01Origem
A ideia de prender o corpo a um veículo é anterior ao automóvel. Atribui-se ao engenheiro inglês George Cayley, pioneiro da aviação, o uso de um cinto em seus planadores no início do século XIX, embora a documentação seja escassa. O primeiro registro inequívoco é a patente americana de Edward J. Claghorn, de 1885, para um cinto de segurança destinado a turistas, pintores e bombeiros, que o prendiam a um ponto fixo. Foi na aviação, onde os pilotos usavam cintos abdominais para não serem arremessados em manobras, que o objeto amadureceu antes de chegar ao carro.
Os automóveis dos anos 1920 e 1930 não tinham cintos, e a ideia de que o motorista devia ser contido parecia estranha: muitos acreditavam que era melhor ser lançado para fora do carro numa colisão. Médicos americanos começaram a defender o cinto nos anos 1930, e em 1949 a Nash ofereceu cintos abdominais como opcional. A Ford incluiu cintos no pacote de segurança Lifeguard, de 1956, com pouca procura. Enquanto isso, pesquisadores como Hugh DeHaven, na Universidade Cornell, e o coronel John Paul Stapp, que se submeteu a desacelerações brutais em trenós-foguete, demonstraram que o corpo humano suporta impactos elevados se for bem contido.
O cinto de três pontos nasceu na Suécia. Em 1951, o americano Roger Griswold e DeHaven patentearam um cinto em Y com fecho no centro do corpo, pouco prático. Nils Bohlin, engenheiro que projetava assentos ejetáveis na Saab, foi contratado pela Volvo em 1958 e redesenhou o conceito: uma faixa abdominal e outra diagonal, ancoradas num único ponto fixo ao lado do quadril, formando um V que o ocupante prendia com uma só mão. A Volvo o instalou de série nos modelos Amazon e PV544 em 1959 e, em decisão rara, deixou a patente aberta para qualquer fabricante usar.
02Período histórico
O cinto de três pontos surgiu no auge da motorização do pós-guerra, quando a frota mundial crescia a taxas inéditas e as mortes no trânsito passaram a ser tratadas como problema de saúde pública, e não como fatalidade. A Suécia tinha uma tradição de engenharia de segurança e um Estado disposto a regulamentar.
Nos Estados Unidos, o livro Unsafe at Any Speed, de Ralph Nader, publicado em 1965, acusou a indústria de ignorar a segurança dos ocupantes e levou à criação de normas federais em 1968, que tornaram o cinto equipamento obrigatório em carros novos. Era o momento em que a aviação comercial a jato e a corrida espacial davam prestígio à engenharia de sobrevivência.
03Evolução ao longo do tempo
Do cinto abdominal ao de três pontos
O cinto abdominal, de dois pontos, protege contra a ejeção, mas numa colisão frontal o tronco se dobra sobre ele e a cabeça atinge o painel; também pode causar lesões graves nos órgãos abdominais. O cinto diagonal sozinho deixa o corpo escorregar por baixo. A solução de Bohlin combinou os dois numa única fita contínua e distribuiu a força entre o quadril e o ombro, os pontos mais resistentes do esqueleto. Estudos da Volvo com milhares de acidentes reais nos anos 1960 mostraram redução expressiva de mortes e lesões graves entre os ocupantes que usavam o cinto.
Retrator, leis de uso e fiscalização
Nos anos 1960 e 1970 o cinto ganhou o retrator inercial, um carretel que deixa a fita correr livremente e trava com a desaceleração brusca, o que acabou com o incômodo do ajuste manual. Como poucos usavam o equipamento, governos passaram a obrigar o uso: o estado de Victoria, na Austrália, foi o primeiro, em 1970, seguido pela França em 1973 e pelo Reino Unido em 1983. Nos Estados Unidos, Nova York aprovou a primeira lei estadual em 1984. As taxas de uso saltaram de menos de 20 por cento para mais de 90 nos países com fiscalização efetiva.
Pré-tensionador, limitador e airbag
Nos anos 1980, a Mercedes-Benz introduziu o pré-tensionador, um dispositivo pirotécnico que, em milissegundos, recolhe a folga da fita no instante da colisão, e o limitador de carga, que deixa a fita ceder um pouco para reduzir a pressão no tórax. O airbag, lançado comercialmente na mesma época, foi concebido como complemento, não substituto: sem o cinto, o ocupante chega à bolsa em posição errada. Hoje, sensores de presença, alertas sonoros e cintos adaptados a crianças, com cadeirinhas e assentos de elevação, completam o sistema.
04Fatos curiosos
- A Volvo estima que o cinto de três pontos tenha salvado mais de um milhão de vidas desde 1959, e a decisão de abrir a patente é citada como exemplo de responsabilidade industrial.
- Em 1954, John Paul Stapp suportou uma desaceleração de 46 vezes a gravidade num trenó-foguete na base de Holloman, no Novo México, preso por cintos, e sobreviveu com lesões temporárias nos olhos.
