01Origem
O desejo de alisar tecidos é antigo, e os primeiros instrumentos não se pareciam com um ferro. Na China da dinastia Han, por volta do século I a.C., usava-se uma espécie de panela de bronze com cabo longo, cheia de carvão em brasa, que era passada sobre a seda esticada. É o aparelho mais antigo conhecido que combina calor e pressão para alisar roupa, e o desenho sobreviveu na China até o século XX. Na Europa, o princípio demorou séculos para aparecer; antes dele, o alisamento era feito a frio.
Nas sociedades nórdicas da Era Viking, entre os séculos VIII e XI, mulheres usavam alisadores de vidro, discos escuros com fundo convexo encontrados em sepulturas, esfregados sobre o linho úmido estendido em uma tábua de madeira ou de osso de baleia. Mais tarde, na Europa medieval, o mesmo serviço era feito com pedras lisas, blocos de madeira e prensas de parafuso para toalhas e lençóis. Esses métodos a frio não exigiam fogo, mas também não eliminavam vincos profundos.
O ferro de passar aquecido, uma peça maciça de ferro fundido com cabo, aparece em inventários europeus a partir do século XVII. Era aquecido diretamente sobre a chapa do fogão ou junto ao fogo e usado até esfriar, quando se trocava por outro já quente; daí o costume de ter vários em casa. Em inglês ficou conhecido como sad iron, em que sad conserva o sentido antigo de sólido ou pesado. Variantes com uma cavidade para receber brasas ou um lingote de ferro aquecido, os ferros de caixa, evitavam a fuligem no tecido.
02Período histórico
Os séculos XVII e XVIII foram a era do linho e do algodão engomado. Golas, punhos e camisas brancas eram sinal de respeitabilidade, e manter tudo liso exigia horas de trabalho doméstico. O ferro pesado, aquecido no fogão a lenha ou a carvão, tornou-se ferramenta obrigatória de lavadeiras e engomadeiras, ofícios femininos e mal pagos que se espalharam pelas cidades europeias e americanas.
A Revolução Industrial multiplicou os tecidos de algodão baratos e, com eles, a quantidade de roupa a passar. Fundições passaram a produzir ferros padronizados em série, e a chegada do gás encanado e, depois, da eletricidade às cidades no fim do século XIX criou a possibilidade de aquecer o ferro sem fogão, abrindo caminho para o aparelho elétrico.
03Evolução ao longo do tempo
Ferro maciço e ferro de brasa
O ferro maciço, aquecido no fogo, exigia revezar peças e limpar a base a cada uso, pois a fuligem manchava o tecido. O ferro de brasa, com corpo oco, tampa e pequena chaminé, mantinha o calor por mais tempo e espalhou-se pela Europa, pela Ásia e pelas Américas, sendo o modelo mais comum em regiões sem eletricidade até meados do século XX. Ferros a álcool e a gás, do fim do século XIX, foram soluções intermediárias.
O cabo que não queima
Em 1870 e 1871 a americana Mary Florence Potts, de Ottumwa, Iowa, patenteou aprimoramentos do ferro de fogão, entre eles o cabo destacável de madeira: várias bases ficavam aquecendo enquanto o mesmo cabo frio passava de uma para outra, protegendo a mão da engomadeira. O modelo foi vendido em grande quantidade por fabricantes licenciados e é um dos raros objetos domésticos do século XIX com inventora conhecida e patente em seu nome.
A eletricidade chega ao ferro
Em 1882 Henry W. Seely, de Nova York, patenteou um ferro aquecido por resistência elétrica. A invenção veio cedo demais: poucas casas tinham eletricidade, e muitas companhias só forneciam energia à noite, para iluminação. O ferro elétrico só se popularizou nas décadas de 1910 e 1920, quando a rede se expandiu, e o termostato ajustável, difundido a partir dos anos 1920 e 1930, permitiu escolher a temperatura para cada tecido.
Vapor, antiaderente e sem fio
O ferro a vapor doméstico surgiu nos Estados Unidos na década de 1920 e se tornou padrão depois da Segunda Guerra, umedecendo o tecido pela própria base. Bases de alumínio, de aço inox e revestidas com antiaderente ou cerâmica substituíram o ferro fundido. Vieram então o desligamento automático, as estações de vapor sob pressão, os modelos sem fio com base aquecedora e os vaporizadores verticais, que dispensam a tábua.
04Fatos curiosos
- Em inglês antigo, sad significava sólido ou pesado, e é esse sentido que sobrevive no nome sad iron, o ferro maciço de fogão, e não o de triste.
- Muitos ferros de brasa tinham uma pequena chaminé para a fumaça e um galo de latão como trava da tampa, detalhe que virou marca desses modelos.
- Um ferro de fogão típico do século XIX pesava entre dois e quatro quilos, e as engomadeiras alternavam várias peças durante jornadas que podiam passar de doze horas.
