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Verbete nº 007 · Objetos domésticos

Sabão

Uma reação entre gordura e cinzas que levou quase cinco mil anos para virar hábito de higiene diária.

Antiguidade Limpar e cuidar Material ou substância Mesopotâmia (Suméria) · c. 2800 a.C.
Sabão: Uma reação entre gordura e cinzas que levou quase cinco mil anos para virar hábito de higiene diária.
Imagem: DimiTalen · Wikimedia Commons · CC0 (domínio público)

01Origem

O sabão é o resultado de uma reação química simples: gordura mais um álcali, como a lixívia obtida de cinzas vegetais, aquecidos juntos. Uma tabuleta suméria da cidade de Girsu, datada de cerca de 2800 a.C., é citada como o registro mais antigo, com uma receita que mistura água, álcali e óleo de cássia. Tabuletas posteriores da Babilônia descrevem o uso dessa pasta para lavar lã e tecidos, não o corpo. A descoberta foi provavelmente acidental: gordura escorrida sobre cinzas de fogueira formava uma pasta que removia sujeira.

O papiro Ebers, do Egito de cerca de 1550 a.C., menciona pastas de óleos e sais alcalinos usadas para lavar e tratar doenças de pele. No mundo greco-romano, porém, a limpeza do corpo era feita com azeite raspado por um estrígil e com banhos, e a palavra sapo aparece em Plínio, o Velho, no século I, descrevendo um produto de sebo e cinzas usado por gauleses e germanos para avermelhar e fixar os cabelos. Galeno, no século II, é o primeiro a recomendar o sabão como agente de limpeza corporal.

A tradição de que o nome viria do monte Sapo, em Roma, onde a gordura de sacrifícios escorreria com cinzas até o Tibre, é lenda sem base documental: não existe tal monte, e a palavra tem provável origem germânica ou céltica. O sabão de qualidade, feito com azeite de oliva e cinzas de plantas marinhas ricas em sódio, desenvolveu-se no Mediterrâneo oriental. Aleppo, na Síria, produz sabão de azeite e óleo de louro há mais de mil anos, e dela a técnica passou a Castela, Gênova, Veneza e Marselha.

02Período histórico

A Marselha do século XVII tornou-se a capital europeia do sabão. Em 1688 um édito de Luís XIV, inspirado pelas políticas de Colbert, fixou as regras do savon de Marseille: só azeite de oliva puro, sem gorduras animais, e caldeiras paradas no verão, quando o calor comprometia a qualidade. O sabão era então produto de luxo para lavar roupa fina, não item de higiene diária.

Na mesma época, banhar-se era visto com desconfiança na Europa. Médicos acreditavam que a água abria os poros às doenças, e a limpeza se fazia trocando a roupa branca e perfumando o corpo. O sabão só se associou ao banho e à saúde no século XIX, quando a química barateou a produção e as teorias sobre micróbios transformaram a higiene em dever cívico.

03Evolução ao longo do tempo

  1. Pasta de cinzas e gordura

    Por milênios o sabão foi uma pasta mole, feita em casa ou em pequenas oficinas. As cinzas de madeira, lixiviadas com água, forneciam um álcali de potássio que produz sabão líquido ou pastoso; para obter barras firmes era preciso álcali de sódio, extraído de cinzas de plantas de salinas ou de algas, mais raras. Por isso o sabão duro, mediterrâneo, era mais caro que o sabão mole do norte da Europa.

  2. O sabão mediterrâneo de azeite

    Aleppo, Nablus, Castela e Marselha aperfeiçoaram o sabão duro de azeite de oliva, cozido durante dias em grandes caldeiras e seco em blocos. O sabão de Castela ficou famoso na Inglaterra como o mais suave, e os de Marselha e Gênova abasteceram a lavagem de tecidos de toda a Europa. O processo era regulado por corporações e pelo Estado, que via no produto uma fonte de impostos.

  3. A química do século XIX

    Em 1791 Nicolas Leblanc patenteou o processo que produzia carbonato de sódio a partir de sal comum, libertando os saboeiros das cinzas. Em 1823 Michel Eugène Chevreul explicou a natureza das gorduras e da saponificação, dando base científica à indústria. Com soda barata, gorduras importadas e vapor, fábricas inglesas, francesas e americanas passaram a produzir toneladas de sabão em barra uniforme e a vendê-lo embalado e com marca.

  4. Marca, sabonete e detergente

    Em 1807 Andrew Pears lançou em Londres o sabonete transparente, e em 1884 os irmãos Lever criaram o Sunlight, vendido em tabletes embrulhados com nome próprio e anunciado em massa, modelo de toda a indústria de bens de consumo posterior. No século XX os detergentes sintéticos tomaram a lavagem de roupa e louça, mas o sabão em barra permaneceu para o corpo e a limpeza doméstica.

