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Verbete nº 047 · Trabalho e escritório

Borracha de apagar

Do miolo de pão à goma vulcanizada: o objeto que deu ao erro uma segunda chance.

Século XVIII Trabalhar e estudar Utensílio Londres, Inglaterra · 1770
Borracha de apagar: Do miolo de pão à goma vulcanizada: o objeto que deu ao erro uma segunda chance.
Imagem: ZooFari · Wikimedia Commons · domínio público

01Origem

Antes da borracha, apagar era questão de improviso. Quem desenhava a grafite ou carvão usava miolo de pão amassado, que arrancava o pigmento sem rasgar a folha, ou esfregava a superfície com pedra-pome. O erro escrito a tinta sobre pergaminho era raspado com lâmina. A goma elástica que mudaria isso vinha da América: povos da Amazônia e da Mesoamérica extraíam o látex de árvores como a Hevea brasiliensis e o usavam em bolas, calçados e recipientes. O francês Charles Marie de La Condamine levou amostras à Academia de Ciências de Paris nas décadas de 1730 e 1740, e o material virou curiosidade de laboratório.

O registro que fixa a data da borracha de apagar é de 1770. Em um tratado sobre perspectiva, o químico inglês Joseph Priestley anotou ter visto uma substância 'excelentemente adequada para remover do papel as marcas do lápis de grafite', vendida por Edward Nairne, fabricante de instrumentos científicos na Royal Exchange, em Londres, em cubos de meia polegada a três xelins cada, preço alto. Conta-se que Nairne teria pegado por acidente um pedaço de goma em vez do miolo de pão e descoberto o efeito; a história é plausível, mas não documentada. O nome inglês do material, rubber, veio desse uso: a goma que esfrega.

A borracha natural tinha defeitos graves: amolecia e grudava no calor, endurecia no frio e apodrecia em poucos meses, com cheiro desagradável. O problema foi resolvido por Charles Goodyear, que descobriu a vulcanização, o cozimento da goma com enxofre, em 1839, e a patenteou em 1844. A borracha estável e durável tornou o apagador um produto industrial. Em 1858, o norte-americano Hymen Lipman patenteou o lápis com borracha na ponta; a patente foi anulada pela Suprema Corte em 1875, sob o argumento de que apenas juntava dois objetos conhecidos sem criar nada novo.

02Período histórico

A borracha de apagar nasceu no Iluminismo, quando o lápis de grafite, com minas serradas da jazida inglesa de Borrowdale, se tornava o instrumento de desenho de arquitetos, cartógrafos, engenheiros e artistas. Desenhar com grafite era desenhar com possibilidade de correção, e a demanda por um apagador eficiente cresceu com o próprio lápis. Londres era o centro mundial de instrumentos científicos, e lojas como a de Nairne vendiam réguas, compassos, barômetros e novidades.

O século XIX trouxe a industrialização da borracha e a escolarização em massa. Quando o lápis passou a ser produzido aos milhões, com a mina de grafite e argila criada por Nicolas-Jacques Conté em 1795, a borracha o acompanhou até a carteira escolar. Apagar deixou de ser recurso de artista e virou gesto de criança aprendendo a escrever, o que mudou também a pedagogia: o erro passou a ser corrigível, não definitivo.

03Evolução ao longo do tempo

  1. Goma crua e vulcanizada

    Os cubos vendidos por Nairne eram borracha natural pura, perecível e cara. Depois de 1844, fabricantes de borracha passaram a produzir apagadores vulcanizados, com enxofre e cargas minerais como pedra-pome moída, que aumentavam a abrasão. Surgiram então os dois tipos clássicos: a borracha macia, que arranca o grafite por adesão, e a borracha abrasiva, para tinta, que raspa a camada superficial do papel.

  2. Lápis com borracha e borracha amassável

    O lápis com ponteira de borracha, de 1858, se tornou símbolo da escola norte-americana, embora na Europa e no Brasil a borracha avulsa tenha predominado. Para desenhistas, surgiu no fim do século XIX a borracha amassável, à base de goma e óleo, que se molda com os dedos e levanta carvão e pastel sem esfregar. Datilógrafos usavam discos de borracha abrasiva com escova para corrigir letras na máquina de escrever.

  3. Plásticos e cores

    A partir dos anos 1950, o PVC plastificado substituiu a borracha natural nos apagadores de qualidade: a borracha de vinil, branca e macia, desenvolvida no Japão, apaga com menos esforço e sem rasgar o papel, e hoje domina o mercado. Para crianças, a indústria criou borrachas coloridas, perfumadas e em formatos de brinquedo, item de coleção desde os anos 1980. Canetas e lápis apagáveis, com tintas sensíveis ao calor, ampliaram o conceito de apagar para além do grafite.

