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Verbete nº 023 · Alimentação e utensílios

Canudo

Dos tubos de ouro da Suméria ao plástico banido: cinco mil anos de um gesto simples.

Antiguidade Alimentar Utensílio Mesopotâmia (Suméria) · c. 3000 a.C.
Canudo: Dos tubos de ouro da Suméria ao plástico banido: cinco mil anos de um gesto simples.
Imagem: WrS.tm.pl · Wikimedia Commons · domínio público

01Origem

Os registros mais antigos do canudo vêm da Mesopotâmia. Selos cilíndricos sumérios de cerca de 3000 a.C. mostram pessoas sentadas ao redor de um grande jarro, cada uma com um tubo longo levado à boca. Elas bebiam cerveja, que naquela época fermentava com cascas de cereais e sedimentos flutuando na superfície; o tubo, de junco ou cana, permitia sugar o líquido do fundo sem engolir a espuma e os resíduos. Na tumba da rainha Puabi, no Cemitério Real de Ur, escavada nos anos 1920, foi encontrado um canudo de ouro e lápis-lazúli de mais de um metro de comprimento.

O gesto se repetiu em outras culturas de forma independente. Na América do Sul, povos guaranis bebiam a erva-mate por um tubo com filtro na ponta, a bombilha, que os colonizadores espanhóis adotaram e que segue em uso no mate e no chimarrão. Em diversas regiões da África, tubos de cana eram usados em cervejas de sorgo bebidas em comum. O canudo, portanto, é menos uma invenção do que uma solução recorrente: um tubo entre a boca e um líquido que não convém levar aos lábios.

A forma moderna tem data e autor. Até o fim do século XIX, americanos bebiam limonadas e juleps com hastes de centeio, que amoleciam e deixavam gosto de capim. Marvin Stone, fabricante de piteiras em Washington, enrolou tiras de papel em um lápis, colou-as e revestiu-as com parafina para não desmanchar. Patenteou o canudo de papel em 3 de janeiro de 1888 e, em poucos anos, produzia-o em máquina, com comprimento calculado para não tocar o fundo do copo.

02Período histórico

A Suméria do terceiro milênio a.C. foi a primeira sociedade urbana: templos, escrita cuneiforme, comércio e cerveja como alimento diário e pagamento de trabalhadores. O canudo pertence a esse mundo de bebida comunitária, em que um jarro servia a vários, e a hierarquia se expressava no material do tubo, ouro para a realeza, junco para os demais.

O canudo industrial, por sua vez, é produto da América urbana do fim do século XIX, com suas fontes de soda, sorveterias e bebidas geladas vendidas em balcão. A preocupação com higiene, nascente com a teoria dos germes, favoreceu um objeto descartável que evitava o contato da boca com copos compartilhados.

03Evolução ao longo do tempo

  1. Junco, cana e metal

    Por milênios, o canudo foi cortado de plantas: junco, cana, talos de cereais. Culturas que o levaram a sério fizeram versões de metal, como o canudo de ouro de Ur e a bombilha de prata dos criollos rio-platenses, com filtro perfurado que retém as folhas da erva-mate. Em ambos os casos, o canudo era objeto de uso coletivo e, frequentemente, de prestígio.

  2. Papel parafinado

    O canudo de Marvin Stone era de papel manila enrolado em espiral e selado com parafina. Em 1906, a empresa dele introduziu uma máquina de enrolar automática, e o produto se espalhou pelas lanchonetes dos Estados Unidos. Era descartável, barato e higiênico, exatamente o que a moda das fontes de soda e a preocupação com germes pediam. Seu defeito, amolecer depois de meia hora, só se tornaria tema de debate um século depois.

  3. O canudo flexível

    Em 1937, Joseph Friedman, de San Francisco, patenteou o canudo articulado. Ele teve a ideia ao ver a filha pequena lutando para beber um milkshake com um canudo reto em um balcão alto: inseriu um parafuso no canudo, enrolou fio dental nas ranhuras e criou a sanfona que permite dobrá-lo. Hospitais foram os primeiros clientes, pois pacientes deitados podiam beber sem ajuda.

  4. Plástico e reação

    Nos anos 1960, o polipropileno substituiu o papel: mais barato, resistente e produzido aos bilhões. Por meio século, o canudo de plástico foi o padrão em todo o mundo. A partir de 2015, imagens de animais marinhos feridos por canudos e estimativas sobre lixo oceânico levaram a proibições em cidades e países, e a indústria voltou ao papel, ao bambu, ao aço inoxidável e a materiais como amido e fibras vegetais.

04Fatos curiosos

  • O canudo de ouro de Ur, datado entre 2600 e 2450 a.C., está entre os objetos do Cemitério Real escavados por Leonard Woolley e é citado como o canudo mais antigo preservado.
  • Marvin Stone fabricava piteiras de papel para cigarros, e foi a mesma técnica de enrolar tiras de papel que gerou o canudo.
  • O canudo flexível de Friedman foi vendido inicialmente a hospitais, não a lanchonetes; a empresa Flex-Straw só se voltou ao consumo geral após a Segunda Guerra.
  • A bombilha de mate, com filtro na ponta, é tecnicamente um canudo-coador e tem exemplares de prata do século XVIII em museus argentinos e uruguaios.
  • A estimativa de 500 milhões de canudos usados por dia nos Estados Unidos, repetida em campanhas ambientais, foi calculada por um estudante de nove anos em 2011 e nunca teve confirmação oficial.
  • Canudos de papel modernos usam camadas de papel e cola de grau alimentício, e sua resistência depende do tempo em contato com o líquido, não da espessura do papel.

