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Verbete nº 029 · Transporte e mobilidade

Pneu

Inventado duas vezes, esquecido uma, e sustentado por uma árvore da Amazônia.

Século XIX Deslocar Veículo ou componente Belfast, Irlanda · 1888 (pneumático de Dunlop)
Pneu: Inventado duas vezes, esquecido uma, e sustentado por uma árvore da Amazônia.
Imagem: Tom Woodward from Richmond, VA, US · Wikimedia Commons · CC BY-SA 2.0

01Origem

O pneu depende de uma descoberta anterior: em 1839, o americano Charles Goodyear descobriu, em parte por acidente, que a borracha aquecida com enxofre deixava de derreter no calor e de quebrar no frio. A vulcanização, patenteada em 1844, transformou a seiva da seringueira num material estável. Poucos anos depois, em 1845, o engenheiro escocês Robert William Thomson patenteou em Londres as rodas aéreas, um tubo de borracha inflado dentro de uma capa de couro, montado em carruagens. Os testes mostraram menos ruído e esforço de tração, mas o produto era caro e a borracha, escassa; a ideia foi esquecida, e Thomson passou a fabricar pneus maciços.

Em 1887, em Belfast, o veterinário escocês John Boyd Dunlop procurava um modo de tornar menos trepidante o triciclo do filho pequeno. Envolveu as rodas com tubos de borracha inflados, cobertos por lona, e verificou que o veículo rodava mais rápido e mais macio. Pediu patente em 1888, sem conhecer a invenção de Thomson, e em 1889 um ciclista com seus pneus venceu corridas em Belfast e Dublin, o que chamou a atenção dos fabricantes. A patente de Dunlop foi anulada em 1890, justamente pela existência da de Thomson, mas a empresa criada em torno dele prosperou com outras patentes e com a marca.

O pneu de Dunlop era colado ao aro, e um furo exigia horas de trabalho. A solução veio de duas direções em 1890 e 1891: Charles Kingston Welch patenteou o talão de arame que prende o pneu ao aro, e os irmãos André e Édouard Michelin, de Clermont-Ferrand, desenvolveram o pneu desmontável, trocado em minutos. Para prová-lo, patrocinaram o ciclista Charles Terront na corrida Paris-Brest-Paris de 1891, que ele venceu com oito horas de vantagem. Em 1895, os Michelin colocaram pneumáticos num automóvel, o L'Éclair, na corrida Paris-Bordeaux-Paris, e abriram a era do pneu de carro.

02Período histórico

O pneu é filho da segunda revolução industrial, da química aplicada e da febre da bicicleta dos anos 1890. Seu material vinha de um mundo colonial: até 1910, quase toda a borracha do planeta era extraída de seringueiras nativas da Amazônia por seringueiros, e vendida em Manaus e Belém a preços que financiaram teatros e palacetes.

Quando o automóvel se tornou produto de massa, com o Ford Modelo T, de 1908, a demanda explodiu, e plantações britânicas na Malásia e no Ceilão, cultivadas a partir de sementes levadas da Amazônia em 1876, derrubaram os preços e arruinaram a economia amazônica. A Primeira Guerra Mundial, por sua vez, acelerou a busca por borracha sintética na Alemanha.

03Evolução ao longo do tempo

  1. Da borracha clara ao pneu preto

    Os primeiros pneus eram brancos ou amarelados, a cor natural da borracha com óxido de zinco. Por volta de 1912, fabricantes passaram a adicionar negro de fumo, um pó de carbono que multiplicou a resistência ao desgaste e deu ao pneu a cor preta definitiva. Na mesma época, a lona de algodão deu lugar a cordonéis dispostos em camadas diagonais, o pneu diagonal, que dominaria até os anos 1960. Os aros se tornaram desmontáveis e o estepe entrou no porta-malas.

  2. Borracha sintética e pneu sem câmara

    A Segunda Guerra Mundial cortou o acesso dos Aliados às plantações asiáticas ocupadas pelo Japão, e os Estados Unidos montaram em poucos anos uma indústria de borracha sintética a partir do petróleo, que hoje responde por mais da metade do consumo mundial. Em 1947, a B. F. Goodrich lançou o pneu sem câmara, cuja vedação é feita por uma camada interna de borracha impermeável, mais seguro em caso de furo. Na mesma década, a banda de rodagem ganhou desenhos projetados para drenar água e evitar a aquaplanagem.

  3. O pneu radial

    Em 1946 a Michelin patenteou o pneu radial, lançado em 1949 como Michelin X: os cordonéis vão de um talão ao outro em ângulo reto com a direção de rodagem, e cintas de aço sob a banda estabilizam o contato com o solo. O resultado é menor aquecimento, maior durabilidade, menor consumo de combustível e melhor aderência em curvas. A Europa adotou o radial nos anos 1950 e 1960; os Estados Unidos resistiram até a crise do petróleo de 1973, quando a economia de combustível se tornou argumento decisivo. Hoje praticamente todos os pneus de carro são radiais.

