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Verbete nº 044 · Trabalho e escritório

Máquina de escrever

Teclas, alavancas e fita de tinta: a máquina que padronizou a escrita e abriu o escritório às mulheres.

Século XIX Trabalhar e estudar Aparelho ou máquina Milwaukee e Ilion, Estados Unidos · 1874
Máquina de escrever: Teclas, alavancas e fita de tinta: a máquina que padronizou a escrita e abriu o escritório às mulheres.
Imagem: Department of the Interior. U.S. Fish and Wildlife Service · Wikimedia Commons · domínio público

01Origem

A ideia de uma máquina que imprimisse letras uma a uma é registrada desde 1714, quando o engenheiro inglês Henry Mill obteve da rainha Ana uma patente para um 'método artificial de imprimir ou transcrever cartas'. Nenhum desenho sobreviveu. Em 1808, o italiano Pellegrino Turri construiu uma máquina para que a condessa Carolina Fantoni da Fivizzano, cega, pudesse escrever cartas; as cartas existem, a máquina não. Ao longo do século XIX, dezenas de inventores na Europa e nas Américas produziram engenhos com teclas de piano, discos giratórios e punções, quase todos lentos demais para competir com a pena.

O primeiro modelo vendido em série foi a 'bola de escrever' do dinamarquês Rasmus Malling-Hansen, patenteada em 1870: um hemisfério de latão cravejado de teclas, que o filósofo Friedrich Nietzsche usou em 1882, quando a vista começou a falhar. Mas foi em Milwaukee, nos Estados Unidos, que a máquina moderna tomou forma. Christopher Latham Sholes, impressor e funcionário público, com Carlos Glidden e Samuel Soulé, patenteou em 1868 um aparelho com teclas, tipos em alavancas e carro móvel. O investidor James Densmore financiou dezenas de protótipos e exigiu melhorias sucessivas.

Em 1873, Densmore vendeu os direitos à E. Remington and Sons, fabricante de armas e máquinas de costura de Ilion, Nova York, que buscava produtos de paz após a Guerra Civil. A Sholes and Glidden Type-Writer chegou ao mercado em 1874, decorada com flores como uma máquina de costura, escrevendo apenas em maiúsculas e sem que o datilógrafo visse o texto, impresso por baixo do rolo. Trazia o teclado QWERTY, arranjo que Sholes adotou para reduzir o travamento das alavancas em sequências comuns, e que sobreviveu a todas as tecnologias posteriores.

02Período histórico

A máquina de escrever surgiu na era da ferrovia, do telégrafo e da grande empresa. Nos Estados Unidos do pós-Guerra Civil, corporações com milhares de funcionários precisavam de correspondência legível, rápida e copiável. A escrita à mão, lenta e dependente da caligrafia de cada um, era um gargalo. Fabricantes de armas e máquinas de costura dominavam a produção de peças intercambiáveis e a aplicaram ao novo aparelho.

O mesmo período assistiu à profissionalização do trabalho de escritório e ao surgimento de escolas comerciais, que ensinavam estenografia, contabilidade e, a partir dos anos 1880, datilografia. A máquina demandava treinamento, e o treinamento virou credencial. Em poucas décadas, a escrita administrativa deixou de ser atividade de homens com boa letra e passou a ser tarefa de operadoras qualificadas, majoritariamente mulheres.

03Evolução ao longo do tempo

  1. Maiúsculas e escrita cega

    A Remington de 1874 imprimia só maiúsculas, e o texto ficava invisível até que o datilógrafo levantasse o carro. A Remington nº 2, de 1878, introduziu a tecla de maiúsculas, que deslocava o carro para imprimir dois caracteres por alavanca. As vendas foram lentas: a máquina custava o equivalente a meses de salário e parecia impessoal, quase grosseira, em uma cultura que valorizava a carta manuscrita. Mark Twain, um dos primeiros compradores, reclamou da curiosidade que ela despertava.

  2. Escrita visível e padrão de mercado

    A Underwood nº 1, lançada em 1896 com projeto de Franz Xaver Wagner, batia as alavancas pela frente do rolo, deixando o texto à vista. O modelo definiu a arquitetura da máquina mecânica pelos sessenta anos seguintes: teclado de quatro fileiras, fita bicolor, carro com retorno por alavanca, campainha de fim de linha. Remington, Royal, Olympia e Olivetti produziram variações dessa forma, incluindo portáteis a partir da década de 1920.

  3. Elétricas e a esfera da IBM

    Máquinas elétricas, com motor para acionar as alavancas, existiam desde o início do século XX, mas só se impuseram com a IBM Electromatic, de 1935. Em 1961, a IBM Selectric substituiu as alavancas por uma esfera com todos os caracteres, que girava e inclinava a cada toque; o carro ficou parado e a esfera passou a se mover. Era mais rápida, silenciosa e permitia trocar de fonte trocando a esfera. A Selectric dominou os escritórios por duas décadas.

  4. Do processador de texto ao museu

    Nos anos 1970 e 1980, máquinas eletrônicas com memória e visor de uma linha tentaram competir com os computadores pessoais, sem sucesso. A última grande fábrica, da Godrej and Boyce, na Índia, encerrou a produção em 2011. O objeto sobrevive em cartórios, entre colecionadores e escritores, e deixou herdeiros: o teclado QWERTY, a tecla de maiúsculas e o retorno de carro que virou a tecla Enter.