04Fatos curiosos

  • O sabão de Marselha tradicional traz no cubo a inscrição 72% d'huile, referência ao teor mínimo de óleo que marcou o padrão de qualidade no século XIX.
  • Plínio, o Velho, descreve o sabão não como produto de limpeza, mas como pomada usada por gauleses e germanos para tingir o cabelo de vermelho; os romanos preferiam o azeite e o estrígil.
  • Na Inglaterra, o sabão foi tributado de 1712 a 1853, o que tornava o produto caro; a abolição do imposto, defendida por reformadores sanitários, foi vista como medida de saúde pública.
  • A palavra sabonete, diminutivo de sabão, designa a barra pequena e perfumada para o corpo; a distinção entre sabão e sabonete é típica do português e pouco comum em outras línguas.
  • A novela de rádio e de televisão ganhou o apelido inglês de soap opera porque os primeiros programas do gênero, nos Estados Unidos dos anos 1930, eram patrocinados por fabricantes de sabão como a Procter & Gamble.

05Contexto social

O sabão foi, por muito tempo, produto de luxo e de trabalho. Nas casas rurais, fazê-lo era tarefa feminina pesada, que exigia guardar gordura e cinzas durante meses e cozinhar a mistura ao ar livre. O sabão comprado indicava renda. No século XIX, a higiene virou marcador moral: a limpeza era associada à respeitabilidade da classe média e a sujeira, à pobreza, em discursos que misturavam saúde pública e preconceito social.

A publicidade de sabão moldou a cultura de consumo. Marcas como Pears, Sunlight e Ivory inventaram o anúncio ilustrado, o slogan e o patrocínio de programas, e também reproduziram estereótipos coloniais e raciais em suas campanhas, hoje estudados por historiadores. Ao mesmo tempo, o acesso ao sabão barato reduziu de fato doenças infecciosas, e lavar as mãos continua sendo uma das medidas de saúde mais eficazes que existem.

06No Brasil

No Brasil colonial e imperial, o sabão era produzido nas fazendas e nas cidades com sebo de boi e decoada, a lixívia obtida de cinzas, e em alguns lugares com óleos de coco, babaçu ou mamona. O sabão de cinzas, ou sabão caseiro, continuou sendo feito em casa no interior até bem avançado o século XX, e ainda é comum a reciclagem de óleo de cozinha usado em barras artesanais. O sabão de coco, suave e sem perfume, tornou-se um produto tipicamente brasileiro para roupas de bebê e peles sensíveis.

A indústria se consolidou no século XX. A Phebo, fundada em Belém em 1930 por imigrantes portugueses, criou o sabonete de glicerina com perfume de ervas da Amazônia. A Lever instalou-se em São Paulo em 1929 com o sabão Sunlight e, em 1957, lançou o sabão em pó Omo, que mudou o hábito de lavar roupa nas cidades. O sabão em pedra, porém, resistiu: marcas como Ypê seguem vendendo barras para lavar roupa à mão, costume que nunca desapareceu do país.

07Linha do tempo

  1. c. 2800 a.C.

    Tabuleta suméria de Girsu registra a receita mais antiga conhecida de sabão.

  2. c. 1550 a.C.

    O papiro Ebers menciona pastas alcalinas usadas para lavar e tratar a pele.

  3. Século I

    Plínio, o Velho, descreve o sapo dos gauleses e germanos na História Natural.

  4. 1688

    Édito de Luís XIV regulamenta o sabão de Marselha, feito apenas com azeite de oliva.

  5. 1791

    Nicolas Leblanc patenteia o processo de obtenção de soda a partir do sal.

  6. 1884

    Os irmãos Lever lançam o Sunlight, sabão de marca vendido embalado e anunciado em massa.

  7. 1930

    A Phebo é fundada em Belém e lança o sabonete de glicerina.

  8. 1957

    O sabão em pó Omo chega ao mercado brasileiro.

08Comparativo

Sabão: do caseiro ao industrial
AspectoSabão caseiro tradicionalSabão industrial
ÁlcaliLixívia de cinzasSoda cáustica
GorduraSebo ou azeiteÓleos de palma, coco e sebo refinado
ConsistênciaPasta mole ou barra irregularBarra ou pó uniforme
FabricaçãoDoméstica, por cozimentoContínua, em fábrica
Uso principalRoupa e louçaCorpo, roupa, louça e indústria

09Perguntas frequentes

Como o sabão foi descoberto?

Provavelmente por acaso, ao se observar que gordura misturada a cinzas formava uma pasta que limpava. O registro mais antigo é uma tabuleta suméria de cerca de 2800 a.C.

Qual a diferença entre sabão e detergente?

O sabão é feito de gorduras ou óleos saponificados com álcali. Os detergentes são compostos sintéticos derivados do petróleo, criados no século XX, que não formam resíduo em água dura.

O que é o sabão de Marselha?

Um sabão duro de azeite de oliva, regulamentado por édito real em 1688. O cubo com a inscrição 72% de óleo virou símbolo de qualidade e ainda é produzido na região.

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11Fontes consultadas

  • Katherine Ashenburg, The Dirt on Clean: An Unsanitized History, 2007
  • Plínio, o Velho, História Natural, livro XXVIII
  • Michel Eugène Chevreul, Recherches chimiques sur les corps gras d'origine animale, 1823
  • Enciclopédia Britânica, verbete Soap and detergent
  • Unilever Brasil e Phebo, históricos institucionais

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