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Verbete nº 016 · Invenções do cotidiano

Elástico

Da bola dos olmecas ao anel que segura o maço de dinheiro, a borracha aprendeu a voltar ao lugar.

Século XIX Medir e organizar Utensílio Inglaterra (Londres) · 1845
Elástico: Da bola dos olmecas ao anel que segura o maço de dinheiro, a borracha aprendeu a voltar ao lugar.
Imagem: Fructibus · Wikimedia Commons · CC0 (domínio público)

01Origem

O elástico depende de um material que a Europa não conhecia antes de 1500: a borracha. Povos da Mesoamérica, entre eles os olmecas, já misturavam há mais de três mil anos o látex da árvore Castilla elastica com o suco de uma trepadeira para fazer bolas que quicavam, usadas em jogos rituais. No século XVIII, o francês Charles-Marie de La Condamine levou a Paris amostras de caucho colhidas na Amazônia, e em 1770 o químico inglês Joseph Priestley notou que o material apagava traços de lápis, batizando-o de rubber, o que esfrega.

A borracha bruta tinha um defeito: amolecia e grudava no calor, endurecia e rachava no frio. Em Londres, por volta de 1820, Thomas Hancock cortou garrafas de borracha importadas em anéis e tiras para fazer cintos, ligas e punhos de luvas elásticos, e construiu o mastigador, máquina que reaproveitava as sobras. A solução química veio em 1839, quando o americano Charles Goodyear descobriu que aquecer a borracha com enxofre a tornava estável, processo chamado vulcanização, que Hancock patenteou na Inglaterra em 1843 e Goodyear nos Estados Unidos em 1844.

Com a borracha domada, o elástico de escritório tornou-se possível. Em 1845, Stephen Perry, da firma londrina Messrs Perry and Company, patenteou anéis de borracha vulcanizada para prender papéis, cartas e documentos. A fabricação passou a seguir o método ainda usado hoje: a borracha é extrudada em tubo, vulcanizada e fatiada em anéis de largura regular. A banda elástica era barata, reutilizável e substituía barbantes e alfinetes nas repartições públicas e nos correios, que se tornaram seus maiores compradores.

02Período histórico

O elástico apareceu na Inglaterra vitoriana, quando a burocracia do império, os bancos e os correios produziam montanhas de papel que precisavam ser agrupadas e transportadas. O selo postal, de 1840, multiplicou a correspondência, e a borracha era uma das matérias-primas da nova indústria química, ao lado do carvão e do ferro.

A seiva vinha de longe. Até o fim do século XIX, quase toda a borracha do mundo era extraída de seringueiras nativas da Amazônia, o que ligou o pequeno anel de escritório às economias de Manaus e Belém e, depois, às plantações asiáticas formadas com sementes levadas do Brasil.

03Evolução ao longo do tempo

  1. Da garrafa de borracha ao anel (1820-1845)

    Os primeiros elásticos de Hancock eram tiras cortadas de objetos de borracha vindos da América, costuradas em roupas e calçados. Sem vulcanização, derretiam no verão e endureciam no inverno, e a moda de botas e capas de borracha dos anos 1830 desmoronou por causa desses defeitos. A estabilidade conquistada por Goodyear e Hancock permitiu que a patente de Perry, em 1845, descrevesse um anel que mantinha a elasticidade por meses e podia ser produzido aos milhares.

  2. O elástico de escritório e dos correios (1845-1930)

    Repartições, bancos e jornais adotaram o elástico para amarrar maços de documentos, cédulas e exemplares. Nos Estados Unidos, William Spencer fundou em 1923, em Alliance, Ohio, a Alliance Rubber Company, vendendo anéis para enrolar jornais entregues em domicílio e para os correios, que se tornaram um dos maiores consumidores do produto no mundo. O elástico de vestuário, fio de borracha envolto em algodão, substituiu botões, cadarços e espartilhos em cintos, ligas e roupas íntimas.

  3. Sintéticos e novos usos (1930-hoje)

    A Segunda Guerra, ao cortar o acesso à borracha asiática, acelerou a borracha sintética, e em 1958 a DuPont criou o elastano, fibra que estica cinco vezes o próprio comprimento e transformou a roupa esportiva. Hoje os anéis de borracha convivem com elásticos de silicone, ligas ortodônticas, xuxinhas de cabelo e kits de pulseiras trançadas, mania infantil de 2013. O princípio continua o de 1845: um anel que se deforma e volta ao tamanho original.

04Fatos curiosos

  • A maior bola de elásticos do mundo, construída pelo americano Joel Waul e reconhecida pelo Guinness em 2008, pesava mais de quatro toneladas e usou cerca de 700 mil anéis.
  • Os carteiros britânicos usam elásticos vermelhos para que sejam facilmente vistos, e os anéis caídos nas calçadas viraram tema recorrente de reclamações e coleções de fotos.
  • O elástico envelhece com luz, calor e ozônio; guardado no escuro e no frio, dura anos, ao sol dura semanas.
  • No futebol, o drible chamado elástico foi criado nos anos 1960 pelo nipo-brasileiro Sérgio Echigo, no Corinthians, e ficou famoso com Rivellino e, depois, Ronaldinho Gaúcho.
  • Pular elástico, brincadeira em que duas crianças esticam um elástico comprido entre as pernas e uma terceira salta sobre ele, foi uma das mais populares dos pátios brasileiros nos anos 1980 e 1990.

