01Origem
A crônica oficial da dinastia Han registra que, no ano 105, o funcionário da corte Cai Lun apresentou ao imperador He um método para fazer folhas a partir de cascas de árvore, trapos de cânhamo e redes de pesca velhas. Por séculos essa data foi tratada como o nascimento do papel. Escavações do século XX complicaram o relato: em Fangmatan, na província de Gansu, apareceu um fragmento de mapa desenhado sobre papel de cânhamo datado do século II a.C. Cai Lun, portanto, parece ter sistematizado e barateado uma técnica que já circulava, tornando-a capaz de substituir a seda e as tiras de bambu.
O princípio pouco mudou desde então. Fibras vegetais são maceradas em água até se soltarem; uma peneira plana recolhe a polpa, deixa a água escoar e retém uma manta fina de fibras entrelaçadas, que é prensada e seca. É isso que distingue o papel do papiro egípcio: o papiro é feito de tiras da planta sobrepostas e coladas, enquanto o papel é um feltro de fibras soltas unidas por ligações de hidrogênio. A palavra portuguesa, no entanto, herdou o nome do antepassado, por meio do latim papyrus.
A técnica saiu da China devagar. Chegou à Coreia e, segundo a crônica japonesa Nihon Shoki, foi levada ao Japão em 610 pelo monge Damjing. A tradição atribui sua entrada no mundo islâmico a prisioneiros chineses capturados na batalha de Talas, em 751; historiadores veem aí uma simplificação, mas é certo que Samarcanda e Bagdá tinham oficinas de papel no fim do século VIII. Pelo norte da África e pela Espanha muçulmana, o papel chegou à Europa: Xàtiva, perto de Valência, tinha moinhos por volta de 1056, e Fabriano, na Itália, virou o grande centro produtor a partir do século XIII.
02Período histórico
A China dos Han era um império burocrático que vivia de registros: censos, impostos e ordens militares circulavam em tiras de bambu amarradas, pesadas e volumosas, ou em seda, leve mas caríssima. Um suporte barato e abundante respondia a uma necessidade de Estado antes de ser uma conveniência de letrados, e não por acaso o papel foi aperfeiçoado dentro das oficinas do palácio.
Na Europa, o papel chegou quando universidades, tribunais e casas comerciais, entre os séculos XII e XIV, já não encontravam pergaminho suficiente. Os moinhos de Fabriano acrescentaram três inovações decisivas: o batedor de martelos movido a água, a cola de gelatina animal que impermeabiliza a folha e a marca-d'água, que identificava o fabricante. Quando Gutenberg imprimiu sua Bíblia, por volta de 1455, havia papel padronizado para alimentar a prensa.
03Evolução ao longo do tempo
Do trapo à máquina contínua
Até o fim do século XVIII, cada folha era formada à mão, em moldes de arame. Em 1798, o francês Nicolas-Louis Robert patenteou uma máquina em que uma tela sem fim recebia a polpa e produzia uma tira contínua. O projeto foi levado à Inglaterra, financiado pelos irmãos Fourdrinier e construído pelo engenheiro Bryan Donkin a partir de 1803. A máquina Fourdrinier multiplicou a produção e derrubou o preço, mas a matéria-prima continuava sendo trapo de linho e algodão, cada vez mais escasso.
A madeira entra na receita
Em 1719, o naturalista René-Antoine de Réaumur observou vespas construindo ninhos de fibra de madeira mastigada e sugeriu que os humanos fizessem o mesmo. A ideia só virou indústria na década de 1840, quando o alemão Friedrich Gottlob Keller desfibrou toras contra uma pedra de amolar, criando a pasta mecânica; o canadense Charles Fenerty chegou a resultados parecidos na mesma época. Em 1867, o americano Benjamin Tilghman patenteou o cozimento químico com sulfito, e em 1884 o sueco Carl Dahl criou o processo kraft, que produz fibras longas e resistentes e domina a indústria até hoje.
Formatos, acidez e reciclagem
O século XX padronizou o papel. Em 1922, a norma alemã DIN 476, de Walter Porstmann, definiu a série A, em que cada folha dobrada ao meio mantém a proporção de 1 para raiz de 2; o A4 virou padrão internacional com a ISO 216, em 1975. A química também mudou: o papel ácido do século XIX, que amarelece e quebra, foi substituído em arquivos por papel alcalino, de longa duração. Desde os anos 1970, a reciclagem de aparas e a certificação de florestas plantadas respondem à pressão ambiental sobre uma indústria que consome muita água e energia.
04Fatos curiosos
- O Sutra do Diamante, impresso em papel na China em 868 e guardado na British Library, é o livro impresso mais antigo com data conhecida.
- A palavra 'resma', pacote de 500 folhas, vem do árabe rizma, 'fardo', e entrou no português pelo comércio da Península Ibérica.
- O primeiro papel-moeda surgiu na China da dinastia Song, no século XI, com as notas chamadas jiaozi, emitidas em Sichuan.
