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Verbete nº 028 · Transporte e mobilidade

Cinto de segurança

Uma faixa de tecido, três pontos de fixação e uma patente aberta: o item que mais salvou vidas no automóvel.

Século XX Proteger Veículo ou componente Gotemburgo, Suécia · 1959 (cinto de três pontos)
Cinto de segurança: Uma faixa de tecido, três pontos de fixação e uma patente aberta: o item que mais salvou vidas no automóvel.
Imagem: Shixart1985 · Wikimedia Commons · CC BY 2.0

01Origem

A ideia de prender o corpo a um veículo é anterior ao automóvel. Atribui-se ao engenheiro inglês George Cayley, pioneiro da aviação, o uso de um cinto em seus planadores no início do século XIX, embora a documentação seja escassa. O primeiro registro inequívoco é a patente americana de Edward J. Claghorn, de 1885, para um cinto de segurança destinado a turistas, pintores e bombeiros, que o prendiam a um ponto fixo. Foi na aviação, onde os pilotos usavam cintos abdominais para não serem arremessados em manobras, que o objeto amadureceu antes de chegar ao carro.

Os automóveis dos anos 1920 e 1930 não tinham cintos, e a ideia de que o motorista devia ser contido parecia estranha: muitos acreditavam que era melhor ser lançado para fora do carro numa colisão. Médicos americanos começaram a defender o cinto nos anos 1930, e em 1949 a Nash ofereceu cintos abdominais como opcional. A Ford incluiu cintos no pacote de segurança Lifeguard, de 1956, com pouca procura. Enquanto isso, pesquisadores como Hugh DeHaven, na Universidade Cornell, e o coronel John Paul Stapp, que se submeteu a desacelerações brutais em trenós-foguete, demonstraram que o corpo humano suporta impactos elevados se for bem contido.

O cinto de três pontos nasceu na Suécia. Em 1951, o americano Roger Griswold e DeHaven patentearam um cinto em Y com fecho no centro do corpo, pouco prático. Nils Bohlin, engenheiro que projetava assentos ejetáveis na Saab, foi contratado pela Volvo em 1958 e redesenhou o conceito: uma faixa abdominal e outra diagonal, ancoradas num único ponto fixo ao lado do quadril, formando um V que o ocupante prendia com uma só mão. A Volvo o instalou de série nos modelos Amazon e PV544 em 1959 e, em decisão rara, deixou a patente aberta para qualquer fabricante usar.

02Período histórico

O cinto de três pontos surgiu no auge da motorização do pós-guerra, quando a frota mundial crescia a taxas inéditas e as mortes no trânsito passaram a ser tratadas como problema de saúde pública, e não como fatalidade. A Suécia tinha uma tradição de engenharia de segurança e um Estado disposto a regulamentar.

Nos Estados Unidos, o livro Unsafe at Any Speed, de Ralph Nader, publicado em 1965, acusou a indústria de ignorar a segurança dos ocupantes e levou à criação de normas federais em 1968, que tornaram o cinto equipamento obrigatório em carros novos. Era o momento em que a aviação comercial a jato e a corrida espacial davam prestígio à engenharia de sobrevivência.

03Evolução ao longo do tempo

  1. Do cinto abdominal ao de três pontos

    O cinto abdominal, de dois pontos, protege contra a ejeção, mas numa colisão frontal o tronco se dobra sobre ele e a cabeça atinge o painel; também pode causar lesões graves nos órgãos abdominais. O cinto diagonal sozinho deixa o corpo escorregar por baixo. A solução de Bohlin combinou os dois numa única fita contínua e distribuiu a força entre o quadril e o ombro, os pontos mais resistentes do esqueleto. Estudos da Volvo com milhares de acidentes reais nos anos 1960 mostraram redução expressiva de mortes e lesões graves entre os ocupantes que usavam o cinto.

  2. Retrator, leis de uso e fiscalização

    Nos anos 1960 e 1970 o cinto ganhou o retrator inercial, um carretel que deixa a fita correr livremente e trava com a desaceleração brusca, o que acabou com o incômodo do ajuste manual. Como poucos usavam o equipamento, governos passaram a obrigar o uso: o estado de Victoria, na Austrália, foi o primeiro, em 1970, seguido pela França em 1973 e pelo Reino Unido em 1983. Nos Estados Unidos, Nova York aprovou a primeira lei estadual em 1984. As taxas de uso saltaram de menos de 20 por cento para mais de 90 nos países com fiscalização efetiva.

  3. Pré-tensionador, limitador e airbag

    Nos anos 1980, a Mercedes-Benz introduziu o pré-tensionador, um dispositivo pirotécnico que, em milissegundos, recolhe a folga da fita no instante da colisão, e o limitador de carga, que deixa a fita ceder um pouco para reduzir a pressão no tórax. O airbag, lançado comercialmente na mesma época, foi concebido como complemento, não substituto: sem o cinto, o ocupante chega à bolsa em posição errada. Hoje, sensores de presença, alertas sonoros e cintos adaptados a crianças, com cadeirinhas e assentos de elevação, completam o sistema.

