01Origem
O elástico depende de um material que a Europa não conhecia antes de 1500: a borracha. Povos da Mesoamérica, entre eles os olmecas, já misturavam há mais de três mil anos o látex da árvore Castilla elastica com o suco de uma trepadeira para fazer bolas que quicavam, usadas em jogos rituais. No século XVIII, o francês Charles-Marie de La Condamine levou a Paris amostras de caucho colhidas na Amazônia, e em 1770 o químico inglês Joseph Priestley notou que o material apagava traços de lápis, batizando-o de rubber, o que esfrega.
A borracha bruta tinha um defeito: amolecia e grudava no calor, endurecia e rachava no frio. Em Londres, por volta de 1820, Thomas Hancock cortou garrafas de borracha importadas em anéis e tiras para fazer cintos, ligas e punhos de luvas elásticos, e construiu o mastigador, máquina que reaproveitava as sobras. A solução química veio em 1839, quando o americano Charles Goodyear descobriu que aquecer a borracha com enxofre a tornava estável, processo chamado vulcanização, que Hancock patenteou na Inglaterra em 1843 e Goodyear nos Estados Unidos em 1844.
Com a borracha domada, o elástico de escritório tornou-se possível. Em 1845, Stephen Perry, da firma londrina Messrs Perry and Company, patenteou anéis de borracha vulcanizada para prender papéis, cartas e documentos. A fabricação passou a seguir o método ainda usado hoje: a borracha é extrudada em tubo, vulcanizada e fatiada em anéis de largura regular. A banda elástica era barata, reutilizável e substituía barbantes e alfinetes nas repartições públicas e nos correios, que se tornaram seus maiores compradores.
02Período histórico
O elástico apareceu na Inglaterra vitoriana, quando a burocracia do império, os bancos e os correios produziam montanhas de papel que precisavam ser agrupadas e transportadas. O selo postal, de 1840, multiplicou a correspondência, e a borracha era uma das matérias-primas da nova indústria química, ao lado do carvão e do ferro.
A seiva vinha de longe. Até o fim do século XIX, quase toda a borracha do mundo era extraída de seringueiras nativas da Amazônia, o que ligou o pequeno anel de escritório às economias de Manaus e Belém e, depois, às plantações asiáticas formadas com sementes levadas do Brasil.
03Evolução ao longo do tempo
Da garrafa de borracha ao anel (1820-1845)
Os primeiros elásticos de Hancock eram tiras cortadas de objetos de borracha vindos da América, costuradas em roupas e calçados. Sem vulcanização, derretiam no verão e endureciam no inverno, e a moda de botas e capas de borracha dos anos 1830 desmoronou por causa desses defeitos. A estabilidade conquistada por Goodyear e Hancock permitiu que a patente de Perry, em 1845, descrevesse um anel que mantinha a elasticidade por meses e podia ser produzido aos milhares.
O elástico de escritório e dos correios (1845-1930)
Repartições, bancos e jornais adotaram o elástico para amarrar maços de documentos, cédulas e exemplares. Nos Estados Unidos, William Spencer fundou em 1923, em Alliance, Ohio, a Alliance Rubber Company, vendendo anéis para enrolar jornais entregues em domicílio e para os correios, que se tornaram um dos maiores consumidores do produto no mundo. O elástico de vestuário, fio de borracha envolto em algodão, substituiu botões, cadarços e espartilhos em cintos, ligas e roupas íntimas.
Sintéticos e novos usos (1930-hoje)
A Segunda Guerra, ao cortar o acesso à borracha asiática, acelerou a borracha sintética, e em 1958 a DuPont criou o elastano, fibra que estica cinco vezes o próprio comprimento e transformou a roupa esportiva. Hoje os anéis de borracha convivem com elásticos de silicone, ligas ortodônticas, xuxinhas de cabelo e kits de pulseiras trançadas, mania infantil de 2013. O princípio continua o de 1845: um anel que se deforma e volta ao tamanho original.
04Fatos curiosos
- A maior bola de elásticos do mundo, construída pelo americano Joel Waul e reconhecida pelo Guinness em 2008, pesava mais de quatro toneladas e usou cerca de 700 mil anéis.
- Os carteiros britânicos usam elásticos vermelhos para que sejam facilmente vistos, e os anéis caídos nas calçadas viraram tema recorrente de reclamações e coleções de fotos.
- O elástico envelhece com luz, calor e ozônio; guardado no escuro e no frio, dura anos, ao sol dura semanas.
- No futebol, o drible chamado elástico foi criado nos anos 1960 pelo nipo-brasileiro Sérgio Echigo, no Corinthians, e ficou famoso com Rivellino e, depois, Ronaldinho Gaúcho.
