01Origem
O botão mais antigo conhecido é um disco de concha curva, perfurado, encontrado em Mohenjo-Daro, no vale do Indo, e datado de aproximadamente 2800 a 2600 a.C. Peças semelhantes aparecem em sepulturas da Idade do Bronze na Europa, e os arqueólogos concordam que esses objetos eram costurados à roupa como adorno ou sinal de posição, não para fechar nada. Durante milhares de anos foi assim: o botão existia, mas as roupas eram amarradas, presas por alfinetes e fíbulas, ou simplesmente vestidas pela cabeça, sem precisar de abertura que fechasse.
A mudança decisiva não foi o botão, mas a casa de botão, a fenda reforçada que o recebe. Ela aparece na Europa no século XIII, provavelmente na Alemanha, e se espalha rapidamente. Historiadores do vestuário associam a inovação às Cruzadas, que puseram europeus em contato com roupas orientais mais ajustadas, mas isso é hipótese, não fato comprovado. O que se sabe é que, a partir de cerca de 1250, roupas justas ao corpo, com fileiras de botões nos antebraços e no peito, viram moda entre a nobreza, e o botão torna-se ao mesmo tempo fecho e exibição de riqueza.
Em Paris, a corporação dos boutonniers já era regulamentada em 1250, com regras sobre materiais e técnicas, o que mostra uma atividade estabelecida. Os botões eram feitos de metal fundido, osso, chifre, madeira forrada de tecido ou linha bordada. A palavra portuguesa vem do francês bouton, que por sua vez deriva de um verbo germânico para 'empurrar' ou 'brotar': o botão da roupa e o botão da flor compartilham a mesma origem, a ideia de algo pequeno que se projeta para fora.
02Período histórico
A Europa do século XIII vivia um momento de crescimento urbano, com cidades mercantis, universidades novas e uma nobreza que buscava maneiras de se distinguir. A roupa deixava de ser túnica ampla e passava a modelar o corpo, para homens e mulheres, numa transformação que muitos historiadores tratam como o nascimento da moda no sentido moderno: estilos que mudam, são copiados e geram novos desejos. O botão foi uma das peças que tornaram essa roupa ajustada possível, porque permitia vestir uma manga estreita e depois fechá-la.
Ao mesmo tempo, leis suntuárias, que determinavam quem podia usar o quê, tentavam frear a imitação dos nobres pelos burgueses enriquecidos. Botões de ouro, prata e pedras entraram em muitas dessas proibições. O objeto, portanto, nasceu como fecho útil dentro de um sistema em que a aparência era regulada pela lei e pela hierarquia.
03Evolução ao longo do tempo
Do ornamento ao fecho
Nos primeiros milênios, o botão era uma pequena joia costurada ao tecido, muitas vezes em fileiras decorativas. Sem a casa correspondente, ele não prendia nada. A combinação de botão e casa, consolidada na Europa a partir do século XIII, converteu o enfeite em mecanismo. A casa era cortada no tecido e reforçada com pontos de linha, técnica que exigia habilidade e virou especialidade de alfaiates. Nos séculos seguintes a disposição dos botões passou a seguir convenções: os homens fecham a roupa à direita, as mulheres à esquerda, costume cuja explicação é debatida.
Séculos de luxo e de metal
Entre os séculos XVI e XVIII o botão virou um dos adornos masculinos mais caros. Casacos de corte franceses levavam dezenas de botões de prata, esmalte, pedras ou miniaturas pintadas, e o rei Luís XIV teria gasto fortunas com eles. Em Birmingham, na Inglaterra, Matthew Boulton industrializou a produção de botões metálicos estampados no fim do século XVIII, com máquinas que prensavam latão e aço. Botões de uniforme, com brasões e números de regimento, viraram padrão militar e até hoje são colecionados.
A produção industrial
No século XIX surgiram botões baratos para o guarda-roupa de massa. Fábricas francesas e inglesas produziam botões de madrepérola, cortados de conchas importadas dos mares do Sul e do rio Mississippi, onde a cidade de Muscatine, no estado de Iowa, chegou a se chamar 'capital mundial do botão de pérola'. Em 1830 a Birmingham dos botões empregava milhares de operários. Surgiram também o botão de quatro furos padronizado e os botões de vidro e de porcelana, e a máquina de costura acelerou a aplicação.
Plásticos e concorrentes
A primeira metade do século XX trouxe o botão de baquelite, de caseína e, depois, de poliéster e resina, moldados em qualquer cor e forma. Com isso o botão deixou de ser caro e tornou-se o fecho mais comum da roupa barata. Ao mesmo tempo enfrentou concorrentes: o zíper, o botão de pressão, inventado na década de 1880, e o velcro. Mesmo assim, camisas, casacos, paletós e jeans continuam a usar botões, e a casa de botão feita à máquina é ainda uma operação específica nas confecções.
