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Verbete nº 033 · Comunicação

Papel

Fibras batidas em água e secas em folha: o suporte chinês que carregou a escrita, o dinheiro e a memória do mundo.

Antiguidade Comunicar Material ou substância China, dinastia Han · 105 d.C.
Papel: Fibras batidas em água e secas em folha: o suporte chinês que carregou a escrita, o dinheiro e a memória do mundo.
Imagem: Michellecornelison · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

01Origem

A crônica oficial da dinastia Han registra que, no ano 105, o funcionário da corte Cai Lun apresentou ao imperador He um método para fazer folhas a partir de cascas de árvore, trapos de cânhamo e redes de pesca velhas. Por séculos essa data foi tratada como o nascimento do papel. Escavações do século XX complicaram o relato: em Fangmatan, na província de Gansu, apareceu um fragmento de mapa desenhado sobre papel de cânhamo datado do século II a.C. Cai Lun, portanto, parece ter sistematizado e barateado uma técnica que já circulava, tornando-a capaz de substituir a seda e as tiras de bambu.

O princípio pouco mudou desde então. Fibras vegetais são maceradas em água até se soltarem; uma peneira plana recolhe a polpa, deixa a água escoar e retém uma manta fina de fibras entrelaçadas, que é prensada e seca. É isso que distingue o papel do papiro egípcio: o papiro é feito de tiras da planta sobrepostas e coladas, enquanto o papel é um feltro de fibras soltas unidas por ligações de hidrogênio. A palavra portuguesa, no entanto, herdou o nome do antepassado, por meio do latim papyrus.

A técnica saiu da China devagar. Chegou à Coreia e, segundo a crônica japonesa Nihon Shoki, foi levada ao Japão em 610 pelo monge Damjing. A tradição atribui sua entrada no mundo islâmico a prisioneiros chineses capturados na batalha de Talas, em 751; historiadores veem aí uma simplificação, mas é certo que Samarcanda e Bagdá tinham oficinas de papel no fim do século VIII. Pelo norte da África e pela Espanha muçulmana, o papel chegou à Europa: Xàtiva, perto de Valência, tinha moinhos por volta de 1056, e Fabriano, na Itália, virou o grande centro produtor a partir do século XIII.

02Período histórico

A China dos Han era um império burocrático que vivia de registros: censos, impostos e ordens militares circulavam em tiras de bambu amarradas, pesadas e volumosas, ou em seda, leve mas caríssima. Um suporte barato e abundante respondia a uma necessidade de Estado antes de ser uma conveniência de letrados, e não por acaso o papel foi aperfeiçoado dentro das oficinas do palácio.

Na Europa, o papel chegou quando universidades, tribunais e casas comerciais, entre os séculos XII e XIV, já não encontravam pergaminho suficiente. Os moinhos de Fabriano acrescentaram três inovações decisivas: o batedor de martelos movido a água, a cola de gelatina animal que impermeabiliza a folha e a marca-d'água, que identificava o fabricante. Quando Gutenberg imprimiu sua Bíblia, por volta de 1455, havia papel padronizado para alimentar a prensa.

03Evolução ao longo do tempo

  1. Do trapo à máquina contínua

    Até o fim do século XVIII, cada folha era formada à mão, em moldes de arame. Em 1798, o francês Nicolas-Louis Robert patenteou uma máquina em que uma tela sem fim recebia a polpa e produzia uma tira contínua. O projeto foi levado à Inglaterra, financiado pelos irmãos Fourdrinier e construído pelo engenheiro Bryan Donkin a partir de 1803. A máquina Fourdrinier multiplicou a produção e derrubou o preço, mas a matéria-prima continuava sendo trapo de linho e algodão, cada vez mais escasso.

  2. A madeira entra na receita

    Em 1719, o naturalista René-Antoine de Réaumur observou vespas construindo ninhos de fibra de madeira mastigada e sugeriu que os humanos fizessem o mesmo. A ideia só virou indústria na década de 1840, quando o alemão Friedrich Gottlob Keller desfibrou toras contra uma pedra de amolar, criando a pasta mecânica; o canadense Charles Fenerty chegou a resultados parecidos na mesma época. Em 1867, o americano Benjamin Tilghman patenteou o cozimento químico com sulfito, e em 1884 o sueco Carl Dahl criou o processo kraft, que produz fibras longas e resistentes e domina a indústria até hoje.

  3. Formatos, acidez e reciclagem

    O século XX padronizou o papel. Em 1922, a norma alemã DIN 476, de Walter Porstmann, definiu a série A, em que cada folha dobrada ao meio mantém a proporção de 1 para raiz de 2; o A4 virou padrão internacional com a ISO 216, em 1975. A química também mudou: o papel ácido do século XIX, que amarelece e quebra, foi substituído em arquivos por papel alcalino, de longa duração. Desde os anos 1970, a reciclagem de aparas e a certificação de florestas plantadas respondem à pressão ambiental sobre uma indústria que consome muita água e energia.

