01Origem
O relógio portátil nasceu no século XVI, quando a mola em espiral substituiu os pesos e permitiu reduzir o mecanismo a um objeto que cabia na mão. Durante três séculos ele foi um relógio de bolso, preso por corrente ao colete masculino, símbolo de pontualidade e de posição. Pulseiras com relógio apareciam como joias: uma das mais antigas documentadas foi encomendada por Carolina Murat, rainha de Nápoles e irmã de Napoleão, ao relojoeiro Abraham-Louis Breguet, em 1810, e entregue em 1812. Era um objeto único, não um produto.
Em 1868 a casa suíça Patek Philippe fabricou um relógio de pulseira para a condessa húngara Koscowicz, tido como o primeiro feito em série para venda. Mesmo assim, até o fim do século XIX o relógio no pulso era coisa de mulheres ricas, tratado como bracelete. Os homens consideravam o bolso o único lugar digno para um mecanismo de precisão, e as revistas de relojoaria desdenhavam de expor uma peça delicada aos choques do braço.
O que mudou essa percepção foi a guerra. Oficiais britânicos já usavam relógios presos ao pulso por tiras de couro nas campanhas coloniais da década de 1880 e na Guerra dos Bôeres, porque coordenar tropas exigia ver as horas sem soltar as rédeas ou a arma. A Primeira Guerra generalizou o uso: ataques sincronizados pela artilharia dependiam de que todos os oficiais tivessem a hora exata à vista. Em 1914 o relógio de pulso masculino era uma excentricidade; em 1918 era obrigatório.
02Período histórico
O relógio de pulso ganhou forma num mundo que acabava de padronizar o tempo. Em 1884 a Conferência do Meridiano, em Washington, adotou Greenwich como referência, e as ferrovias já haviam imposto fusos horários uniformes nos Estados Unidos e na Europa. Fábrica, escola, trem e escritório funcionavam por horários fixos, e o cidadão precisava carregar a hora consigo. A Suíça, com sua indústria nos vales do Jura, e os Estados Unidos, com fábricas como a Waltham e a Elgin, disputavam o mercado do relógio barato e preciso.
A virada do século também trouxe a aviação e o automóvel, atividades em que as mãos estavam ocupadas e o bolso era inacessível. Em 1904 o aviador Alberto Santos-Dumont pediu ao amigo Louis Cartier um relógio que pudesse consultar em voo; o modelo, lançado comercialmente em 1911, é um dos primeiros relógios de pulso masculinos célebres. O objeto nasceu no encontro entre a hora padronizada e as máquinas que exigiam as duas mãos.
03Evolução ao longo do tempo
Da joia ao relógio de trincheira
Os primeiros relógios de pulso de série eram relógios de bolso pequenos com alças soldadas para a pulseira. Os modelos de guerra, chamados relógios de trincheira, ganharam mostradores com números grandes, ponteiros luminosos pintados com rádio e grades metálicas protegendo o vidro. A coroa de corda passou para a lateral, na posição das três horas, e a caixa recebeu vedação melhor. Depois de 1918 os veteranos levaram o hábito para casa, e a produção suíça de relógios de pulso ultrapassou a de bolso nos anos 1930.
Automáticos, estanques e esportivos
Em 1923 o relojoeiro John Harwood patenteou o primeiro relógio de pulso automático de produção, em que um peso oscilante dava corda com o movimento do braço. Em 1926 a Rolex lançou a caixa Oyster, com coroa rosqueada, que tornou o relógio resistente à água, e em 1927 a nadadora Mercedes Gleitze atravessou o Canal da Mancha com um deles. Nos anos 1950 vieram os relógios de mergulho e os cronógrafos de piloto, e em 1969 o Omega Speedmaster chegou à Lua.
A revolução do quartzo
Em 25 de dezembro de 1969 a japonesa Seiko lançou o Astron, o primeiro relógio de pulso de quartzo vendido ao público. Um cristal vibrando a 32.768 hertz, controlado por circuito eletrônico, marcava o tempo com precisão muito superior à de qualquer mecanismo de corda. Os preços caíram e surgiram os relógios digitais. A indústria suíça entrou na chamada crise do quartzo e perdeu dezenas de milhares de empregos, até reagir com o Swatch, em 1983, um relógio de plástico barato e colecionável.
Do objeto de luxo ao relógio inteligente
Nas décadas seguintes o relógio mecânico ressurgiu como artigo de luxo e de colecionismo, enquanto o quartzo dominou o uso cotidiano. O celular tirou de muita gente o motivo para usar relógio, e então a tela voltou ao pulso: os smartwatches, populares a partir de 2015, medem passos, batimentos e sono e recebem mensagens. O relógio de pulso dividiu-se em dois mundos: o do mecanismo tradicional, valorizado pela técnica, e o do computador de pulso, trocado a cada poucos anos.
