolviam exatamente esse problema.

O conhecimento óptico vindo do mundo islâmico, divulgado por Roger Bacon e outros franciscanos, e a técnica vidreira de Veneza, a mais avançada da Europa, convergiram no mesmo lugar e na mesma geração. Não foi coincidência que a invenção surgisse na Itália: ali estavam o vidro, a demanda e os leitores.

03Evolução ao longo do tempo

  1. Óculos de rebite e de ponte

    Os primeiros modelos eram dois aros com cabo, unidos por um rebite, que o usuário segurava diante do rosto ou equilibrava no nariz. Os aros mais antigos achados em escavações, como os do mosteiro de Wienhausen, na Alemanha, são de madeira e datam do século XIV. Depois vieram os óculos de ponte, com os aros ligados por um arco rígido que pinçava o nariz. Ambos corrigiam apenas a presbiopia. Lentes côncavas para miopia só se difundiram no século XV, e o papa Leão X aparece retratado por Rafael, em 1518, com uma delas na mão.

  2. A impressão multiplica os leitores

    Depois de Gutenberg, a quantidade de leitores cresceu, e com ela o mercado de óculos. Nos séculos XVI e XVII os fabricantes de Nuremberg e Ratisbona produziam modelos baratos de arame, vendidos por mascates em toda a Europa, enquanto os de Veneza mantinham a fama das lentes finas. Os óculos ainda não tinham hastes: eram presos por fitas atadas atrás da cabeça, apoiados no nariz ou amarrados a chapéus. Na Espanha eram sinal de erudição; em outras cortes, defeito a esconder.

  3. Hastes, lunetas e o monóculo

    As hastes laterais apoiadas sobre as orelhas aparecem em Londres por volta de 1727, atribuídas ao oculista Edward Scarlett, que anunciava 'óculos que se seguram sem as mãos'. Os primeiros modelos tinham hastes curtas que pressionavam as têmporas. No mesmo século surgiram as lentes bifocais, que Benjamin Franklin descreveu em carta de 1784 e provavelmente idealizou. O século XIX trouxe o pincenê, preso ao nariz por uma mola, o monóculo dos dândis e os primeiros exames de vista sistemáticos, com a tabela de Snellen, de 1862.

  4. Do aparelho à moda

    No século XX a armação virou objeto de design. O celuloide e depois o acetato permitiram cores e formatos, os óculos escuros ganharam popularidade com o cinema e a aviação, e modelos como o aviador e o wayfarer viraram ícones. Lentes de resina substituíram o vidro a partir dos anos 1980. Hoje coexistem lentes progressivas, lentes de contato e cirurgia refrativa, mas os óculos continuam a correção mais usada no mundo e um acessório de identidade.

04Fatos curiosos

  • O retrato mais antigo de alguém de óculos é um afresco de Tommaso da Modena, de 1352, em Treviso, que mostra o cardeal Hugo de Provença com um par de rebite, embora o cardeal tenha morrido antes de os óculos existirem.
  • A lápide de Salvino degli Armati, por séculos citada como prova de que ele inventara os óculos em Florença, foi desmascarada como falsificação, e o nome foi retirado das histórias sérias da óptica.
  • Benjamin Franklin escreveu em 1784 que mandara cortar suas lentes ao meio e montar as duas metades numa só armação, para ver de perto e de longe, o que se considera a primeira descrição das bifocais.
  • Óculos escuros com lentes de quartzo fumê eram usados por juízes na China pelo menos desde o século XV, mas para esconder a expressão, não para proteger do sol.
  • Estima-se que mais da metade da população mundial precise de correção visual, e que centenas de milhões de pessoas em países pobres ainda não tenham acesso a um par de óculos.