- Nils Bohlin entrou no Hall da Fama dos Inventores dos Estados Unidos em 2002, e em 1985 o escritório alemão de patentes incluiu seu cinto entre as oito invenções de maior importância para a humanidade no século anterior.
- A fita do cinto é tecida em poliéster e suporta mais de duas toneladas de tração; ela precisa esticar um pouco para absorver energia, mas não a ponto de deixar a cabeça atingir o volante.
05Contexto social
O cinto de segurança foi um dos primeiros objetos a transferir para o indivíduo, por lei, parte da responsabilidade pela própria sobrevivência. As campanhas de obrigatoriedade enfrentaram argumentos de liberdade pessoal, especialmente nos Estados Unidos, e o debate antecipou discussões posteriores sobre capacete, cigarro e vacinas. Em quase todos os países, o uso só se tornou majoritário quando houve multa.
Há também uma dimensão de gênero. Por décadas, os bonecos de teste de colisão representaram homens de estatura média, e só nos anos 2010 pesquisadores apontaram que mulheres tinham risco maior de lesões em certos tipos de acidente, em parte por cintos e assentos calibrados para outro corpo. A indústria começou a incluir bonecos femininos e de crianças nos testes.
06No Brasil
No Brasil, cintos passaram a equipar os carros nacionais a partir dos anos 1970, mas o uso era raro e nenhuma lei federal o exigia. A virada veio em 1994, quando a cidade de São Paulo tornou obrigatório o uso nos bancos dianteiros, com fiscalização e multa, e viu a adesão saltar de uma pequena minoria para a grande maioria dos motoristas em poucos meses, resultado que serviu de argumento para o resto do país.
O Código de Trânsito Brasileiro, Lei 9.503 de 1997, em vigor desde janeiro de 1998, estabeleceu no artigo 65 a obrigatoriedade do cinto para condutor e passageiros em todas as vias do território nacional, inclusive no banco traseiro, e classificou a infração como grave. Resoluções do Contran passaram a exigir cadeirinhas e assentos de elevação para crianças a partir de 2008, e o uso do cinto em ônibus rodoviários também se tornou obrigatório. Pesquisas mostram que o uso no banco de trás segue bem abaixo do observado nos dianteiros.
07Linha do tempo
- 1885
Edward J. Claghorn patenteia nos Estados Unidos um cinto de segurança para uso pessoal.
- 1949
A Nash oferece cintos abdominais como opcional em seus carros.
- 1956
A Ford lança o pacote Lifeguard, com cintos abdominais.
- 1959
Nils Bohlin cria o cinto de três pontos e a Volvo o adota de série.
- 1968
Normas federais americanas tornam o cinto obrigatório em carros novos.
- 1970
Victoria, na Austrália, aprova a primeira lei do mundo obrigando o uso.
- 1981
A Mercedes-Benz introduz o pré-tensionador e o airbag em um modelo de série.
- 1994
São Paulo torna o cinto obrigatório nos bancos dianteiros.
- 1997
O Código de Trânsito Brasileiro estende a obrigatoriedade a todo o país.
08Comparativo
| Aspecto | Cinto abdominal (anos 1950) | Cinto de três pontos (hoje) |
|---|---|---|
| Pontos de fixação | Dois | Três |
| Proteção do tronco e da cabeça | Nenhuma | Fita diagonal sobre o ombro |
| Ajuste | Manual, por fivela | Automático, por retrator |
| Resposta à colisão | Passiva | Pré-tensionador e limitador de carga |
| Uso típico na época | Opcional e raro | Obrigatório por lei |
09Perguntas frequentes
Quem inventou o cinto de segurança de três pontos?
O engenheiro sueco Nils Bohlin, da Volvo, em 1959. Havia cintos abdominais antes, e uma patente anterior de cinto em Y de Griswold e DeHaven, mas o desenho de Bohlin é o que se usa até hoje.
Desde quando o cinto é obrigatório no Brasil?
A cidade de São Paulo exigiu o uso nos bancos dianteiros em 1994; o Código de Trânsito Brasileiro de 1997 estendeu a obrigação a todos os ocupantes, em todas as vias do país.
O airbag dispensa o cinto?
Não. O airbag foi projetado como complemento: sem o cinto, o corpo é lançado para a frente antes de a bolsa inflar por completo e pode sofrer lesões graves.
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11Fontes consultadas
- Volvo Cars Heritage, histórico do cinto de três pontos, Gotemburgo
- Ralph Nader, Unsafe at Any Speed, Grossman, 1965
- National Highway Traffic Safety Administration (NHTSA), relatórios sobre eficácia dos cintos de segurança
- Craig Ryan, Sonic Wind: The Story of John Paul Stapp, Liveright, 2015
- Código de Trânsito Brasileiro, Lei 9.503 de 1997, artigos 65 e 167
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