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Verbete nº 038 · Comunicação

Telégrafo

Pela primeira vez uma mensagem viajou mais rápido do que um cavalo: o fio elétrico encolheu o mundo no século XIX.

Século XIX Comunicar Sistema ou técnica Inglaterra e Estados Unidos · 1837
Telégrafo: Pela primeira vez uma mensagem viajou mais rápido do que um cavalo: o fio elétrico encolheu o mundo no século XIX.
Imagem: Лапоть · Wikimedia Commons · CC0 (domínio público)

01Origem

A palavra telégrafo, 'escrever de longe', foi cunhada na França revolucionária para o sistema de Claude Chappe: torres com braços articulados que repetiam sinais de colina em colina. A linha Paris-Lille, inaugurada em 1794, levava uma mensagem em minutos por 230 quilômetros, desde que fizesse dia claro. Foi o primeiro sistema de comunicação mais veloz que o mensageiro a cavalo, e Napoleão o estendeu por boa parte da Europa. Mas dependia do tempo, exigia centenas de operadores e era caro demais para uso civil.

A eletricidade prometia resolver tudo isso. Houve precursores: o alemão Samuel von Sömmerring, em 1809, usou bolhas em água para sinalizar letras; o barão russo Pavel Schilling, em 1832, agulhas magnéticas; Gauss e Weber ligaram em 1833 o observatório e o laboratório de Göttingen. O passo decisivo veio em 1837, dos dois lados do Atlântico. Na Inglaterra, William Cooke e Charles Wheatstone patentearam um telégrafo de cinco agulhas e o instalaram ao lado de ferrovias; nos Estados Unidos, o pintor Samuel Morse, com o mecânico Alfred Vail e o físico Joseph Henry como conselheiro, demonstrou um aparelho que registrava pontos e traços numa fita de papel.

Morse obteve do Congresso, em 1843, verba para uma linha entre Washington e Baltimore, e em 24 de maio de 1844 transmitiu a mensagem bíblica 'What hath God wrought'. Seu sistema, mais simples e barato que o inglês, e seu código, que atribuía sinais curtos às letras mais comuns, venceram a concorrência. Em uma década, fios acompanhavam as ferrovias dos Estados Unidos e da Europa; em 1851, um cabo ligou a Inglaterra à França; em 1866, após tentativas fracassadas desde 1858, o navio Great Eastern lançou o cabo transatlântico definitivo.

02Período histórico

O telégrafo é filho da mesma onda de inovação que produziu a ferrovia, a pilha e o eletroímã. Entre 1800, quando Volta apresentou sua pilha, e 1831, quando Faraday descreveu a indução, a eletricidade passou de curiosidade de salão a força controlável, e os primeiros fios acompanharam os trilhos, que precisavam de sinalização para evitar colisões.

Era também a época da expansão dos impérios e dos mercados. Cotações de algodão em Liverpool, ordens militares para a Índia, notícias de guerra: a informação valia dinheiro, e os governos britânico e americano viram no telégrafo um instrumento de poder e de unificação territorial.

03Evolução ao longo do tempo

  1. O cabo submarino

    Levar o fio pelo mar exigia isolamento, e a guta-percha, látex de uma árvore malaia, resolveu o problema a partir de 1848. O primeiro cabo transatlântico, de 1858, funcionou por três semanas e queimou por excesso de voltagem; o de 1866, lançado pelo Great Eastern, durou décadas. Até 1900, cabos britânicos cercavam o planeta, da Índia à Austrália e à América do Sul, e o Reino Unido controlava o grosso da rede, o que lhe deu vantagem estratégica nas duas guerras mundiais.

  2. Operadores, código e velocidade

    O operador de telégrafo foi uma das primeiras profissões técnicas modernas, aberta a jovens, inclusive mulheres, que aprendiam a 'ler' o código de ouvido. Em 1874, Émile Baudot criou um sistema de cinco unidades com teclado, antecessor dos códigos digitais; impressoras automáticas e o telex, dos anos 1930, dispensaram o ouvido treinado. Empresas como a Western Union, nos Estados Unidos, e agências como a Reuters, fundada em 1851, construíram impérios sobre a venda de mensagens e de notícias.

  3. Declínio e herança

    O telefone tirou do telégrafo a conversa; o rádio, os navios; o fax e o e-mail, o documento. A Western Union enviou seu último telegrama em 2006, e a maioria dos correios do mundo encerrou o serviço nas décadas seguintes, embora o Brasil o mantenha. Sobrevivem o código Morse, ainda ensinado a radioamadores e aviadores, a noção de fuso horário, criada para sincronizar trens e telégrafos, e a ideia, hoje banal, de que a mensagem viaja separada do mensageiro.