- A tábua de passar com pernas dobráveis é invenção do século XIX, com diversas patentes americanas registradas a partir da década de 1850; antes dela, passava-se sobre a mesa coberta por um cobertor.
- O verbo engomar vem da goma, pasta de amido de mandioca, milho ou arroz aplicada nas roupas antes de passar para dar rigidez e brilho a golas e punhos.
05Contexto social
Passar roupa foi uma das tarefas mais pesadas e menos reconhecidas do trabalho doméstico. Nas casas ricas havia engomadeiras contratadas ou, nas Américas, escravizadas; nas pobres, a mulher da família acumulava a tarefa com a lavagem. A roupa impecável do homem de negócios do século XIX dependia de horas de trabalho invisível, e a lavanderia foi um dos primeiros serviços domésticos a se profissionalizar nas cidades, com forte presença de mulheres negras e imigrantes.
O ferro elétrico foi um dos primeiros eletrodomésticos a entrar nas casas, antes mesmo da geladeira, porque era barato e usava a tomada de iluminação. Ainda assim, a mecanização não reduziu o tempo gasto: pesquisas sobre trabalho doméstico no século XX mostram que a facilidade de passar elevou o padrão esperado de roupa lisa. Só os tecidos sintéticos e a aceitação social do amassado, a partir dos anos 1970, aliviaram a tarefa.
06No Brasil
No Brasil, o ferro a brasa foi o instrumento das engomadeiras, ofício exercido no século XIX sobretudo por mulheres negras escravizadas e libertas, que lavavam e passavam para famílias e hotéis nas cidades e eram frequentemente anunciadas nos jornais da época. A goma de polvilho de mandioca era a receita nacional para engomar, e a expressão ferro de engomar ainda é usada em várias regiões. Em muitas casas rurais sem eletricidade, o ferro de brasa, com seu galinho de latão na tampa, continuou em uso até a segunda metade do século XX.
O ferro elétrico começou a ser importado nas primeiras décadas do século XX para as cidades eletrificadas e, a partir das décadas de 1940 e 1950, passou a ser fabricado no país por empresas nacionais de eletrodomésticos, como a Arno e a Walita, ambas de São Paulo, ao lado de marcas estrangeiras instaladas no Brasil. Hoje o ferro a vapor está presente na grande maioria dos domicílios, e o ferro de brasa sobreviveu como peça de decoração e de museus de história do cotidiano.
07Linha do tempo
- c. século I a.C.
Na China Han, panelas de bronze com brasas são usadas para alisar seda.
- Séculos VIII a XI
Alisadores de vidro e tábuas de madeira ou osso são usados na Escandinávia viking.
- Século XVII
Ferros maciços de ferro fundido, aquecidos no fogão, aparecem em inventários europeus.
- 1871
Mary Florence Potts patenteia o ferro com cabo destacável, que permanece frio.
- 1882
Henry W. Seely patenteia em Nova York o ferro aquecido por eletricidade.
- Década de 1920
Surgem nos Estados Unidos os primeiros ferros a vapor domésticos e os termostatos ajustáveis.
- Década de 1950
O ferro elétrico a vapor se torna padrão nos lares urbanos, inclusive no Brasil.
08Comparativo
| Aspecto | Ferro de brasa | Ferro elétrico a vapor |
|---|---|---|
| Fonte de calor | Carvão em brasa dentro do corpo | Resistência elétrica |
| Controle de temperatura | Nenhum, pelo tato e pela prática | Termostato por tipo de tecido |
| Peso | 3 a 5 kg | Cerca de 1 a 1,5 kg |
| Umidade | Borrifada à mão | Vapor pela base |
| Risco | Fuligem e queimaduras | Queimadura e choque, reduzidos por proteções |
09Perguntas frequentes
Qual é o ferro de passar mais antigo?
O mais antigo conhecido é a panela de bronze com brasas da China da dinastia Han, usada por volta do século I a.C. para alisar seda. O ferro maciço europeu só aparece no século XVII.
Quem inventou o ferro elétrico?
Henry W. Seely, de Nova York, patenteou em 1882 um ferro aquecido por resistência elétrica. O aparelho só se popularizou décadas depois, com a expansão da rede elétrica.
Como funcionava o ferro a brasa?
O corpo oco de ferro fundido recebia carvão em brasa, e uma tampa com chaminé deixava sair a fumaça. O calor era controlado pela prática, e o modelo foi comum no Brasil até meados do século XX.
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11Fontes consultadas
- Ruth Schwartz Cowan, More Work for Mother, 1983
- Smithsonian National Museum of American History, coleção de ferros de passar
- Patente norte-americana nº 259.054, Henry W. Seely, 1882
- Enciclopédia Britânica, verbete Ironing
- Museu da Casa Brasileira, São Paulo, acervo de objetos domésticos
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