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Verbete nº 032 · Transporte e mobilidade

Mala com rodinhas

A roda tem cinco mil anos e a mala tem séculos; juntá-las levou até 1970, e ainda assim ninguém quis comprar.

Século XX Deslocar Recipiente ou embalagem Nova York, Estados Unidos · 1970
Mala com rodinhas: A roda tem cinco mil anos e a mala tem séculos; juntá-las levou até 1970, e ainda assim ninguém quis comprar.
Imagem: Arths-at · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

01Origem

A combinação parece óbvia, mas tem uma cronologia curiosamente tardia. Malas rígidas, baús e valises acompanham viajantes desde pelo menos o século XVI, e há patentes de baús e malas com rodas desde o fim do século XIX e o início do XX, nenhuma transformada em produto duradouro. A explicação costuma ser prática: até meados do século XX, quem viajava de navio ou trem contava com carregadores, carrinhos e porteiros, e as malas eram projetadas para ser carregadas por outros. A roda não resolvia um problema que o viajante sentisse como seu, e o peso da bagagem era, em parte, sinal de status.

O cenário mudou com a aviação comercial a jato, a partir de 1958. Aeroportos cresceram, os corredores entre balcão e portão se alongaram e os carregadores escassearam. Em 1970, Bernard D. Sadow, vice-presidente da fabricante US Luggage, voltava de férias em Aruba com a família quando, arrastando duas malas pesadas na alfândega, viu um funcionário empurrar uma máquina sobre uma plataforma com rodízios. De volta à empresa, parafusou quatro rodízios de móveis na base de uma mala e acrescentou uma tira de couro para puxá-la. O pedido de patente, intitulado Rolling Luggage, foi depositado em 1970 e concedido em 1972.

Vender a ideia foi mais difícil que inventá-la. Sadow contava que lojas de departamento de Nova York recusaram o produto com o argumento de que homens não aceitariam puxar uma mala, tarefa que a cultura da época associava a carregadores, e que ninguém a compraria. A Macy's acabou aceitando, e a mala passou a ser anunciada como a bagagem que desliza. Mesmo assim, o modelo de quatro rodinhas na base, puxado por uma correia como um cachorro na coleira, tombava com facilidade nas curvas, e por quase duas décadas a mala com rodinhas foi um nicho, usado sobretudo por mulheres e viajantes idosos.

02Período histórico

A mala com rodinhas nasceu no auge da era do jato, quando o Boeing 747 entrou em serviço, em 1970, e as passagens aéreas começaram a ficar acessíveis à classe média dos países ricos. Era também o mundo das grandes lojas de departamento e da publicidade de massa, que decidiam quais produtos chegavam ao consumidor.

A segunda invenção, em 1987, ocorreu num mercado aéreo desregulado nos Estados Unidos desde 1978, com companhias competindo por preço, tripulações viajando sem parar e voos cheios. A pressa no aeroporto e o custo de despachar bagagem criaram o viajante que carrega tudo consigo e precisa de uma mala que ande.

03Evolução ao longo do tempo

  1. A Rollaboard de Robert Plath

    Em 1987, Robert Plath, piloto da Northwest Airlines, construiu na garagem uma mala vertical, estreita, com duas rodas na base e uma alça telescópica que se recolhia dentro da estrutura. Diferente do modelo de Sadow, ela era puxada na vertical, sem tombar, e cabia no compartimento acima das poltronas. Plath a batizou de Rollaboard e começou vendendo a colegas de tripulação; quando os passageiros viram pilotos e comissárias deslizando pelos aeroportos, a demanda cresceu, e ele fundou a Travelpro para produzir o modelo em escala. A mala vertical de alça telescópica é desde então o padrão mundial.

  2. Spinner e casco rígido

    Nos anos 2000, fabricantes adotaram quatro rodízios giratórios de 360 graus, o chamado spinner, que permite empurrar a mala ao lado do corpo sem carregar peso no braço; a Samsonite popularizou o formato a partir de 2004. Em 2000, a alemã Rimowa lançou malas de policarbonato, leves e resistentes a impacto, que substituíram o alumínio e o ABS nas linhas de alto preço. Rodas de poliuretano silenciosas, alças de alumínio com múltiplas posições e cadeados aceitos por autoridades aduaneiras completaram o produto atual.

  3. Tamanhos de cabine e bagagem paga

    A partir de 2008, companhias americanas passaram a cobrar pela bagagem despachada, e milhões de passageiros migraram para a bagagem de mão, com disputa por espaço nos compartimentos e limites de dimensão cada vez mais rígidos, em geral em torno de 55 por 35 por 25 centímetros. A mala de cabine com rodinhas virou o item mais vendido da categoria, e aeroportos redesenharam pisos, rampas e escadas rolantes para acomodá-la. Versões com bateria, balança embutida e rastreamento por celular surgiram na década de 2010, nem sempre com sucesso.