04Fatos curiosos
- A tinta luminosa à base de rádio dos ponteiros adoeceu gravemente as operárias que a aplicavam nos Estados Unidos nos anos 1920, as 'Radium Girls', cujo processo judicial mudou as leis trabalhistas.
- O relógio pedido por Santos-Dumont a Cartier em 1904 tinha caixa quadrada e parafusos aparentes, e o modelo que leva seu nome continua em produção.
- Em 1969 Buzz Aldrin pisou na Lua com um Omega Speedmaster por fora do traje; Neil Armstrong deixou o dele no módulo porque o relógio de bordo havia falhado.
- A Seiko lançou o Astron em 1969 por um preço equivalente ao de um carro popular japonês; dez anos depois relógios de quartzo custavam menos que um almoço.
- Não há regra sobre o pulso em que se usa o relógio: a maioria escolhe o não dominante, para proteger o mecanismo e dar corda com a mão hábil.
05Contexto social
O relógio de pulso inverteu um código de gênero em poucos anos. Até 1914 era acessório feminino e, portanto, pouco sério para homens, que exibiam o relógio de bolso como sinal de respeitabilidade. A guerra tornou o pulso viril, e nos anos 1920 o relógio de bolso virou peça de velhos. Para as mulheres, o relógio passou de joia a instrumento de trabalho quando entraram em massa em escritórios, fábricas e hospitais, onde a pontualidade era cobrada.
O objeto também traduziu a disciplina do tempo industrial para o corpo de cada pessoa. Chegar na hora deixou de depender do sino da igreja ou do relógio da estação: a responsabilidade pelo horário passou a ser individual, e o relógio no pulso virou símbolo dessa obrigação. Em muitos países, o primeiro relógio é presente de formatura ou de maioridade, um rito de entrada na vida adulta regulada por horários.
06No Brasil
No Brasil, relógios de bolso e de pulso foram por muito tempo importados da Suíça, da Alemanha e dos Estados Unidos e vendidos por joalherias tradicionais do Rio de Janeiro e de São Paulo. Uma indústria nacional surgiu no pós-guerra com montadoras de mecanismos importados e, a partir de 1972, com a Zona Franca de Manaus, onde marcas estrangeiras e nacionais instalaram linhas de montagem. O brasileiro Santos-Dumont está ligado à própria origem do relógio de pulso masculino, pelo pedido que fez a Cartier em 1904.
Nas décadas de 1970 e 1980 o relógio digital importado, muitas vezes vindo do Paraguai, virou objeto de desejo popular. Hoje Manaus segue como polo de montagem, o relógio inteligente cresce entre os jovens e o colecionismo de mecânicos antigos mantém feiras e comunidades ativas.
07Linha do tempo
- 1810
Breguet recebe da rainha de Nápoles a encomenda de um relógio de pulseira.
- 1868
Patek Philippe fabrica um relógio de pulso para a condessa Koscowicz.
- 1904
Santos-Dumont pede a Louis Cartier um relógio para usar em voo.
- 1914-1918
A Primeira Guerra populariza o relógio de pulso entre os homens.
- 1969
A Seiko lança o Astron, primeiro relógio de pulso de quartzo.
- 2015
Os relógios inteligentes se popularizam em escala mundial.
08Comparativo
| Aspecto | Década de 1910 | Hoje |
|---|---|---|
| Mecanismo | Corda manual | Quartzo, automático ou eletrônico |
| Precisão | Até um minuto por dia | Segundos por mês ou sincronizado por rádio |
| Resistência à água | Quase nenhuma | Dezenas ou centenas de metros |
| Quem usava | Oficiais e mulheres ricas | Qualquer pessoa, em todas as classes |
| Funções | Horas e minutos | Horas, cronômetro, sensores de saúde, mensagens |
09Perguntas frequentes
Quem inventou o relógio de pulso?
Não há um inventor único: Breguet fez um relógio de pulseira para a rainha de Nápoles em 1810, a Patek Philippe produziu um em série em 1868 e a Primeira Guerra o generalizou entre os homens.
Qual a ligação de Santos-Dumont com o relógio de pulso?
Em 1904 o aviador brasileiro pediu a Louis Cartier um relógio que pudesse consultar sem tirar as mãos dos comandos; o modelo lançado em 1911 ajudou a popularizar o uso masculino.
Por que os relógios de quartzo são mais precisos?
O cristal de quartzo vibra em frequência constante de 32.768 vezes por segundo, controlada por circuito eletrônico, enquanto o mecanismo de corda depende de molas e engrenagens sujeitas a atrito e temperatura.
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11Fontes consultadas
- David Landes, Revolution in Time: Clocks and the Making of the Modern World, 1983
- Dominique Fléchon, The Mastery of Time, Fondation de la Haute Horlogerie, 2011
- Musée International d'Horlogerie, La Chaux-de-Fonds, Suíça, coleção permanente
- Alexis McCrossen, Marking Modern Times, 2013
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