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Verbete nº 008 · Objetos domésticos

Ferro de passar

Calor e peso contra o amassado: dois mil anos de um objeto que sempre dependeu de braços cansados.

Antiguidade Limpar e cuidar Utensílio China, dinastia Han · c. século I a.C.
Ferro de passar: Calor e peso contra o amassado: dois mil anos de um objeto que sempre dependeu de braços cansados.
Imagem: Lambtron · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

01Origem

O desejo de alisar tecidos é antigo, e os primeiros instrumentos não se pareciam com um ferro. Na China da dinastia Han, por volta do século I a.C., usava-se uma espécie de panela de bronze com cabo longo, cheia de carvão em brasa, que era passada sobre a seda esticada. É o aparelho mais antigo conhecido que combina calor e pressão para alisar roupa, e o desenho sobreviveu na China até o século XX. Na Europa, o princípio demorou séculos para aparecer; antes dele, o alisamento era feito a frio.

Nas sociedades nórdicas da Era Viking, entre os séculos VIII e XI, mulheres usavam alisadores de vidro, discos escuros com fundo convexo encontrados em sepulturas, esfregados sobre o linho úmido estendido em uma tábua de madeira ou de osso de baleia. Mais tarde, na Europa medieval, o mesmo serviço era feito com pedras lisas, blocos de madeira e prensas de parafuso para toalhas e lençóis. Esses métodos a frio não exigiam fogo, mas também não eliminavam vincos profundos.

O ferro de passar aquecido, uma peça maciça de ferro fundido com cabo, aparece em inventários europeus a partir do século XVII. Era aquecido diretamente sobre a chapa do fogão ou junto ao fogo e usado até esfriar, quando se trocava por outro já quente; daí o costume de ter vários em casa. Em inglês ficou conhecido como sad iron, em que sad conserva o sentido antigo de sólido ou pesado. Variantes com uma cavidade para receber brasas ou um lingote de ferro aquecido, os ferros de caixa, evitavam a fuligem no tecido.

02Período histórico

Os séculos XVII e XVIII foram a era do linho e do algodão engomado. Golas, punhos e camisas brancas eram sinal de respeitabilidade, e manter tudo liso exigia horas de trabalho doméstico. O ferro pesado, aquecido no fogão a lenha ou a carvão, tornou-se ferramenta obrigatória de lavadeiras e engomadeiras, ofícios femininos e mal pagos que se espalharam pelas cidades europeias e americanas.

A Revolução Industrial multiplicou os tecidos de algodão baratos e, com eles, a quantidade de roupa a passar. Fundições passaram a produzir ferros padronizados em série, e a chegada do gás encanado e, depois, da eletricidade às cidades no fim do século XIX criou a possibilidade de aquecer o ferro sem fogão, abrindo caminho para o aparelho elétrico.

03Evolução ao longo do tempo

  1. Ferro maciço e ferro de brasa

    O ferro maciço, aquecido no fogo, exigia revezar peças e limpar a base a cada uso, pois a fuligem manchava o tecido. O ferro de brasa, com corpo oco, tampa e pequena chaminé, mantinha o calor por mais tempo e espalhou-se pela Europa, pela Ásia e pelas Américas, sendo o modelo mais comum em regiões sem eletricidade até meados do século XX. Ferros a álcool e a gás, do fim do século XIX, foram soluções intermediárias.

  2. O cabo que não queima

    Em 1870 e 1871 a americana Mary Florence Potts, de Ottumwa, Iowa, patenteou aprimoramentos do ferro de fogão, entre eles o cabo destacável de madeira: várias bases ficavam aquecendo enquanto o mesmo cabo frio passava de uma para outra, protegendo a mão da engomadeira. O modelo foi vendido em grande quantidade por fabricantes licenciados e é um dos raros objetos domésticos do século XIX com inventora conhecida e patente em seu nome.

  3. A eletricidade chega ao ferro

    Em 1882 Henry W. Seely, de Nova York, patenteou um ferro aquecido por resistência elétrica. A invenção veio cedo demais: poucas casas tinham eletricidade, e muitas companhias só forneciam energia à noite, para iluminação. O ferro elétrico só se popularizou nas décadas de 1910 e 1920, quando a rede se expandiu, e o termostato ajustável, difundido a partir dos anos 1920 e 1930, permitiu escolher a temperatura para cada tecido.

  4. Vapor, antiaderente e sem fio

    O ferro a vapor doméstico surgiu nos Estados Unidos na década de 1920 e se tornou padrão depois da Segunda Guerra, umedecendo o tecido pela própria base. Bases de alumínio, de aço inox e revestidas com antiaderente ou cerâmica substituíram o ferro fundido. Vieram então o desligamento automático, as estações de vapor sob pressão, os modelos sem fio com base aquecedora e os vaporizadores verticais, que dispensam a tábua.