05Contexto social

O elástico é um objeto de bastidor: ninguém o compra por prazer, mas escritórios, bancos, correios, gráficas e feiras não funcionam sem ele. Sua produção em massa acompanhou a burocratização do século XIX e o surgimento do trabalho de escritório, com arquivos, pastas e maços de papel.

No vestuário, o elástico mudou a relação com o corpo. Ligas, cintos e roupas íntimas com borracha substituíram amarrações e espartilhos rígidos, e no século XX o elastano permitiu roupas ajustadas e de ginástica, associadas a novas liberdades de movimento, sobretudo femininas.

Por trás do anel barato há uma história de trabalho pesado. A extração de látex na Amazônia, no Congo e nas plantações da Malásia envolveu endividamento, violência e doenças, e o preço da borracha ditou ciclos de riqueza e abandono em regiões inteiras.

06No Brasil

O Brasil está na origem do elástico pela matéria-prima. Entre 1879 e 1912, o ciclo da borracha amazônica abasteceu o mundo e enriqueceu Manaus e Belém, enquanto seringueiros nordestinos trabalhavam sob o regime de aviamento, endividados com os patrões. As sementes levadas por Henry Wickham para Kew Gardens, em 1876, deram origem às plantações asiáticas que derrubaram o preço e arruinaram a região. Na Segunda Guerra, o governo recrutou os chamados soldados da borracha para reativar os seringais.

Hoje o país importa a maior parte da borracha natural que consome, e os seringais cultivados ficam sobretudo em São Paulo. O elástico de escritório, chamado também de liga, segue nos maços de dinheiro, nos caixas de supermercado e nas feiras, e a palavra ganhou vida própria no futebol, na brincadeira de pular elástico e no elástico de cabelo que os brasileiros chamam de xuxinha.

07Linha do tempo

  1. c. 1600 a.C.

    Povos da Mesoamérica fabricam bolas elásticas misturando látex com suco de trepadeira.

  2. 1736

    La Condamine descreve o caucho amazônico para a Academia de Ciências de Paris.

  3. 1770

    Joseph Priestley batiza a borracha de rubber, ao notar que apaga traços de lápis.

  4. 1820

    Thomas Hancock produz em Londres as primeiras tiras elásticas para roupas.

  5. 1839

    Charles Goodyear descobre a vulcanização.

  6. 1845

    Stephen Perry patenteia em Londres o elástico de borracha vulcanizada para papéis.

  7. 1879

    Começa o ciclo da borracha na Amazônia.

  8. 1923

    William Spencer funda a Alliance Rubber Company, em Ohio.

  9. 1958

    A DuPont cria o elastano, fibra elástica sintética.

08Comparativo

Elástico de 1845 e elástico de hoje
AspectoAnel de Perry (1845)Elástico atual
MaterialBorracha natural vulcanizadaNatural, sintética ou silicone
Origem da borrachaAmazôniaPlantações da Ásia
ProduçãoTubos cortados à mãoExtrusão e corte automatizados
CoresMarrom naturalQualquer cor
Uso principalPrender cartas e documentosEscritório, cozinha, cabelo, ortodontia

09Perguntas frequentes

Quem inventou o elástico?

O anel de borracha para prender papéis foi patenteado por Stephen Perry, em Londres, em 1845. Ele dependeu da vulcanização, descoberta por Charles Goodyear em 1839, e das tiras elásticas que Thomas Hancock já fazia desde 1820.

Por que o elástico resseca e quebra?

A borracha reage com o oxigênio, o ozônio e a luz ultravioleta, que rompem suas cadeias de polímero. Calor acelera o processo. Elásticos guardados em gaveta fechada duram muito mais do que os expostos ao sol.

O elástico é feito de borracha brasileira?

Em geral, não. Embora a seringueira seja nativa da Amazônia, mais de 90 por cento da borracha natural do mundo vem hoje de plantações do Sudeste Asiático, e o Brasil importa boa parte do que consome.

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11Fontes consultadas

  • John Loadman, Tears of the Tree: The Story of Rubber, Oxford University Press, 2005
  • Warren Dean, A luta pela borracha no Brasil: um estudo de história ecológica, Nobel, 1989
  • Thomas Hancock, Personal Narrative of the Origin and Progress of the Caoutchouc or India-Rubber Manufacture in England, 1857
  • Henry Petroski, The Evolution of Useful Things, Alfred A. Knopf, 1992
  • Museu Paraense Emílio Goeldi, acervo sobre o ciclo da borracha

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