04Fatos curiosos

  • O nome pneu é abreviação de pneumático, do grego pneuma, sopro ou ar; a palavra inglesa tyre, por sua vez, vem de attire, a vestimenta da roda.
  • O Bibendum, o homem de pneus da Michelin, foi criado em 1898 pelo cartunista O'Galop a partir de uma pilha de pneus que André Michelin achou parecida com um homem; sua cor branca lembra os pneus da época, anteriores ao negro de fumo.
  • Charles Goodyear morreu endividado em 1860 e não tem relação com a empresa Goodyear, fundada em 1898 em Akron, Ohio, em sua homenagem.
  • Henry Wickham levou cerca de 70 mil sementes de seringueira de Santarém a Londres em 1876; as plantas que vingaram nos Jardins de Kew deram origem às plantações asiáticas que quebraram o monopólio amazônico.
  • Um pneu de carro moderno contém mais de cem compostos, entre borrachas, óleos, enxofre, sílica, aço e têxteis.

05Contexto social

Poucos objetos ligam de modo tão direto o consumo das cidades industriais à exploração de florestas e colônias. O ciclo da borracha na Amazônia, entre 1879 e 1912, atraiu dezenas de milhares de migrantes nordestinos para seringais onde viviam presos por dívidas; no Congo de Leopoldo II, a coleta forçada de borracha produziu uma das maiores atrocidades coloniais. O pneu rodava sobre esse sistema.

No século XX, a indústria de pneus organizou cidades inteiras, como Akron, nos Estados Unidos, e Clermont-Ferrand, na França, com sindicatos fortes e greves marcantes. O descarte, por sua vez, virou problema ambiental de primeira grandeza: pneus abandonados acumulam água e criam criadouros de mosquitos, e sua queima libera gases tóxicos, o que levou a leis de logística reversa em vários países.

06No Brasil

O Brasil está na origem da matéria-prima do pneu: a seringueira, Hevea brasiliensis, é nativa da Amazônia, e entre o fim do século XIX e 1912 Manaus e Belém abasteceram as fábricas de Dunlop, Michelin e Goodyear. A Segunda Guerra Mundial provocou um segundo ciclo, com os chamados soldados da borracha, dezenas de milhares de nordestinos enviados aos seringais a partir de 1943 por acordo entre os governos brasileiro e americano. Henry Ford tentou plantar seringueiras no Pará, em Fordlândia, a partir de 1928, e fracassou diante de pragas e do clima.

A fabricação de pneus no país começou entre o fim dos anos 1930 e o início dos 1940, quando Goodyear, Firestone e Pirelli instalaram fábricas em São Paulo e no ABC paulista, e cresceu com a indústria automobilística dos anos 1950. Hoje o Brasil é um dos maiores produtores do mundo, embora importe boa parte da borracha natural que consome. Desde a Resolução 258 do Conama, de 1999, atualizada em 2009, fabricantes e importadores são obrigados a coletar e dar destino a pneus inservíveis, e o programa Reciclanip transforma milhões de unidades por ano em asfalto-borracha e combustível para cimenteiras.

07Linha do tempo

  1. 1839

    Charles Goodyear descobre a vulcanização da borracha.

  2. 1845

    Robert William Thomson patenteia as rodas aéreas, o primeiro pneumático.

  3. 1876

    Sementes de seringueira saem da Amazônia para Kew, origem das plantações asiáticas.

  4. 1888

    John Boyd Dunlop patenteia o pneu pneumático para bicicletas.

  5. 1891

    Os irmãos Michelin criam o pneu desmontável e vencem a Paris-Brest-Paris.

  6. c. 1912

    O negro de fumo passa a ser adicionado à borracha, e o pneu fica preto.

  7. 1947

    A Goodrich lança o pneu sem câmara.

  8. 1949

    A Michelin lança o pneu radial Michelin X.

  9. 1999

    O Conama obriga fabricantes a recolher pneus inservíveis no Brasil.

08Comparativo

Pneu de 1890 e pneu radial atual
AspectoPneu de bicicleta (1890)Pneu de carro radial (hoje)
MaterialBorracha natural e lona de algodãoBorrachas sintética e natural, aço, poliéster
CorBranca ou cremePreta, pelo negro de fumo
Fixação ao aroColadoTalão de arame
Câmara de arSimGeralmente sem câmara
Vida útilCentenas de quilômetrosDezenas de milhares de quilômetros

09Perguntas frequentes

Quem inventou o pneu?

Robert William Thomson patenteou o primeiro pneumático em 1845, mas a invenção não vingou. John Boyd Dunlop a recriou em 1888 para bicicletas, e os irmãos Michelin a tornaram prática com o pneu desmontável, em 1891.

Por que o pneu é preto?

Pela adição de negro de fumo, um pó de carbono incorporado à borracha a partir de cerca de 1912, que aumenta muito a resistência ao desgaste. Antes disso, os pneus eram claros.

O que é um pneu radial?

Um pneu cujos cordonéis correm de um talão ao outro, em ângulo reto com a direção de rodagem, estabilizado por cintas de aço. Patenteado pela Michelin em 1946, dura mais e economiza combustível.

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A borracha de apagar surgiu em Londres em 1770, quando Edward Nairne vendeu cubos de goma elástica que apagavam grafite melhor que o miolo de pão.

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11Fontes consultadas

  • Eric Tompkins, The History of the Pneumatic Tyre, Dunlop Archive Project, 1981
  • Warren Dean, A luta pela borracha no Brasil, Nobel, 1989
  • Joe Jackson, O ladrão no fim do mundo, Objetiva, 2011
  • Michelin, arquivos históricos de Clermont-Ferrand
  • Resolução Conama 416 de 2009

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