- Pular elástico, brincadeira em que duas crianças esticam um elástico comprido entre as pernas e uma terceira salta sobre ele, foi uma das mais populares dos pátios brasileiros nos anos 1980 e 1990.
05Contexto social
O elástico é um objeto de bastidor: ninguém o compra por prazer, mas escritórios, bancos, correios, gráficas e feiras não funcionam sem ele. Sua produção em massa acompanhou a burocratização do século XIX e o surgimento do trabalho de escritório, com arquivos, pastas e maços de papel.
No vestuário, o elástico mudou a relação com o corpo. Ligas, cintos e roupas íntimas com borracha substituíram amarrações e espartilhos rígidos, e no século XX o elastano permitiu roupas ajustadas e de ginástica, associadas a novas liberdades de movimento, sobretudo femininas.
Por trás do anel barato há uma história de trabalho pesado. A extração de látex na Amazônia, no Congo e nas plantações da Malásia envolveu endividamento, violência e doenças, e o preço da borracha ditou ciclos de riqueza e abandono em regiões inteiras.
06No Brasil
O Brasil está na origem do elástico pela matéria-prima. Entre 1879 e 1912, o ciclo da borracha amazônica abasteceu o mundo e enriqueceu Manaus e Belém, enquanto seringueiros nordestinos trabalhavam sob o regime de aviamento, endividados com os patrões. As sementes levadas por Henry Wickham para Kew Gardens, em 1876, deram origem às plantações asiáticas que derrubaram o preço e arruinaram a região. Na Segunda Guerra, o governo recrutou os chamados soldados da borracha para reativar os seringais.
Hoje o país importa a maior parte da borracha natural que consome, e os seringais cultivados ficam sobretudo em São Paulo. O elástico de escritório, chamado também de liga, segue nos maços de dinheiro, nos caixas de supermercado e nas feiras, e a palavra ganhou vida própria no futebol, na brincadeira de pular elástico e no elástico de cabelo que os brasileiros chamam de xuxinha.
07Linha do tempo
- c. 1600 a.C.
Povos da Mesoamérica fabricam bolas elásticas misturando látex com suco de trepadeira.
- 1736
La Condamine descreve o caucho amazônico para a Academia de Ciências de Paris.
- 1770
Joseph Priestley batiza a borracha de rubber, ao notar que apaga traços de lápis.
- 1820
Thomas Hancock produz em Londres as primeiras tiras elásticas para roupas.
- 1839
Charles Goodyear descobre a vulcanização.
- 1845
Stephen Perry patenteia em Londres o elástico de borracha vulcanizada para papéis.
- 1879
Começa o ciclo da borracha na Amazônia.
- 1923
William Spencer funda a Alliance Rubber Company, em Ohio.
- 1958
A DuPont cria o elastano, fibra elástica sintética.
08Comparativo
| Aspecto | Anel de Perry (1845) | Elástico atual |
|---|---|---|
| Material | Borracha natural vulcanizada | Natural, sintética ou silicone |
| Origem da borracha | Amazônia | Plantações da Ásia |
| Produção | Tubos cortados à mão | Extrusão e corte automatizados |
| Cores | Marrom natural | Qualquer cor |
| Uso principal | Prender cartas e documentos | Escritório, cozinha, cabelo, ortodontia |
09Perguntas frequentes
Quem inventou o elástico?
O anel de borracha para prender papéis foi patenteado por Stephen Perry, em Londres, em 1845. Ele dependeu da vulcanização, descoberta por Charles Goodyear em 1839, e das tiras elásticas que Thomas Hancock já fazia desde 1820.
Por que o elástico resseca e quebra?
A borracha reage com o oxigênio, o ozônio e a luz ultravioleta, que rompem suas cadeias de polímero. Calor acelera o processo. Elásticos guardados em gaveta fechada duram muito mais do que os expostos ao sol.
O elástico é feito de borracha brasileira?
Em geral, não. Embora a seringueira seja nativa da Amazônia, mais de 90 por cento da borracha natural do mundo vem hoje de plantações do Sudeste Asiático, e o Brasil importa boa parte do que consome.
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11Fontes consultadas
- John Loadman, Tears of the Tree: The Story of Rubber, Oxford University Press, 2005
- Warren Dean, A luta pela borracha no Brasil: um estudo de história ecológica, Nobel, 1989
- Thomas Hancock, Personal Narrative of the Origin and Progress of the Caoutchouc or India-Rubber Manufacture in England, 1857
- Henry Petroski, The Evolution of Useful Things, Alfred A. Knopf, 1992
- Museu Paraense Emílio Goeldi, acervo sobre o ciclo da borracha
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