01Origem
A roda é uma das poucas invenções cuja origem não pode ser atribuída a um povo específico com segurança. As evidências mais antigas aparecem quase ao mesmo tempo, por volta de 3500 a.C., em regiões distantes entre si: pictogramas de carros em tabuletas de Uruk, na Mesopotâmia; um vaso de cerâmica da cultura dos Vasos de Funil encontrado em Bronocice, na Polônia, com o desenho de um veículo de quatro rodas; e modelos de carroças em sepulturas do norte do Cáucaso. Essa simultaneidade alimenta duas hipóteses principais entre arqueólogos: a de uma invenção única que se espalhou com rapidez e a de invenções independentes em dois ou três focos. Nenhuma delas pode ser descartada com os dados atuais.
O objeto mais antigo preservado é a roda do Pântano de Ljubljana, na Eslovênia, descoberta em 2002 e datada por radiocarbono em cerca de 3150 a.C. Feita de duas tábuas de freixo unidas por travessas de carvalho, com um eixo quadrado que girava junto com ela, mostra uma carpintaria já madura, o que sugere que a técnica vinha sendo aperfeiçoada havia gerações. Antes das rodas de veículo, no entanto, o princípio rotativo já era conhecido: o torno de oleiro aparece na Mesopotâmia por volta de 4000 a.C., e é provável que a ideia de uma plataforma giratória tenha precedido a de um carro.
Um detalhe importante é que a roda só se torna útil quando combinada com o eixo e com animais de tração capazes de puxar cargas, como bois domesticados. Isso explica por que civilizações sofisticadas das Américas conheceram o princípio sem aplicá-lo ao transporte: em sítios mesoamericanos foram encontrados pequenos animais de cerâmica com rodas, geralmente interpretados como brinquedos ou objetos rituais, mas a ausência de animais de carga adequados e o relevo acidentado tornaram o veículo com rodas pouco vantajoso. A invenção, portanto, dependeu tanto de contexto quanto de engenho.
02Período histórico
A roda surge no fim do Neolítico e início da Idade do Cobre, quando aldeias agrícolas da Eurásia já produziam excedentes de grãos, criavam gado e começavam a usar o arado. Era um mundo sem escrita consolidada, no qual as primeiras cidades, como Uruk, concentravam dezenas de milhares de habitantes e precisavam mover alimentos, argila, madeira e pedra em escala inédita.
Os povos pastoris das estepes entre o Mar Negro e o Cáspio adotaram a carroça com entusiasmo, e sepulturas da cultura Yamnaya, do terceiro milênio a.C., incluem veículos inteiros enterrados com os mortos. Para esses grupos, a carroça coberta funcionava como casa móvel e permitiu ocupar pastagens distantes de rios e florestas.
03Evolução ao longo do tempo
Da roda maciça à roda de raios
As primeiras rodas eram discos maciços, feitos de uma ou de três tábuas unidas, pesados e lentos, próprios para carros de bois. Por volta de 2000 a.C., na cultura Sintashta, nos Urais, aparecem as rodas de raios, bem mais leves, que viabilizaram o carro de guerra puxado por cavalos. Esse veículo se espalhou rapidamente pelo Oriente Próximo, pelo Egito e pela China, e transformou a guerra e a caça das elites da Idade do Bronze. A roda de raios exigia carpintaria precisa: o cubo central, os raios e as peças curvas do aro precisavam encaixar com folga mínima para não rachar.
O aro de ferro e o carpinteiro de rodas
Na Idade do Ferro, povos celtas da Europa passaram a cercar o aro de madeira com uma faixa de ferro aplicada a quente, que ao esfriar se contraía e apertava todas as juntas. A técnica aumentou a durabilidade e seguiu em uso, quase sem mudanças, até o século XX, em carroças, diligências e canhões. O ofício do carpinteiro de rodas, chamado de rodeiro em português, tornou-se uma especialidade respeitada, com conhecimento próprio sobre madeiras: olmo para o cubo, carvalho para os raios e freixo para o aro.
Raios de arame e a roda moderna
No século XIX a roda mudou de lógica. Em 1808, George Cayley esboçou uma roda em que os raios trabalhavam tracionados, como cordas, e não comprimidos como colunas; em 1869, Eugène Meyer patenteou em Paris a roda de raios de arame, adotada pelas bicicletas. Vieram então o pneu de borracha maciça e, em 1888, o pneumático de John Boyd Dunlop. Com o automóvel, a roda passou a ser feita de aço estampado e depois de ligas de alumínio e magnésio, projetadas para suportar frenagens, curvas e cargas muito superiores às de qualquer carroça.
04Fatos curiosos
- A roda de Ljubljana tem cerca de 72 centímetros de diâmetro e foi encontrada junto com seu eixo, de 124 centímetros, o que faz dela o conjunto roda-eixo mais antigo conhecido.
- O vaso de Bronocice, na Polônia, traz o que muitos arqueólogos consideram o desenho mais antigo de um veículo de rodas, datado entre 3500 e 3350 a.C.
