01Origem
Antes da pena de ave, o Mediterrâneo escrevia com o cálamo, um pedaço de junco cortado em bisel e fendido na ponta. Egípcios, gregos e romanos o usaram sobre papiro e pergaminho por mais de dois mil anos. A pena de ave aparece quando o pergaminho se torna o suporte dominante, no fim da Antiguidade: sua ponta flexível desliza melhor sobre a pele preparada do que o junco rígido, e permite traços finos e grossos na mesma linha, o que a caligrafia latina passou a explorar.
A primeira menção segura está nas 'Etimologias' de Isidoro de Sevilha, escritas no início do século VII, que listam como instrumentos do escriba o cálamo e a pena. Não se conhece inventor nem data precisa, e é provável que a adoção tenha sido gradual, entre os séculos V e VII, em mosteiros da Itália, da Espanha e da Gália. A partir do século VIII, nas oficinas de cópia do império carolíngio, a pena já é a regra, e a escrita minúscula que ali nasceu, ancestral das letras deste texto, foi desenhada para ela.
A ave preferida era o ganso, por ter penas grandes, abundantes e baratas. As cinco penas externas de cada asa serviam, e as da asa esquerda eram mais valorizadas por quem escrevia com a mão direita, porque a curvatura se afasta do rosto. Cisne dava penas mais resistentes e caras; corvo, penas finas para traços delicados e desenho. A pena nova era inútil: precisava secar, ser temperada em areia quente para endurecer a haste e, por fim, ser aparada com um canivete, cujo nome em inglês, 'penknife', guarda a função original.
02Período histórico
A pena de ave dominou a Europa da Idade Média ao século XIX, um período em que escrever era uma habilidade especializada. Na alta Idade Média a cópia de livros concentrava-se nos mosteiros, e o escriba trabalhava em pé ou em banco alto, com a pena numa mão e o canivete na outra, para raspar erros e reaparar a ponta a cada poucas linhas. Um copista gastava dezenas de penas por livro.
Com as universidades, a burocracia dos reinos e a imprensa, a demanda por escrita cresceu, mas a pena continuou a mesma. No século XVIII, só a Inglaterra importava dezenas de milhões de penas por ano, boa parte vinda da Holanda, da Polônia e da Rússia, onde se criavam gansos em escala para esse mercado. Era uma economia inteira montada ao redor de um objeto descartável.
03Evolução ao longo do tempo
A pena pronta para usar
Desde o século XVI, oficinas holandesas e inglesas vendiam penas já temperadas e aparadas, poupando o escrevente do trabalho de preparo. Mesmo assim, cada pena rendia poucos dias de escrita intensa antes de a ponta amolecer. Essa fragilidade, mais que o preço, foi o que abriu espaço para a procura por uma ponta metálica durável, experimentada em bronze e aço desde o século XVII, mas sem sucesso comercial.
A pena de aço de Birmingham
Entre as décadas de 1820 e 1830, fabricantes de Birmingham, na Inglaterra, como John Mitchell, Josiah Mason e Joseph Gillott, aprenderam a estampar penas de aço em prensas, a dar-lhes fendas e furos de alívio e a temperá-las em série. O preço caiu de xelins por unidade para centavos por grosa. Por volta de 1850, Birmingham produzia a maior parte das penas metálicas do mundo. Esse foi o golpe decisivo: a pena de ganso, que precisava ser aparada e substituída constantemente, não competia com um objeto uniforme e quase indestrutível.
Tinteiro embutido e esferográfica
A pena de aço ainda exigia mergulhar a ponta no tinteiro a cada poucas palavras. A caneta-tinteiro, com reservatório interno e alimentação regulada, foi aperfeiçoada por Lewis Waterman em 1884 e resolveu esse incômodo, mantendo a ponta de aço ou de ouro, que seguiu se chamando 'pena'. Em 1938, László Bíró patenteou a esferográfica, que dispensava tinta líquida e aparas. Nas décadas de 1950 e 1960, a esferográfica barata tirou das escolas as últimas penas de mergulhar, e o objeto deixou de pertencer ao cotidiano.
O que sobreviveu
A pena de ave não desapareceu de todo. Calígrafos, restauradores e artistas a usam porque nenhum metal imita sua flexibilidade. A Suprema Corte dos Estados Unidos mantém a tradição de colocar penas de ganso brancas nas mesas dos advogados em cada sessão. E a língua guardou o objeto: a ponta da caneta-tinteiro chama-se pena, dizemos que um autor tem 'boa pena', e o 'canivete' continua no bolso, ainda que ninguém mais apare nada com ele.
04Fatos curiosos
- A asa esquerda do ganso dava as penas mais procuradas pelos destros, porque a curvatura natural afasta a pluma do rosto de quem escreve.