04Fatos curiosos

  • A primeira mensagem de Morse, 'What hath God wrought' ('O que Deus fez'), foi escolhida por Annie Ellsworth, filha do comissário de patentes, a partir do Livro dos Números.
  • O pedido de socorro SOS foi adotado por convenção internacional em 1906 e entrou em vigor em 1908, por ser fácil de reconhecer em Morse: três pontos, três traços, três pontos; não significa 'save our souls'.
  • O cabo de 1858 foi celebrado com fogos em Nova York; quando parou de funcionar semanas depois, houve quem o declarasse uma fraude.
  • A Guerra Civil americana foi a primeira em que generais comandaram por telégrafo; Lincoln passava horas na sala de telégrafo do Departamento de Guerra.
  • Historiadores chamam o telégrafo de 'internet vitoriana': ele gerou casamentos a distância, golpes, criptografia comercial e a primeira sensação de sobrecarga de informação.

05Contexto social

O telégrafo mudou a relação entre tempo e espaço. Jornais passaram a publicar notícias do dia anterior vindas de outros continentes, bolsas de valores se sincronizaram, e o preço de uma mercadoria passou a ser o mesmo em cidades distantes. Também centralizou o poder: governos coloniais despachavam ordens para a Índia ou a África em horas, e o Estado nacional pôde administrar o território a partir da capital.

A mensagem cobrava por palavra, o que gerou um estilo telegráfico, seco e abreviado, e códigos comerciais em que uma palavra inventada substituía uma frase inteira. Nas cidades, a sala de telégrafo era espaço de moças operadoras, dos 'meninos do telegrama' de bicicleta e de um público que recebia ali notícias de nascimento, casamento e morte. O telegrama urgente virou símbolo de boa ou má notícia iminente.

06No Brasil

A primeira linha telegráfica elétrica do Brasil foi inaugurada em 11 de maio de 1852, no Rio de Janeiro, construída por Guilherme Schüch de Capanema, futuro Barão de Capanema, ligando o Quartel-General do Campo de Santana ao Palácio Imperial da Quinta da Boa Vista, com Dom Pedro II acompanhando o projeto de perto. A rede cresceu pelo litoral, e em 1874 um cabo submarino ligou o Brasil a Portugal, encurtando para horas a comunicação com a Europa.

No interior, o telégrafo foi instrumento de integração nacional. Entre 1900 e 1915, o oficial do Exército Cândido Mariano da Silva Rondon chefiou comissões que estenderam linhas por Mato Grosso e pelo atual estado de Rondônia, em meio à floresta e em contato com povos indígenas, trabalho que lhe deu notoriedade e o levou a chefiar o Serviço de Proteção aos Índios. A Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, criada em 1969, mantém até hoje o envio de telegramas, inclusive pela internet, um dos últimos serviços do gênero no mundo.

07Linha do tempo

  1. 1794

    A linha óptica de Chappe entre Paris e Lille entra em operação.

  2. 1833

    Gauss e Weber ligam dois prédios de Göttingen por um telégrafo elétrico.

  3. 1837

    Cooke e Wheatstone patenteiam o telégrafo de agulhas; Morse demonstra seu aparelho.

  4. 1844

    Morse transmite 'What hath God wrought' entre Washington e Baltimore.

  5. 1852

    O Barão de Capanema inaugura a primeira linha elétrica do Brasil, no Rio de Janeiro.

  6. 1866

    O Great Eastern conclui o cabo transatlântico duradouro.

  7. 1874

    Um cabo submarino liga o Brasil à Europa; Baudot cria seu código de cinco unidades.

  8. 1915

    A Comissão Rondon conclui a linha telegráfica até o rio Madeira.

  9. 2006

    A Western Union envia seu último telegrama.

08Comparativo

Telégrafo óptico e elétrico
AspectoTelégrafo de Chappe (1794)Telégrafo Morse (1844)
MeioBraços articulados vistos por lunetaCorrente elétrica em fio
FuncionamentoSó de dia e com tempo claroA qualquer hora
OperadoresUm por torre, a cada 10 a 15 kmUm por estação, a dezenas de km
VelocidadeMinutos por sinal em linhas longasQuase instantâneo; limitado pela digitação
UsuáriosApenas o EstadoGovernos, empresas e público pagante

09Perguntas frequentes

Quem inventou o telégrafo?

O elétrico foi desenvolvido de forma independente por Cooke e Wheatstone, na Inglaterra, e por Morse e Vail, nos Estados Unidos, em 1837, com base em experimentos anteriores de Schilling, Gauss e Weber. O óptico é de Claude Chappe, na década de 1790.

O telégrafo ainda existe?

Como rede própria, não. Mas o telegrama sobrevive em alguns países, entre eles o Brasil, onde os Correios o recebem por meios digitais e entregam em papel.

O que é o código Morse?

Um alfabeto de pontos e traços criado por Morse e Vail, em que as letras mais frequentes, como o E, recebem sinais curtos. Ainda é usado por radioamadores e em sinalização luminosa.

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11Fontes consultadas

  • Tom Standage, The Victorian Internet, 1998
  • Kenneth Silverman, Lightning Man: The Accursed Life of Samuel F. B. Morse, 2003
  • Todd A. Diacon, Stringing Together a Nation: Cândido Mariano da Silva Rondon and the Construction of a Modern Brazil, 2004
  • Museu Nacional dos Correios, Brasília
  • Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, acervo sobre o Barão de Capanema

Este verbete foi redigido e revisado pela equipe editorial do Daily's Treasures a partir das fontes acima. Encontrou um erro? Escreva para nós.