- Civilizações andinas, como os incas, construíram milhares de quilômetros de estradas sem usar veículos com rodas: as cargas iam nas costas de lhamas e de pessoas.
- O carro de guerra chegou ao Egito com os hicsos, por volta de 1650 a.C.; antes disso, os egípcios transportavam blocos de pedra sobre trenós puxados por cordas.
- A palavra roda vem do latim rota, da mesma família de rotação, rotor e rodízio; já rodovia é uma criação brasileira do século XX, formada a partir de roda e via, para distinguir as estradas de carros das ferrovias.
05Contexto social
A roda alterou o custo do transporte terrestre. Um boi puxando uma carroça move várias vezes a carga que carregaria no lombo, o que permitiu levar colheitas a mercados distantes, abastecer cidades e construir monumentos com pedra trazida de longe. Ao mesmo tempo, criou profissões: carroceiros, rodeiros, ferreiros especializados em aros e, mais tarde, condutores de diligências e cocheiros.
Por muitos séculos, porém, a roda conviveu com seus limites. Estradas de terra viravam lama na chuva, e em grande parte do mundo islâmico medieval o camelo substituiu a carroça com vantagem, de modo que as ruas das cidades puderam ser estreitas e sinuosas. O domínio da roda nunca foi inevitável: dependeu de estradas, de animais e de uma economia que justificasse mantê-los.
06No Brasil
Os povos indígenas do Brasil não usavam veículos de rodas antes da chegada dos europeus; cargas eram levadas por rios, em canoas, ou nas costas. A roda entrou no país com os colonizadores portugueses no século XVI, principalmente na forma do carro de boi, que se tornou o veículo de carga dos engenhos de açúcar e, depois, da mineração e das fazendas de café. Em várias regiões ele conservou as rodas maciças de madeira, que giram presas ao eixo e produzem o som agudo conhecido como o cantar do carro de boi.
O carro de boi ainda circula em áreas rurais de Minas Gerais, Goiás, São Paulo e do Nordeste, e desfiles e romarias de carros de boi fazem parte de festas tradicionais, como a de Trindade, em Goiás. No Brasil urbano, a roda está no centro de uma economia que depende do transporte rodoviário desde a década de 1950, quando o governo Juscelino Kubitschek privilegiou as estradas e a indústria automobilística instalada no ABC paulista.
07Linha do tempo
- c. 4000 a.C.
Torno de oleiro em uso na Mesopotâmia.
- c. 3500 a.C.
Pictogramas de carros em Uruk e vaso de Bronocice, na Polônia, com desenho de veículo.
- c. 3150 a.C.
Roda do Pântano de Ljubljana, o conjunto roda-eixo mais antigo preservado.
- c. 2000 a.C.
Rodas de raios e carros de guerra na cultura Sintashta, nos Urais.
- c. 1650 a.C.
Carro de guerra introduzido no Egito pelos hicsos.
- c. 500 a.C.
Aro de ferro aplicado a quente por povos celtas.
- 1869
Eugène Meyer patenteia a roda de raios de arame.
- 1888
John Boyd Dunlop reinventa o pneu pneumático para bicicletas.
- década de 1920
Rodas de aço estampado se tornam padrão nos automóveis.
08Comparativo
| Aspecto | Roda de carroça (séc. XIX) | Roda de automóvel (hoje) |
|---|---|---|
| Material | Madeira com aro de ferro | Liga de alumínio ou aço estampado |
| Raios | De madeira, trabalhando em compressão | Disco ou raios fundidos |
| Contato com o solo | Ferro direto na terra | Pneu de borracha com ar |
| Fabricação | Artesanal, pelo rodeiro | Industrial, em série |
| Velocidade típica | Até 15 km/h | Acima de 100 km/h |
09Perguntas frequentes
Quem inventou a roda?
Ninguém sabe. As evidências mais antigas, de cerca de 3500 a.C., aparecem quase simultaneamente na Mesopotâmia, na Europa Central e no Cáucaso, e os arqueólogos discutem se houve um único foco ou invenções independentes.
Qual é a roda mais antiga que existe?
A roda do Pântano de Ljubljana, na Eslovênia, datada de cerca de 3150 a.C., é o exemplar mais antigo preservado, encontrado junto com seu eixo de madeira.
Por que os povos das Américas não usavam a roda?
Eles conheciam o princípio, como mostram brinquedos de cerâmica mesoamericanos, mas não tinham animais de tração adequados nem terreno favorável, o que tornava veículos de rodas pouco úteis.
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11Fontes consultadas
- Richard W. Bulliet, The Wheel: Inventions and Reinventions, Columbia University Press, 2016
- David W. Anthony, The Horse, the Wheel, and Language, Princeton University Press, 2007
- Stuart Piggott, The Earliest Wheeled Transport, Thames and Hudson, 1983
- Museu da Cidade de Liubliana (Mestni muzej Ljubljana), dossiê sobre a roda do Pântano de Ljubljana
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