05Contexto social

O canudo moderno é um filho da higiene e do consumo rápido. Nas lanchonetes e fontes de soda dos Estados Unidos, servir a bebida com canudo era prova de limpeza, e o objeto virou parte do ritual do refrigerante, do milkshake e, depois, das redes de fast food. Para pessoas com deficiência motora ou dificuldades de deglutição, o canudo flexível não é conveniência, e sim condição de autonomia, argumento central nos debates atuais sobre proibições.

Na virada do século XXI, o canudo se tornou símbolo da cultura do descartável. Pequeno, leve e difícil de reciclar, escapa das triagens e termina em praias e no mar. Campanhas ambientais o escolheram como alvo justamente por ser dispensável para a maioria. O resultado foi uma mudança de hábito rápida: em poucos anos, o canudo passou de item automático a objeto que se pede, e surgiu um mercado de canudos reutilizáveis que o reposicionou como acessório pessoal.

06No Brasil

No Brasil, o canudo tem presença dupla: nas bombas de chimarrão e tereré do Sul e do Centro-Oeste, um canudo de metal com filtro usado há séculos, e no canudo descartável do suco de laranja, da água de coco na praia, do caldo de cana e do refrigerante. O país foi um dos primeiros a legislar contra o plástico descartável nesse item: a cidade do Rio de Janeiro aprovou em julho de 2018 a Lei 6.384, que obriga bares, restaurantes e quiosques a oferecer apenas canudos de papel ou de outros materiais biodegradáveis, e São Paulo seguiu com a Lei 17.110, de 2019, proibindo a oferta de canudos plásticos em estabelecimentos comerciais. Dezenas de municípios e alguns estados aprovaram normas semelhantes desde então.

A troca gerou debates típicos: reclamações sobre canudos de papel que amolecem no caldo de cana, fiscalização irregular e a questão da acessibilidade para pessoas que dependem do canudo flexível. Surgiram também alternativas locais, como canudos de capim e de bambu produzidos por cooperativas e comunidades rurais, e o canudo de aço virou item de bolsa, muitas vezes ao lado da própria bomba de chimarrão.

07Linha do tempo

  1. c. 3000 a.C.

    Selos sumérios mostram pessoas bebendo cerveja com tubos longos.

  2. c. 2500 a.C.

    Canudo de ouro e lápis-lazúli é depositado na tumba de Puabi, em Ur.

  3. século XVI

    Espanhóis adotam a bombilha guarani para beber erva-mate.

  4. 1888

    Marvin Stone patenteia o canudo de papel parafinado em Washington.

  5. 1937

    Joseph Friedman patenteia o canudo flexível.

  6. década de 1960

    Canudos de polipropileno substituem os de papel.

  7. 2018

    Rio de Janeiro aprova lei contra canudos plásticos; Seattle faz o mesmo.

  8. 2019

    São Paulo proíbe canudos plásticos; União Europeia aprova diretiva sobre plásticos descartáveis.

  9. 2021

    Proibição europeia de canudos plásticos entra em vigor.

08Comparativo

Canudo: 1900 e hoje
AspectoCanudo de 1900Canudo atual
MaterialPapel parafinadoPapel, plástico, aço, bambu
UsoDescartável, em fontes de sodaDescartável ou reutilizável
FlexívelNãoSim, modelos articulados desde 1937
RegulaçãoNenhumaLeis municipais, estaduais e nacionais
Imagem públicaSímbolo de higieneSímbolo do descarte

09Perguntas frequentes

Quem inventou o canudo?

Ninguém sabe; sumérios já bebiam cerveja com tubos de junco há cinco mil anos. O canudo de papel moderno foi patenteado por Marvin Stone em 1888, e o flexível, por Joseph Friedman, em 1937.

Por que os canudos de plástico foram proibidos?

Por serem descartáveis, leves e raramente reciclados, acabam em praias e oceanos e ferem animais marinhos. Como são dispensáveis para a maioria das pessoas, viraram alvo prioritário das leis contra plásticos de uso único.

O canudo de papel é realmente melhor?

Ele se degrada em semanas, enquanto o plástico dura décadas, mas exige mais água e energia para ser produzido. Reutilizáveis, de aço ou bambu, têm impacto menor se usados muitas vezes.

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11Fontes consultadas

  • Penn Museum, Filadélfia, coleção do Cemitério Real de Ur
  • United States Patent and Trademark Office, patentes de Marvin Stone, 1888, e de Joseph Friedman, 1937
  • Smithsonian Institution, Lemelson Center, arquivo Joseph B. Friedman
  • Câmara Municipal do Rio de Janeiro, Lei 6.384 de 2018
  • Câmara Municipal de São Paulo, Lei 17.110 de 2019

Este verbete foi redigido e revisado pela equipe editorial do Daily's Treasures a partir das fontes acima. Encontrou um erro? Escreva para nós.