04Fatos curiosos

  • A palavra portuguesa borracha designava, antes, um odre de couro para vinho; o nome passou ao látex porque os recipientes indígenas feitos de goma lembravam esses odres.
  • A borracha bicolor, metade azul e metade vermelha, é um ícone brasileiro: a parte azul, abrasiva, destinava-se a tinta, e a vermelha, ao grafite.
  • Joseph Priestley, o mesmo que registrou a borracha de Nairne, é mais conhecido por ter isolado o oxigênio em 1774.
  • A patente do lápis com borracha foi comprada por Joseph Reckendorfer, que processou a fabricante Faber e perdeu na Suprema Corte dos Estados Unidos em 1875.
  • Borracha macia funciona por adesão: o grafite gruda nas partículas que se desprendem da borracha e sai com os farelos, por isso apagar gera resíduos.
  • Conservadores de museu ainda usam miolo de pão e pó de borracha vulcanizada para limpar gravuras antigas sem danificar o papel.

05Contexto social

A borracha democratizou o erro. Em uma cultura escrita baseada na tinta, errar significava rasurar, riscar ou refazer a página; apagar era operação delicada reservada a copistas e desenhistas treinados. Com lápis e borracha, qualquer estudante podia tentar, corrigir e tentar de novo, e a prática do rascunho se tornou parte do aprendizado. Pedagogos dos séculos XIX e XX discutiram se isso estimulava o descuido ou o pensamento; a discussão reapareceu com os corretores líquidos e o editor de texto.

Economicamente, a borracha de apagar é um subproduto modesto da indústria que moveu impérios: a extração do látex na Amazônia e, depois, nas plantações britânicas do Sudeste Asiático sustentou pneus, mangueiras e isolantes elétricos, e os apagadores ficaram com as sobras. O objeto também virou brinquedo e moeda infantil, trocado e colecionado em escolas, e desde os anos 2000 integra linhas de papelaria de design.

06No Brasil

A matéria-prima original é brasileira: a Hevea brasiliensis, a seringueira, é nativa da Amazônia, e o ciclo da borracha, entre as décadas de 1870 e 1910, levou Manaus e Belém a uma prosperidade breve e desigual, sustentada pelo trabalho dos seringueiros. Quando o Brasil perdeu o mercado para as plantações asiáticas, a indústria nacional de artefatos de borracha já se formava no Sul: a Mercur, fundada em 1924 em Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, tornou-se a fabricante da borracha bicolor azul e vermelha, presente em estojos escolares por gerações.

A Faber-Castell, presente no Brasil desde 1930, mantém em São Carlos, no interior de São Paulo, a maior fábrica de lápis do grupo, onde também produz borrachas e apontadores, abastecida por plantações próprias de pinus. Nas listas de material escolar, a borracha branca macia vem substituindo, desde os anos 1990, a bicolor na preferência de pais e professores, por não rasgar o papel.

07Linha do tempo

  1. c. 1736

    La Condamine envia amostras de látex da América do Sul à Academia de Ciências de Paris.

  2. 1770

    Priestley registra a goma de apagar vendida por Edward Nairne em Londres.

  3. 1839

    Charles Goodyear descobre a vulcanização.

  4. 1844

    Goodyear patenteia o processo nos Estados Unidos.

  5. 1858

    Hymen Lipman patenteia o lápis com borracha na ponta.

  6. 1875

    A Suprema Corte dos Estados Unidos anula a patente do lápis com borracha.

  7. 1924

    Fundação da Mercur, em Santa Cruz do Sul, futura fabricante da borracha bicolor.

  8. década de 1950

    Surgem no Japão as borrachas de vinil, hoje dominantes.

08Comparativo

Apagadores: 1770 e hoje
AspectoCubo de Nairne (1770)Borracha de vinil (hoje)
MaterialGoma natural cruaPVC plastificado
DurabilidadeApodrece em mesesAnos
PreçoTrês xelins, caroCentavos
AçãoAdesão, deixa resíduo gordurosoAdesão limpa, farelos secos
UsuáriosDesenhistas e cientistasEscolas, escritórios e ateliês

09Perguntas frequentes

Quem inventou a borracha de apagar?

A primeira venda documentada é de Edward Nairne, em Londres, registrada por Joseph Priestley em 1770. A história de que Nairne descobriu o uso por acidente é tradição, não documento.

Por que a borracha apaga o lápis?

O grafite não penetra no papel; fica depositado nas fibras. A borracha, mais pegajosa que o papel, arranca essas partículas, que saem junto com os farelos.

A borracha azul apaga caneta?

Parcialmente. Ela é abrasiva e raspa a camada superficial do papel junto com a tinta, o que afina ou rasga a folha. Em canetas apagáveis, a tinta some com o calor do atrito.

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11Fontes consultadas

  • Joseph Priestley, A Familiar Introduction to the Theory and Practice of Perspective, 1770
  • Henry Petroski, The Pencil: A History of Design and Circumstance, 1990
  • Warren Dean, A Luta pela Borracha no Brasil, 1989
  • Supreme Court of the United States, Reckendorfer v. Faber, 1875
  • Encyclopaedia Britannica, verbete 'eraser'

Este verbete foi redigido e revisado pela equipe editorial do Daily's Treasures a partir das fontes acima. Encontrou um erro? Escreva para nós.