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Verbete nº 024 · Alimentação e utensílios

Forno de micro-ondas

Um chocolate derretido no bolso de um engenheiro de radar deu origem ao forno mais rápido da cozinha.

Século XX Alimentar Aparelho ou máquina Waltham, Massachusetts, Estados Unidos · 1945
Forno de micro-ondas: Um chocolate derretido no bolso de um engenheiro de radar deu origem ao forno mais rápido da cozinha.
Imagem: Wrightmt · Wikimedia Commons · domínio público

01Origem

O forno de micro-ondas é um subproduto da guerra. Em 1940, os físicos John Randall e Harry Boot, na Universidade de Birmingham, construíram o magnetron de cavidades, uma válvula capaz de gerar ondas de rádio de alta frequência com potência suficiente para radares compactos. O dispositivo foi levado em segredo aos Estados Unidos, e a Raytheon, de Massachusetts, tornou-se sua maior fabricante. Era sabido que as micro-ondas aqueciam materiais; técnicos de radar relatavam sensação de calor ao passar diante das antenas, mas ninguém havia pensado nisso como forma de cozinhar.

A história mais contada atribui a ideia a Percy Spencer, engenheiro autodidata da Raytheon. Em 1945, ao testar um magnetron, notou que uma barra de chocolate com amendoim no bolso havia derretido. Ele teria então colocado milho de pipoca diante do tubo e visto os grãos estourarem, e um ovo, que explodiu. A anedota tem apoio em entrevistas do próprio Spencer, mas os detalhes variam entre as versões. O que é documentado é a patente: Spencer depositou em 8 de outubro de 1945 um 'método de tratar alimentos', concedida em 1950.

Em 1947, a Raytheon lançou o Radarange, primeiro forno de micro-ondas comercial. Tinha cerca de 1,8 metro de altura, pesava mais de 300 quilos, usava magnetron refrigerado a água e custava em torno de 5 mil dólares. Destinava-se a restaurantes, navios e cozinhas industriais, e vendeu pouco. O caminho até a bancada da cozinha levaria mais vinte anos de redução de tamanho, de preço e de potência, além da substituição da refrigeração a água por ar.

02Período histórico

O magnetron e o forno nasceram na Segunda Guerra Mundial, quando o esforço de pesquisa em radar mobilizou físicos de várias nacionalidades e criou a eletrônica de micro-ondas. Terminado o conflito, fabricantes como a Raytheon precisavam de usos civis para suas válvulas e fábricas, e o forno foi uma das apostas.

A difusão aconteceu em outro clima: a prosperidade do pós-guerra, as cozinhas equipadas da classe média americana e, nos anos 1970, a entrada maciça das mulheres no mercado de trabalho, que valorizou qualquer aparelho capaz de reduzir o tempo de preparo. Nessa década também cresceu a indústria de alimentos congelados e prontos, parceira natural do micro-ondas.

03Evolução ao longo do tempo

  1. Radarange, o gigante

    O forno de 1947 era um armário industrial com magnetron de três quilowatts, refrigeração a água e preço de automóvel de luxo. A Raytheon vendeu poucas unidades a restaurantes, companhias ferroviárias e transatlânticos. Versões menores, licenciadas à Tappan, chegaram ao mercado doméstico em 1955, embutidas na parede e custando cerca de 1.300 dólares, ainda fora do alcance da maioria.

  2. Japão e o prato giratório

    A Sharp lançou em 1961 o primeiro micro-ondas produzido em série no Japão e, em 1966, acrescentou o prato giratório, que compensa os pontos quentes e frios do campo de micro-ondas dentro da cavidade. Fabricantes japoneses, com magnetrons menores e mais baratos, foram decisivos para reduzir o custo do aparelho ao longo dos anos 1970 e tornaram-se seus maiores produtores.

  3. O modelo de bancada

    Em 1967, a Amana, comprada pela Raytheon, lançou o Radarange de bancada, ligado em tomada comum e vendido a 495 dólares. Foi o ponto de virada: nos Estados Unidos, as vendas anuais passaram de um milhão em 1975 e o aparelho estava em um quarto das casas em 1986 e em nove de cada dez no fim da década de 1990. Temores sobre radiação e normas de segurança, com vedação da porta e grade metálica no vidro, acompanharam essa fase.

  4. Eletrônica e combinação

    A partir dos anos 1980, controles eletrônicos, sensores de umidade e programas automáticos substituíram o timer mecânico. Fornos combinados, com grill e convecção, tentaram superar a limitação de não dourar alimentos. O magnetron, porém, segue praticamente o mesmo de 1940, operando em 2,45 gigahertz, frequência escolhida por ser de uso livre e por aquecer a água com eficiência adequada.