04Fatos curiosos
- O botão de pressão, com uma peça macho e uma fêmea que se encaixam, foi patenteado na Alemanha por Heribert Bauer em 1885, e é uma invenção separada do botão de casa.
- Colecionadores de botões formam uma comunidade organizada: a National Button Society dos Estados Unidos existe desde 1938 e classifica peças por material, época e técnica.
- A convenção de abotoar a roupa masculina à direita e a feminina à esquerda não tem explicação comprovada; a hipótese das damas vestidas por criadas é plausível, mas não documentada.
- Botões de uniformes militares do século XVIII e XIX trazem o número do regimento, o que permite a arqueólogos identificar soldados em campos de batalha e naufrágios.
- Os botões de madrepérola de Muscatine, nos Estados Unidos, chegaram a representar, em 1905, mais de um terço de toda a produção mundial de botões.
05Contexto social
Por séculos, o botão foi um marcador social evidente. Fileiras de botões de metal precioso eram para quem podia pagar, e leis suntuárias de várias cidades europeias proibiram botões de ouro ou de seda para artesãos e comerciantes. A quantidade de botões numa roupa também indicava que o usuário tinha quem o vestisse, pois abotoar dezenas de peças pequenas tomava tempo. O botão barato do século XIX inverteu essa lógica: roupas prontas com botões padronizados deram uma aparência de respeitabilidade ao operário e ao funcionário de escritório.
A produção de botões envolveu trabalho duro. A indústria de madrepérola expunha operários ao pó de concha, causador de doenças respiratórias, e pregar botões em roupas era tarefa doméstica de mulheres e crianças, paga por peça. Em contrapartida, as guildas medievais e as fábricas inglesas criaram ofícios especializados, e o botão fez parte da primeira produção industrial em série, antes das roupas prontas.
06No Brasil
No Brasil colonial, botões chegavam pelas naus portuguesas e eram artigo de luxo, usados em casacas de autoridades e em uniformes de tropa. Inventários do século XVIII em Minas Gerais registram botões de ouro e prata entre os bens de valor. A fabricação local ganhou corpo na virada do século XX, com oficinas de imigrantes italianos e alemães em São Paulo e no Rio de Janeiro, e cresceu com a indústria de confecções a partir dos anos 1940. Botões de coco, madeira e chifre foram alternativas populares onde os importados custavam caro.
Hoje fabricantes de botões de poliéster, metal e madrepérola, concentrados em São Paulo e Santa Catarina, atendem polos de confecção como o Bom Retiro, Brusque e o Agreste pernambucano.
07Linha do tempo
- c. 2800 a.C.
Botões de concha são usados como adorno no vale do Indo.
- c. 1250
A casa de botão se difunde na Europa e os boutonniers de Paris são regulamentados.
- c. 1770
Matthew Boulton mecaniza a produção de botões de metal em Birmingham.
- 1885
Heribert Bauer patenteia o botão de pressão na Alemanha.
- Anos 1930
Botões de plástico substituem em massa os de osso e madrepérola.
- Hoje
Poliéster e resina dominam a produção mundial, com o botão de madrepérola como artigo premium.
08Comparativo
| Aspecto | Século XIII | Hoje |
|---|---|---|
| Material | Metal fundido, osso, tecido bordado | Poliéster, resina, metal estampado |
| Quem usava | Nobreza e alto clero | Qualquer pessoa |
| Produção | Artesãos de guilda | Moldagem industrial em série |
| Função | Fecho e sinal de riqueza | Fecho padrão de camisas e casacos |
| Casa de botão | Cortada e bordada à mão | Feita por máquina caseadeira |
09Perguntas frequentes
Qual é o botão mais antigo conhecido?
Um botão de concha encontrado em Mohenjo-Daro, no vale do Indo, datado de cerca de 2800 a.C. Ele era usado como adorno, não como fecho.
Quando o botão passou a fechar roupas?
No século XIII, com a difusão da casa de botão na Europa. A partir daí roupas ajustadas ao corpo se tornaram possíveis.
Por que as roupas femininas abotoam do lado contrário?
A convenção existe desde pelo menos o século XIX, mas sua causa não é documentada. A explicação mais comum, ligada a damas vestidas por criadas, é apenas uma hipótese.
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11Fontes consultadas
- Diana Epstein e Millicent Safro, Buttons, 1991
- Victoria and Albert Museum, Londres, coleção de botões e acessórios de vestuário
- Daniel Roche, A Cultura das Aparências: uma história da indumentária, 1989
- Encyclopaedia Britannica, verbete Button
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