04Fatos curiosos

  • O ensaísta Nassim Taleb usa a mala com rodinhas como exemplo de que invenções simples podem levar milênios: a roda tem cerca de cinco mil anos, a mala moderna tem séculos, e a união das duas só se impôs nos anos 1970.
  • Antes da Rollaboard, muitos pilotos e comissários prendiam malas a carrinhos dobráveis de metal com elásticos, uma gambiarra que Plath quis eliminar.
  • Bernard Sadow afirmava que a resistência inicial do mercado era uma questão de machismo: executivos de lojas diziam que nenhum homem puxaria uma mala em público.
  • A patente de Sadow, de número 3.653.474, descreve a invenção como uma mala com rodízios e correia flexível, e foi concedida em abril de 1972.
  • O barulho das rodinhas em calçadas de pedra levou cidades turísticas, como Dubrovnik e Veneza, a discutir restrições ao arrasto de malas nos centros históricos.

05Contexto social

A mala com rodinhas é um caso raro em que a barreira à adoção foi cultural, e não técnica. A ideia de que carregar peso era uma demonstração de masculinidade, e de que puxar uma mala era serviço de carregador, adiou o produto por anos. Sua aceitação acompanhou a entrada de mulheres no mercado de viagens de negócios e o desaparecimento dos serviços de carregadores nos aeroportos.

O objeto também redistribuiu trabalho: a carga que antes era paga a carregadores e maleiros passou a ser feita pelo próprio viajante, sem custo aparente, e a mala de cabine permitiu às companhias aéreas reduzir pessoal de bagagem e cobrar por um serviço antes incluído. Em contrapartida, deu autonomia a idosos, a pessoas com limitações físicas e a quem viaja sozinho.

06No Brasil

No Brasil, as malas com rodinhas chegaram primeiro pela importação e por marcas nacionais que já fabricavam bagagem rígida, como a Primicia, fundada em 1964 em São Paulo. A popularização aconteceu com a expansão do transporte aéreo nos anos 2000, quando companhias de baixo custo e o crescimento da renda levaram milhões de brasileiros ao avião pela primeira vez, e com o uso em rodoviárias e estações de metrô. Em 2016, a Resolução 400 da ANAC, aplicada a partir de 2017, autorizou as companhias a cobrar pela bagagem despachada e fixou em 10 quilos a franquia de bagagem de mão, o que fez da mala de cabine com rodinhas o modelo mais procurado nas lojas do país.

Hoje o produto é vendido de lojas de departamento a camelôs, com modelos nacionais e importados, sobretudo da China, e as companhias instalaram gabaritos nos portões de embarque para medir a bagagem de mão.

07Linha do tempo

  1. fim do século XIX

    Primeiras patentes de baús e malas com rodas, sem sucesso comercial.

  2. 1958

    O início da aviação comercial a jato amplia aeroportos e corredores.

  3. 1970

    Bernard Sadow deposita a patente Rolling Luggage.

  4. 1972

    A patente é concedida e a Macy's começa a vender a mala.

  5. 1987

    Robert Plath cria a Rollaboard, vertical e com alça telescópica.

  6. 2000

    A Rimowa lança malas de policarbonato.

  7. 2004

    A Samsonite populariza o spinner de quatro rodas giratórias.

  8. 2008

    Companhias aéreas americanas passam a cobrar pela bagagem despachada.

  9. 2017

    No Brasil, a Resolução 400 da ANAC permite cobrar pela bagagem despachada.

08Comparativo

Mala de Sadow e mala de cabine atual
AspectoMala de Sadow (1970)Mala de cabine (hoje)
RodasQuatro rodízios fixos na baseDuas rodas ou quatro giratórias
Posição ao rodarDeitada, puxada por correiaVertical, com alça telescópica
MaterialLona vinílica sobre armaçãoPolicarbonato ou náilon
Estabilidade em curvasBaixa, tombavaAlta
Uso em aviãoDespachadaCabine, dentro dos limites
Público inicialMulheres e idososTodos os viajantes

09Perguntas frequentes

Quem inventou a mala com rodinhas?

Bernard Sadow patenteou a primeira versão comercial em 1970, com quatro rodízios e uma correia. O modelo vertical com alça telescópica, que se usa hoje, foi criado pelo piloto Robert Plath em 1987 e batizado de Rollaboard.

Por que demorou tanto para colocar rodas na mala?

Porque, até meados do século XX, viajantes contavam com carregadores e carrinhos, e porque havia resistência cultural: lojas achavam que homens não aceitariam puxar uma mala. A aviação de massa mudou o cálculo.

Qual é o tamanho permitido de uma mala de cabine no Brasil?

A ANAC fixa a franquia de bagagem de mão em 10 quilos, e as companhias costumam limitar as dimensões a cerca de 55 por 35 por 25 centímetros; vale conferir as regras de cada empresa antes de viajar.

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11Fontes consultadas

  • Joe Sharkey, Reinventing the Suitcase by Adding the Wheel, The New York Times, 2010
  • Nassim Nicholas Taleb, Antifrágil: coisas que se beneficiam com o caos, Best Business, 2014
  • Escritório de Patentes dos Estados Unidos (USPTO), patente 3.653.474, Rolling Luggage, 1972
  • Travelpro, histórico da empresa e da Rollaboard
  • ANAC, Resolução 400 de 2016, sobre condições gerais de transporte aéreo

Este verbete foi redigido e revisado pela equipe editorial do Daily's Treasures a partir das fontes acima. Encontrou um erro? Escreva para nós.