04Fatos curiosos

  • O doce que derreteu no bolso de Spencer era, segundo o relato mais aceito, uma barra de amendoim com chocolate; alguns textos trocam por outro doce, sinal de que a história cresceu ao ser repetida.
  • Spencer tinha pouca educação formal, começou como aprendiz em uma fábrica de papel e acumulou mais de 150 patentes na Raytheon.
  • As micro-ondas não aquecem 'de dentro para fora': penetram poucos centímetros e agitam moléculas de água, e o calor migra por condução para o centro, por isso o interior de alimentos grandes pode ficar frio.
  • Metal no micro-ondas causa faíscas por acumular carga em bordas e pontas; uma colher lisa pode não produzir arco, enquanto papel-alumínio amassado quase sempre produz.
  • A Sharp foi a primeira a adotar o prato giratório, em 1966, para compensar as ondas estacionárias que criam pontos de calor desigual dentro do forno.
  • A pipoca de micro-ondas, lançada comercialmente nos anos 1980, foi criada para o aparelho e se tornou seu produto mais associado.

05Contexto social

O micro-ondas mudou o que se entende por cozinhar. Ele favorece requentar e descongelar mais do que preparar, e por isso acompanhou a ascensão das refeições prontas, das sobras planejadas e do almoço na mesa de trabalho. Críticos o acusaram de empobrecer a culinária e de desfazer a refeição em família; defensores apontaram a autonomia que deu a idosos, estudantes e trabalhadores com jornadas longas.

Seu uso também é marcado por renda e região. Nos Estados Unidos e no Japão, é quase universal; em boa parte do mundo, inclusive no Brasil, continua ausente de muitos lares, seja por custo, pela instalação elétrica ou por hábitos alimentares que privilegiam o fogão. Nos escritórios, virou equipamento coletivo, com regras de convivência sobre cheiro e limpeza que dizem bastante sobre a vida de trabalho contemporânea.

06No Brasil

O forno de micro-ondas chegou ao Brasil nos anos 1980, em geral importado e caro, e a produção nacional, por marcas como Brastemp e Sharp, deu a ele os primeiros anos de visibilidade. A difusão real veio após o Plano Real, em 1994, quando o fim da inflação alta e o crédito ampliaram a compra de eletrodomésticos. Mesmo assim, as pesquisas domiciliares do IBGE mostram que o aparelho está em pouco mais da metade dos lares, muito abaixo da geladeira e do fogão, com desigualdade acentuada entre regiões e classes de renda.

Na cozinha brasileira, o micro-ondas tem função clara: requentar o arroz e o feijão da marmita, descongelar carne, fazer pipoca e pão de queijo, derreter chocolate. O hábito da comida feita em casa e levada ao trabalho ajudou a transformá-lo em equipamento de refeitório de empresa e de repartição, muitas vezes mais usado ali do que em casa.

07Linha do tempo

  1. 1940

    Randall e Boot constroem o magnetron de cavidades em Birmingham.

  2. 1945

    Percy Spencer deposita patente de aquecimento de alimentos por micro-ondas.

  3. 1947

    Raytheon lança o Radarange, primeiro forno comercial.

  4. 1955

    Tappan vende o primeiro modelo doméstico, embutido e caro.

  5. 1961

    Sharp inicia a produção em série no Japão.

  6. 1967

    Amana lança o Radarange de bancada, a 495 dólares.

  7. 1986

    Um em cada quatro lares americanos tem micro-ondas.

  8. década de 1990

    Com o Plano Real, o aparelho se populariza no Brasil.

08Comparativo

Forno de micro-ondas: 1947 e hoje
AspectoRadarange de 1947Forno atual
AlturaCerca de 1,8 metroCerca de 30 centímetros
PesoMais de 300 quilos10 a 15 quilos
Potência3 mil watts700 a 1.200 watts
Refrigeração do magnetronA águaA ar
PreçoCerca de 5 mil dólaresPreço de pequeno eletrodoméstico
PúblicoRestaurantes e naviosResidências e escritórios

09Perguntas frequentes

Quem inventou o forno de micro-ondas?

Percy Spencer, engenheiro da Raytheon, que em 1945 patenteou o aquecimento de alimentos com magnetron. O magnetron em si foi criado em 1940 por John Randall e Harry Boot para uso em radar.

O micro-ondas é perigoso para a saúde?

As micro-ondas não são radiação ionizante e não tornam os alimentos radioativos. Os riscos reais são queimaduras por aquecimento desigual e líquidos superaquecidos, além de recipientes inadequados que liberam substâncias.

Por que o micro-ondas não doura a comida?

Porque aquece pela agitação das moléculas de água e raramente ultrapassa 100 graus na superfície; a reação de Maillard, que dá cor e sabor, exige temperaturas mais altas e superfície seca. Fornos combinados com grill resolvem isso.

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11Fontes consultadas

  • Raytheon Company, arquivos históricos sobre Percy Spencer e o Radarange
  • United States Patent and Trademark Office, patente 2.495.429, Method of Treating Foodstuffs, 1950
  • Science Museum Group, história do magnetron de cavidades
  • IBGE, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, 2019
  • Bee Wilson, Consider the Fork: A History of How We Cook and Eat, 2012

Este verbete foi redigido e revisado pela equipe editorial do Daily's Treasures a partir das fontes acima. Encontrou um erro? Escreva para nós.