- A Declaração de Independência dos Estados Unidos, em 1776, e a maior parte dos tratados europeus até meados do século XIX foram assinados com penas de ave.
- Para traços muito finos em mapas e partituras, os desenhistas preferiam penas de corvo, mais estreitas que as de ganso.
- A tinta ferrogálica, feita de noz-de-galha e sulfato de ferro, era tão ácida que corroía a pena de aço em dias; a pena de ganso resistia melhor a ela.
- A ponta de ouro das canetas-tinteiro modernas recebe uma esfera de liga dura, porque o ouro puro, como a pena de ganso, se desgastaria depressa.
05Contexto social
Escrever com pena era um ofício antes de ser um gesto cotidiano. Na Idade Média, o escriba, quase sempre monge e quase sempre homem, tinha status de artesão qualificado; nos séculos seguintes, escreventes, tabeliães e secretários formaram uma pequena classe letrada que vivia do domínio da pena, da tinta e das fórmulas. Saber aparar uma pena era parte da educação de qualquer pessoa alfabetizada até o século XIX.
A pena de aço democratizou a escrita de forma concreta: tornou o instrumento barato, previsível e durável no mesmo momento em que a escola pública obrigatória se espalhava pela Europa e pelas Américas. Crianças passaram a escrever com penas de mergulhar em carteiras com tinteiro embutido, e o borrão de tinta virou parte da memória escolar de várias gerações. A esferográfica, por fim, tirou até esse ritual.
06No Brasil
No Brasil colonial, toda a escrita administrativa e privada, das cartas de sesmaria aos inventários, das atas das câmaras às cartas de alforria, era feita com pena de ave e tinta ferrogálica. A carta de Pero Vaz de Caminha, de 1500, foi escrita com esse instrumento. Os escrivães das vilas e os padres que registravam batismos e óbitos eram, por isso, figuras centrais: o acesso à pena era o acesso ao registro legal.
As penas de aço inglesas chegaram aos catálogos das papelarias do Rio de Janeiro e de São Paulo ao longo do século XIX, e as escolas brasileiras usaram penas de mergulhar, com tinteiros encaixados nas carteiras, até as décadas de 1950 e 1960, quando a esferográfica nacional as substituiu. Hoje a pena de ave sobrevive entre calígrafos e em oficinas de museus e arquivos que ensinam a ler documentos antigos.
07Linha do tempo
- c. 3000 a.C.
Egípcios escrevem sobre papiro com cálamo de junco, antecessor da pena.
- c. 620
Isidoro de Sevilha cita a pena de ave entre os instrumentos do escriba.
- séc. VIII-IX
A minúscula carolíngia é desenhada para a pena de ganso nos mosteiros do império de Carlos Magno.
- séc. XVI
Oficinas holandesas e inglesas passam a vender penas temperadas e aparadas em maços.
- 1822-1830
Fabricantes de Birmingham começam a estampar penas de aço em série.
- c. 1850
Birmingham produz a maior parte das penas metálicas do mundo; a pena de ganso perde o mercado.
- 1884
Lewis Waterman patenteia a caneta-tinteiro de alimentação regulada.
- 1938
László Bíró patenteia a esferográfica, que aposentará as últimas penas de mergulhar.
08Comparativo
| Aspecto | Pena de ganso | Pena de aço, c. 1850 |
|---|---|---|
| Preparo | Secar, temperar e aparar com canivete | Nenhum; pronta para encaixar no cabo |
| Durabilidade | Poucos dias de uso intenso | Semanas ou meses |
| Custo | Caro por unidade e em volume | Centavos por dúzia |
| Traço | Flexível, com variação natural | Uniforme, com flexão controlada |
| Quem usava | Escribas, tabeliães, letrados | Escolas, escritórios, todo mundo |
09Perguntas frequentes
Qual ave dava a melhor pena de escrever?
O ganso, por ter penas grandes e abundantes. O cisne dava penas mais duráveis e caras; o corvo, penas finas para desenho e traços delicados.
Por que a pena de ganso deixou de ser usada?
A pena de aço de Birmingham, produzida em massa a partir da década de 1820, era barata, uniforme e durava muito mais. A caneta-tinteiro e a esferográfica completaram a substituição.
O que a caneta-tinteiro herdou da pena de ave?
O nome da ponta, que ainda se chama pena, e o desenho com fenda central, que conduz a tinta por capilaridade exatamente como a pena de ganso aparada.
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11Fontes consultadas
- Isidoro de Sevilha, Etymologiae, livro VI, início do século VII
- Michelle P. Brown, Understanding Illuminated Manuscripts, British Library, 1994
- Henry Bore, The Story of the Invention of Steel Pens, Ivison, Blakeman and Co., 1890
- Pen Museum, Birmingham, coleção de penas de aço e maquinário
- Arquivo Nacional, Rio de Janeiro, acervo de documentos coloniais
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