04Fatos curiosos

  • A Volvo estima que o cinto de três pontos tenha salvado mais de um milhão de vidas desde 1959, e a decisão de abrir a patente é citada como exemplo de responsabilidade industrial.
  • Em 1954, John Paul Stapp suportou uma desaceleração de 46 vezes a gravidade num trenó-foguete na base de Holloman, no Novo México, preso por cintos, e sobreviveu com lesões temporárias nos olhos.
  • Nils Bohlin entrou no Hall da Fama dos Inventores dos Estados Unidos em 2002, e em 1985 o escritório alemão de patentes incluiu seu cinto entre as oito invenções de maior importância para a humanidade no século anterior.
  • A fita do cinto é tecida em poliéster e suporta mais de duas toneladas de tração; ela precisa esticar um pouco para absorver energia, mas não a ponto de deixar a cabeça atingir o volante.

05Contexto social

O cinto de segurança foi um dos primeiros objetos a transferir para o indivíduo, por lei, parte da responsabilidade pela própria sobrevivência. As campanhas de obrigatoriedade enfrentaram argumentos de liberdade pessoal, especialmente nos Estados Unidos, e o debate antecipou discussões posteriores sobre capacete, cigarro e vacinas. Em quase todos os países, o uso só se tornou majoritário quando houve multa.

Há também uma dimensão de gênero. Por décadas, os bonecos de teste de colisão representaram homens de estatura média, e só nos anos 2010 pesquisadores apontaram que mulheres tinham risco maior de lesões em certos tipos de acidente, em parte por cintos e assentos calibrados para outro corpo. A indústria começou a incluir bonecos femininos e de crianças nos testes.

06No Brasil

No Brasil, cintos passaram a equipar os carros nacionais a partir dos anos 1970, mas o uso era raro e nenhuma lei federal o exigia. A virada veio em 1994, quando a cidade de São Paulo tornou obrigatório o uso nos bancos dianteiros, com fiscalização e multa, e viu a adesão saltar de uma pequena minoria para a grande maioria dos motoristas em poucos meses, resultado que serviu de argumento para o resto do país.

O Código de Trânsito Brasileiro, Lei 9.503 de 1997, em vigor desde janeiro de 1998, estabeleceu no artigo 65 a obrigatoriedade do cinto para condutor e passageiros em todas as vias do território nacional, inclusive no banco traseiro, e classificou a infração como grave. Resoluções do Contran passaram a exigir cadeirinhas e assentos de elevação para crianças a partir de 2008, e o uso do cinto em ônibus rodoviários também se tornou obrigatório. Pesquisas mostram que o uso no banco de trás segue bem abaixo do observado nos dianteiros.

07Linha do tempo

  1. 1885

    Edward J. Claghorn patenteia nos Estados Unidos um cinto de segurança para uso pessoal.

  2. 1949

    A Nash oferece cintos abdominais como opcional em seus carros.

  3. 1956

    A Ford lança o pacote Lifeguard, com cintos abdominais.

  4. 1959

    Nils Bohlin cria o cinto de três pontos e a Volvo o adota de série.

  5. 1968

    Normas federais americanas tornam o cinto obrigatório em carros novos.

  6. 1970

    Victoria, na Austrália, aprova a primeira lei do mundo obrigando o uso.

  7. 1981

    A Mercedes-Benz introduz o pré-tensionador e o airbag em um modelo de série.

  8. 1994

    São Paulo torna o cinto obrigatório nos bancos dianteiros.

  9. 1997

    O Código de Trânsito Brasileiro estende a obrigatoriedade a todo o país.

08Comparativo

Cinto abdominal e cinto de três pontos
AspectoCinto abdominal (anos 1950)Cinto de três pontos (hoje)
Pontos de fixaçãoDoisTrês
Proteção do tronco e da cabeçaNenhumaFita diagonal sobre o ombro
AjusteManual, por fivelaAutomático, por retrator
Resposta à colisãoPassivaPré-tensionador e limitador de carga
Uso típico na épocaOpcional e raroObrigatório por lei

09Perguntas frequentes

Quem inventou o cinto de segurança de três pontos?

O engenheiro sueco Nils Bohlin, da Volvo, em 1959. Havia cintos abdominais antes, e uma patente anterior de cinto em Y de Griswold e DeHaven, mas o desenho de Bohlin é o que se usa até hoje.

Desde quando o cinto é obrigatório no Brasil?

A cidade de São Paulo exigiu o uso nos bancos dianteiros em 1994; o Código de Trânsito Brasileiro de 1997 estendeu a obrigação a todos os ocupantes, em todas as vias do país.

O airbag dispensa o cinto?

Não. O airbag foi projetado como complemento: sem o cinto, o corpo é lançado para a frente antes de a bolsa inflar por completo e pode sofrer lesões graves.

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11Fontes consultadas

  • Volvo Cars Heritage, histórico do cinto de três pontos, Gotemburgo
  • Ralph Nader, Unsafe at Any Speed, Grossman, 1965
  • National Highway Traffic Safety Administration (NHTSA), relatórios sobre eficácia dos cintos de segurança
  • Craig Ryan, Sonic Wind: The Story of John Paul Stapp, Liveright, 2015
  • Código de Trânsito Brasileiro, Lei 9.503 de 1997, artigos 65 e 167

Este verbete foi redigido e revisado pela equipe editorial do Daily's Treasures a partir das fontes acima. Encontrou um erro? Escreva para nós.