04Fatos curiosos

  • A palavra inglesa 'typewriter' designava, no século XIX, tanto a máquina quanto a pessoa que a operava.
  • Mark Twain afirmou ter sido o primeiro autor a entregar um manuscrito datilografado a um editor; historiadores apontam Vida no Mississippi (1883), datilografado por um assistente.
  • A teoria de que o QWERTY foi feito para atrasar os datilógrafos é duvidosa: a disposição buscava evitar que alavancas vizinhas, acionadas em sequência, se chocassem, o que na prática tornava a escrita mais rápida, não mais lenta.
  • Nietzsche escreveu cerca de sessenta documentos em sua bola de escrever e anotou que 'nossos instrumentos de escrita participam do nosso pensamento'.
  • Na Romênia de Ceausescu, a partir de 1983, toda máquina de escrever precisava ser registrada na polícia, com amostra de impressão arquivada, já que cada máquina deixa marcas únicas.

05Contexto social

Nenhum objeto de escritório teve efeito tão direto sobre o trabalho feminino. Em 1870, o escritório norte-americano era quase inteiramente masculino; por volta de 1900, a maioria dos estenógrafos e datilógrafos do país era de mulheres. A máquina, nova e sem tradição de gênero, foi apresentada como adequada a 'dedos ágeis' e associada às escolas comerciais que recebiam moças. O salário era menor que o dos escriturários homens, e a função raramente levava a promoção, mas abriu uma via de trabalho urbano remunerado fora da fábrica e do serviço doméstico.

A máquina também padronizou a aparência da escrita. Uma carta datilografada parecia oficial e anônima; a letra deixou de revelar a mão de quem escreveu. Isso facilitou formulários, contratos e cópias em papel carbono, e impôs regras de formatação que persistem. Na literatura, a máquina mudou o ritmo de composição de autores como Hemingway e Kerouac, que datilografou Na Estrada em um rolo contínuo de papel para não interromper o fluxo.

06No Brasil

O Brasil tem um capítulo próprio nessa história. Em 1861, o padre Francisco João de Azevedo, professor de desenho na Paraíba, apresentou na Exposição Nacional do Rio de Janeiro uma máquina de escrever de madeira, com teclas acionadas por pedais, e recebeu medalha de ouro. A tradição popular diz que um visitante norte-americano teria levado o invento para os Estados Unidos, mas não há documento que ligue a máquina de Azevedo à de Sholes. O padre é lembrado como um dos muitos precursores independentes do aparelho.

As Remington importadas chegaram ao país no fim do século XIX e deram nome ao objeto em muitas repartições. A partir dos anos 1950, a produção local se consolidou: a Olivetti instalou fábrica em Guarulhos, e a Remington também passou a montar máquinas no país. Cursos de datilografia, com certificados exigidos em concursos, foram rito de passagem para gerações de jovens até os anos 1990. Hoje o aparelho sobrevive em alguns cartórios e no preenchimento de formulários de várias vias.

07Linha do tempo

  1. 1714

    Henry Mill obtém na Inglaterra uma patente para uma máquina de transcrever cartas.

  2. 1808

    Pellegrino Turri constrói uma máquina para a condessa cega Carolina Fantoni.

  3. 1861

    O padre Francisco João de Azevedo expõe sua máquina no Rio de Janeiro e recebe medalha de ouro.

  4. 1868

    Sholes, Glidden e Soulé patenteiam a máquina em Milwaukee.

  5. 1874

    A Remington lança a Sholes and Glidden Type-Writer, com teclado QWERTY.

  6. 1878

    A Remington nº 2 introduz a tecla de maiúsculas.

  7. 1896

    A Underwood nº 1 populariza a escrita visível.

  8. 1961

    A IBM lança a Selectric, com esfera de caracteres.

  9. 2011

    A Godrej and Boyce, na Índia, encerra a última grande linha de produção.

08Comparativo

Sholes and Glidden (1874) e IBM Selectric (1961)
AspectoSholes and Glidden (1874)IBM Selectric (1961)
CaracteresSó maiúsculasMaiúsculas e minúsculas, fontes intercambiáveis
MecanismoAlavancas de tipoEsfera giratória
AcionamentoManualElétrico
Visibilidade do textoInvisível até levantar o carroVisível
CarroMove-se com o papelFixo; a esfera se desloca

09Perguntas frequentes

Quem inventou a máquina de escrever?

Houve dezenas de precursores. A primeira máquina comercial de sucesso foi a de Christopher Latham Sholes, Carlos Glidden e Samuel Soulé, patenteada em 1868 e produzida pela Remington a partir de 1874.

Por que o teclado é QWERTY?

Sholes dispôs as letras para que pares frequentes ficassem com alavancas afastadas, reduzindo travamentos. O arranjo passou das máquinas para os computadores por hábito e compatibilidade.

Ainda se fabricam máquinas de escrever?

Em pequena escala, sim, sobretudo modelos simples para mercados específicos e colecionadores. A última grande fábrica, na Índia, fechou em 2011.

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11Fontes consultadas

  • Richard N. Current, The Typewriter and the Men Who Made It, 1954
  • Bruce Bliven Jr., The Wonderful Writing Machine, 1954
  • Friedrich Kittler, Gramofone, Filme, Typewriter, 1986
  • Smithsonian National Museum of American History, acervo de máquinas de escrever
  • Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, registros sobre o padre Francisco João de Azevedo

Este verbete foi redigido e revisado pela equipe editorial do Daily's Treasures a partir das fontes acima. Encontrou um erro? Escreva para nós.