04Fatos curiosos

  • Em inglês antigo, sad significava sólido ou pesado, e é esse sentido que sobrevive no nome sad iron, o ferro maciço de fogão, e não o de triste.
  • Muitos ferros de brasa tinham uma pequena chaminé para a fumaça e um galo de latão como trava da tampa, detalhe que virou marca desses modelos.
  • Um ferro de fogão típico do século XIX pesava entre dois e quatro quilos, e as engomadeiras alternavam várias peças durante jornadas que podiam passar de doze horas.
  • A tábua de passar com pernas dobráveis é invenção do século XIX, com diversas patentes americanas registradas a partir da década de 1850; antes dela, passava-se sobre a mesa coberta por um cobertor.
  • O verbo engomar vem da goma, pasta de amido de mandioca, milho ou arroz aplicada nas roupas antes de passar para dar rigidez e brilho a golas e punhos.

05Contexto social

Passar roupa foi uma das tarefas mais pesadas e menos reconhecidas do trabalho doméstico. Nas casas ricas havia engomadeiras contratadas ou, nas Américas, escravizadas; nas pobres, a mulher da família acumulava a tarefa com a lavagem. A roupa impecável do homem de negócios do século XIX dependia de horas de trabalho invisível, e a lavanderia foi um dos primeiros serviços domésticos a se profissionalizar nas cidades, com forte presença de mulheres negras e imigrantes.

O ferro elétrico foi um dos primeiros eletrodomésticos a entrar nas casas, antes mesmo da geladeira, porque era barato e usava a tomada de iluminação. Ainda assim, a mecanização não reduziu o tempo gasto: pesquisas sobre trabalho doméstico no século XX mostram que a facilidade de passar elevou o padrão esperado de roupa lisa. Só os tecidos sintéticos e a aceitação social do amassado, a partir dos anos 1970, aliviaram a tarefa.

06No Brasil

No Brasil, o ferro a brasa foi o instrumento das engomadeiras, ofício exercido no século XIX sobretudo por mulheres negras escravizadas e libertas, que lavavam e passavam para famílias e hotéis nas cidades e eram frequentemente anunciadas nos jornais da época. A goma de polvilho de mandioca era a receita nacional para engomar, e a expressão ferro de engomar ainda é usada em várias regiões. Em muitas casas rurais sem eletricidade, o ferro de brasa, com seu galinho de latão na tampa, continuou em uso até a segunda metade do século XX.

O ferro elétrico começou a ser importado nas primeiras décadas do século XX para as cidades eletrificadas e, a partir das décadas de 1940 e 1950, passou a ser fabricado no país por empresas nacionais de eletrodomésticos, como a Arno e a Walita, ambas de São Paulo, ao lado de marcas estrangeiras instaladas no Brasil. Hoje o ferro a vapor está presente na grande maioria dos domicílios, e o ferro de brasa sobreviveu como peça de decoração e de museus de história do cotidiano.

07Linha do tempo

  1. c. século I a.C.

    Na China Han, panelas de bronze com brasas são usadas para alisar seda.

  2. Séculos VIII a XI

    Alisadores de vidro e tábuas de madeira ou osso são usados na Escandinávia viking.

  3. Século XVII

    Ferros maciços de ferro fundido, aquecidos no fogão, aparecem em inventários europeus.

  4. 1871

    Mary Florence Potts patenteia o ferro com cabo destacável, que permanece frio.

  5. 1882

    Henry W. Seely patenteia em Nova York o ferro aquecido por eletricidade.

  6. Década de 1920

    Surgem nos Estados Unidos os primeiros ferros a vapor domésticos e os termostatos ajustáveis.

  7. Década de 1950

    O ferro elétrico a vapor se torna padrão nos lares urbanos, inclusive no Brasil.

08Comparativo

Ferro de passar: brasa e vapor
AspectoFerro de brasaFerro elétrico a vapor
Fonte de calorCarvão em brasa dentro do corpoResistência elétrica
Controle de temperaturaNenhum, pelo tato e pela práticaTermostato por tipo de tecido
Peso3 a 5 kgCerca de 1 a 1,5 kg
UmidadeBorrifada à mãoVapor pela base
RiscoFuligem e queimadurasQueimadura e choque, reduzidos por proteções

09Perguntas frequentes

Qual é o ferro de passar mais antigo?

O mais antigo conhecido é a panela de bronze com brasas da China da dinastia Han, usada por volta do século I a.C. para alisar seda. O ferro maciço europeu só aparece no século XVII.

Quem inventou o ferro elétrico?

Henry W. Seely, de Nova York, patenteou em 1882 um ferro aquecido por resistência elétrica. O aparelho só se popularizou décadas depois, com a expansão da rede elétrica.

Como funcionava o ferro a brasa?

O corpo oco de ferro fundido recebia carvão em brasa, e uma tampa com chaminé deixava sair a fumaça. O calor era controlado pela prática, e o modelo foi comum no Brasil até meados do século XX.

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11Fontes consultadas

  • Ruth Schwartz Cowan, More Work for Mother, 1983
  • Smithsonian National Museum of American History, coleção de ferros de passar
  • Patente norte-americana nº 259.054, Henry W. Seely, 1882
  • Enciclopédia Britânica, verbete Ironing
  • Museu da Casa Brasileira, São Paulo, acervo de objetos domésticos

Este verbete foi redigido e revisado pela equipe editorial do Daily's Treasures a partir das fontes acima. Encontrou um erro? Escreva para nós.