- A marca-d'água mais antiga conhecida foi feita em Fabriano por volta de 1282: um desenho de arame costurado à tela deixava a folha mais fina naquele ponto.
- Papel de trapo bem feito dura séculos: documentos do século XIV costumam estar em melhor estado do que jornais impressos em pasta mecânica nos anos 1950.
05Contexto social
Mais barato que a seda e o pergaminho, o papel ampliou o círculo de quem podia escrever e guardar registros. Na China, sustentou os exames imperiais que recrutavam funcionários por mérito letrado; no mundo islâmico, alimentou as bibliotecas de Bagdá, Córdoba e Cairo; na Europa, viabilizou a imprensa, a Reforma e a correspondência das companhias de navegação. Em cada caso, a abundância de suporte precedeu a explosão de leitores.
A fabricação, porém, foi por séculos um trabalho duro e invisível. Os moinhos dependiam de catadores de trapos, muitas vezes mulheres e crianças, e no século XVIII a Inglaterra e a França restringiram a exportação de trapos para proteger suas indústrias. Com a celulose de madeira, o eixo se deslocou para as florestas e para a fábrica, e o papel virou produto de massa, base de jornais baratos, escolas públicas e burocracias modernas. A previsão de um escritório sem papel não se cumpriu: o papel de imprimir recuou, mas o de embalagem cresceu com o comércio eletrônico.
06No Brasil
A colônia importava todo o papel que usava, e só depois da chegada da família real, em 1808, a Coroa permitiu manufaturas locais. Registros da época indicam que em 1809 Henrique Nunes Cardoso e Joaquim José da Silva obtiveram licença para uma fábrica no Andaraí, no Rio de Janeiro, tida como a primeira do país; outras pequenas unidades surgiram ao longo do século XIX, sempre à sombra do produto europeu.
A virada industrial veio com a Companhia Melhoramentos de São Paulo, fundada em 1890 por Antônio Proost Rodovalho, cuja fábrica em Caieiras foi uma das primeiras a produzir papel em escala no país e, nas décadas seguintes, pioneira no uso de celulose de eucalipto. Em 1946, a Klabin inaugurou em Monte Alegre, no Paraná, a primeira fábrica integrada de papel-jornal do Brasil. Hoje o país está entre os maiores produtores mundiais de celulose, quase toda de florestas plantadas de eucalipto e pínus.
07Linha do tempo
- c. 150 a.C.
Fragmentos de papel de cânhamo, como o mapa de Fangmatan, atestam o uso na China ocidental.
- 105
Cai Lun apresenta à corte Han um método aperfeiçoado de fabricação.
- 610
O monge Damjing leva a técnica ao Japão, segundo o Nihon Shoki.
- c. 751-794
Oficinas de papel operam em Samarcanda e, pouco depois, em Bagdá.
- c. 1056
Xàtiva, na Espanha muçulmana, abriga os primeiros moinhos de papel da Europa.
- c. 1282
Fabriano registra a marca-d'água mais antiga conhecida.
- 1798
Nicolas-Louis Robert patenteia a máquina de papel contínuo.
- 1844
Keller e Fenerty obtêm papel a partir de pasta mecânica de madeira.
- 1975
A ISO 216 torna o A4 o formato padrão internacional.
08Comparativo
| Aspecto | Moinho do século XIV | Fábrica atual |
|---|---|---|
| Matéria-prima | Trapos de linho e cânhamo | Celulose de eucalipto e pínus, aparas recicladas |
| Formação da folha | Uma a uma, em molde manual | Tira contínua em máquina Fourdrinier |
| Energia | Roda d'água movendo martelos | Eletricidade e vapor |
| Produção diária | Algumas centenas de folhas | Centenas de toneladas |
| Durabilidade | Séculos, se bem guardado | Varia conforme o tipo; papel alcalino dura mais |
09Perguntas frequentes
Quem inventou o papel?
Não há um único inventor. Fragmentos chineses do século II a.C. mostram que a técnica já existia; Cai Lun, em 105, aperfeiçoou e divulgou o processo na corte Han, e por isso recebe o crédito tradicional.
Papiro e papel são a mesma coisa?
Não. O papiro é feito de tiras da planta sobrepostas e prensadas; o papel é uma manta de fibras soltas entrelaçadas em água. Só o nome é parecido.
Por que o papel antigo amarelece?
Papéis feitos de pasta mecânica contêm lignina, que oxida com a luz e o ar, e muitos foram colados com substâncias ácidas. Papéis de trapo ou alcalinos envelhecem bem mais devagar.
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11Fontes consultadas
- Dard Hunter, Papermaking: The History and Technique of an Ancient Craft, 1947
- Tsien Tsuen-hsuin, Paper and Printing (Science and Civilisation in China, vol. 5), 1985
- Mark Kurlansky, Paper: Paging Through History, 2016
- Lothar Müller, White Magic: The Age of Paper, 2014
- Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), Relatório Anual
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