04Fatos curiosos

  • O Sutra do Diamante, impresso em papel na China em 868 e guardado na British Library, é o livro impresso mais antigo com data conhecida.
  • A palavra 'resma', pacote de 500 folhas, vem do árabe rizma, 'fardo', e entrou no português pelo comércio da Península Ibérica.
  • O primeiro papel-moeda surgiu na China da dinastia Song, no século XI, com as notas chamadas jiaozi, emitidas em Sichuan.
  • A marca-d'água mais antiga conhecida foi feita em Fabriano por volta de 1282: um desenho de arame costurado à tela deixava a folha mais fina naquele ponto.
  • Papel de trapo bem feito dura séculos: documentos do século XIV costumam estar em melhor estado do que jornais impressos em pasta mecânica nos anos 1950.

05Contexto social

Mais barato que a seda e o pergaminho, o papel ampliou o círculo de quem podia escrever e guardar registros. Na China, sustentou os exames imperiais que recrutavam funcionários por mérito letrado; no mundo islâmico, alimentou as bibliotecas de Bagdá, Córdoba e Cairo; na Europa, viabilizou a imprensa, a Reforma e a correspondência das companhias de navegação. Em cada caso, a abundância de suporte precedeu a explosão de leitores.

A fabricação, porém, foi por séculos um trabalho duro e invisível. Os moinhos dependiam de catadores de trapos, muitas vezes mulheres e crianças, e no século XVIII a Inglaterra e a França restringiram a exportação de trapos para proteger suas indústrias. Com a celulose de madeira, o eixo se deslocou para as florestas e para a fábrica, e o papel virou produto de massa, base de jornais baratos, escolas públicas e burocracias modernas. A previsão de um escritório sem papel não se cumpriu: o papel de imprimir recuou, mas o de embalagem cresceu com o comércio eletrônico.

06No Brasil

A colônia importava todo o papel que usava, e só depois da chegada da família real, em 1808, a Coroa permitiu manufaturas locais. Registros da época indicam que em 1809 Henrique Nunes Cardoso e Joaquim José da Silva obtiveram licença para uma fábrica no Andaraí, no Rio de Janeiro, tida como a primeira do país; outras pequenas unidades surgiram ao longo do século XIX, sempre à sombra do produto europeu.

A virada industrial veio com a Companhia Melhoramentos de São Paulo, fundada em 1890 por Antônio Proost Rodovalho, cuja fábrica em Caieiras foi uma das primeiras a produzir papel em escala no país e, nas décadas seguintes, pioneira no uso de celulose de eucalipto. Em 1946, a Klabin inaugurou em Monte Alegre, no Paraná, a primeira fábrica integrada de papel-jornal do Brasil. Hoje o país está entre os maiores produtores mundiais de celulose, quase toda de florestas plantadas de eucalipto e pínus.

07Linha do tempo

  1. c. 150 a.C.

    Fragmentos de papel de cânhamo, como o mapa de Fangmatan, atestam o uso na China ocidental.

  2. 105

    Cai Lun apresenta à corte Han um método aperfeiçoado de fabricação.

  3. 610

    O monge Damjing leva a técnica ao Japão, segundo o Nihon Shoki.

  4. c. 751-794

    Oficinas de papel operam em Samarcanda e, pouco depois, em Bagdá.

  5. c. 1056

    Xàtiva, na Espanha muçulmana, abriga os primeiros moinhos de papel da Europa.

  6. c. 1282

    Fabriano registra a marca-d'água mais antiga conhecida.

  7. 1798

    Nicolas-Louis Robert patenteia a máquina de papel contínuo.

  8. 1844

    Keller e Fenerty obtêm papel a partir de pasta mecânica de madeira.

  9. 1975

    A ISO 216 torna o A4 o formato padrão internacional.

08Comparativo

Fabricar papel: oficina medieval e fábrica moderna
AspectoMoinho do século XIVFábrica atual
Matéria-primaTrapos de linho e cânhamoCelulose de eucalipto e pínus, aparas recicladas
Formação da folhaUma a uma, em molde manualTira contínua em máquina Fourdrinier
EnergiaRoda d'água movendo martelosEletricidade e vapor
Produção diáriaAlgumas centenas de folhasCentenas de toneladas
DurabilidadeSéculos, se bem guardadoVaria conforme o tipo; papel alcalino dura mais

09Perguntas frequentes

Quem inventou o papel?

Não há um único inventor. Fragmentos chineses do século II a.C. mostram que a técnica já existia; Cai Lun, em 105, aperfeiçoou e divulgou o processo na corte Han, e por isso recebe o crédito tradicional.

Papiro e papel são a mesma coisa?

Não. O papiro é feito de tiras da planta sobrepostas e prensadas; o papel é uma manta de fibras soltas entrelaçadas em água. Só o nome é parecido.

Por que o papel antigo amarelece?

Papéis feitos de pasta mecânica contêm lignina, que oxida com a luz e o ar, e muitos foram colados com substâncias ácidas. Papéis de trapo ou alcalinos envelhecem bem mais devagar.

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11Fontes consultadas

  • Dard Hunter, Papermaking: The History and Technique of an Ancient Craft, 1947
  • Tsien Tsuen-hsuin, Paper and Printing (Science and Civilisation in China, vol. 5), 1985
  • Mark Kurlansky, Paper: Paging Through History, 2016
  • Lothar Müller, White Magic: The Age of Paper, 2014
  • Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), Relatório Anual

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