05Contexto social

Durante séculos os óculos foram instrumento de trabalho de uma elite letrada: monges, notários, mercadores e juízes. Na pintura renascentista aparecem nas mãos de santos eruditos e de usurários, com significados ambíguos: sabedoria em alguns contextos, velhice e fragilidade em outros. Na Espanha do século XVII, óculos grandes eram símbolo de dignidade, usados mesmo por quem via bem. Na Inglaterra e na França do XVIII, ao contrário, a etiqueta mandava esconder a necessidade de lentes, o que popularizou o monóculo e o lorgnon dobrável.

A democratização veio com a produção em série e com os sistemas de saúde. A partir do fim do século XIX, exames de vista em escolas e exércitos revelaram quantas pessoas enxergavam mal, e governos passaram a tratar a correção visual como questão de produtividade e segurança. Óculos baratos de aro metálico, distribuídos por programas públicos ou vendidos em lojas populares, tornaram a armação comum em todas as classes, embora o estigma do 'quatro-olhos' tenha marcado gerações de crianças.

06No Brasil

No Brasil colonial os óculos vinham de Portugal e eram raros, usados por clérigos, magistrados e comerciantes letrados. No século XIX, lojas de ópticos de imigrantes alemães e franceses se instalaram no Rio de Janeiro e em São Paulo, importando lentes e armações europeias, e algumas casas ópticas fundadas na virada do século XX seguem em atividade. A oftalmologia brasileira se organizou no mesmo período, com cátedras nas faculdades de medicina do Rio e da Bahia.

Hoje o Brasil tem indústria óptica própria, concentrada em São Paulo e no Rio Grande do Sul, e o Sistema Único de Saúde fornece óculos em programas de atenção básica e escolar a um país com dezenas de milhões de usuários.

07Linha do tempo

  1. c. 1286

    Surgem na Itália os primeiros óculos de duas lentes convexas.

  2. 1306

    Giordano da Pisa menciona a invenção em sermão em Florença.

  3. c. 1450

    Lentes côncavas para miopia começam a ser fabricadas.

  4. c. 1727

    Edward Scarlett vende em Londres óculos com hastes laterais.

  5. 1784

    Benjamin Franklin descreve suas lentes bifocais.

  6. Anos 1980

    Lentes de resina e policarbonato substituem o vidro na maioria dos óculos.

08Comparativo

Óculos medievais e óculos atuais
AspectoSéculo XIVHoje
LentesBerilo ou vidro, só convexasResina ou policarbonato, qualquer grau
FixaçãoSeguros à mão ou pinçados no narizHastes sobre as orelhas
ArmaçãoOsso, madeira, couro ou metalAcetato, metal, titânio
Quem usavaMonges, notários, mercadoresMais da metade da população adulta
PrescriçãoTentativa e erro no vendedorExame com optometria e oftalmologia

09Perguntas frequentes

Quem inventou os óculos?

O inventor é desconhecido. As fontes mais confiáveis situam a invenção no norte da Itália por volta de 1286, e o nome de Salvino degli Armati, muito citado, baseia-se numa lápide falsa.

Quando surgiram as hastes dos óculos?

Por volta de 1727, em Londres, com o oculista Edward Scarlett. Antes disso os óculos eram seguros à mão, presos ao nariz ou amarrados com fitas.

Os óculos mais antigos corrigiam miopia?

Não. Os primeiros usavam lentes convexas, que corrigem a presbiopia, a dificuldade de ver de perto. Lentes côncavas para míopes só se difundiram no século XV.

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11Fontes consultadas

  • Vincent Ilardi, Renaissance Vision from Spectacles to Telescopes, 2007
  • Edward Rosen, The Invention of Eyeglasses, Journal of the History of Medicine and Allied Sciences, 1956
  • Richard Corson, Fashions in Eyeglasses, 1967
  • Museo dell'Occhiale, Pieve di Cadore, Itália, coleção e catálogo
  • Encyclopaedia Britannica, verbete Eyeglasses

Este verbete foi redigido e revisado pela equipe editorial do Daily's Treasures a partir das fontes acima. Encontrou um erro? Escreva para nós.