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Verbete nº 043 · Trabalho e escritório

Grampeador

Uma mola, um canal e um arame dobrado: a máquina de mesa que une folhas em um só golpe desde o século XIX.

Século XIX Medir e organizar Ferramenta Nova York, Estados Unidos · 1879
Grampeador: Uma mola, um canal e um arame dobrado: a máquina de mesa que une folhas em um só golpe desde o século XIX.
Imagem: Jiafei Slay Queen · Wikimedia Commons · CC0 (domínio público)

01Origem

A história do grampeador costuma começar com uma lenda: um aparelho feito à mão para o rei Luís XV da França, no século XVIII, cujos grampos traziam o brasão real. Não há documento que confirme a história, repetida por catálogos de fabricantes sem indicação de fonte, e os historiadores a tratam como invenção publicitária. O que se sabe com segurança é que, até meados do século XIX, unir folhas de forma permanente exigia costura, cola ou os prendedores de latão de duas abas, que atravessavam um furo e se abriam no verso.

O protagonista documentado é George W. McGill, de Nova York. Em 1866 ele patenteou um prendedor de latão dobrável e, no ano seguinte, uma prensa para inseri-lo no papel. Em 1879, registrou a 'McGill Single-Stroke Staple Press', uma máquina de ferro fundido de mais de um quilo que cravava e dobrava um grampo de arame por vez, carregado manualmente. É considerada o primeiro grampeador de escritório com sucesso comercial. Pouco antes, em 1877, Henry R. Heyl, da Filadélfia, havia patenteado um dispositivo que inseria e dobrava o grampo em um único movimento, razão pela qual alguns o apontam como inventor do princípio.

O passo decisivo foi o abastecimento. Os primeiros aparelhos recebiam um grampo de cada vez; depois vieram tiras de arame que a máquina cortava e, na década de 1920, os pentes de grampos colados uns aos outros, que o usuário encaixava no canal. A E. H. Hotchkiss Company, de Norwalk, Connecticut, vendeu modelos tão difundidos a partir de 1895 que, no Japão, 'hotchkiss' virou o nome comum do grampeador. A forma que conhecemos, com carregamento pela parte superior e base articulada, foi consolidada nos anos 1930 por fabricantes como a Swingline.

02Período histórico

O grampeador é filho do mesmo escritório que gerou o clipe e a máquina de escrever. Nas últimas décadas do século XIX, o volume de contratos, apólices, faturas e correspondência em empresas norte-americanas cresceu em ritmo inédito, e a gestão de papéis se tornou profissão. A diferença entre prender temporariamente e unir em definitivo passou a ter importância jurídica e contábil: as páginas de um contrato ou de um relatório precisavam permanecer juntas.

A indústria metalúrgica dos Estados Unidos, com fundição de ferro barata e produção de arame de aço em larga escala, forneceu a base material. O mesmo período viu a profusão de pequenas máquinas de mesa movidas a alavanca: furadores, numeradores, carimbos datadores, perfuradores de cheques. O grampeador integrou esse arsenal mecânico que transformou a escrivaninha em um posto de trabalho semi-industrial.

03Evolução ao longo do tempo

  1. Prensas de um grampo

    As primeiras máquinas, como a de McGill, eram pesadas, lentas e exigiam colocar cada grampo com a mão. Serviam a escritórios grandes e encadernadores, não ao uso cotidiano. O grampo de arame, por sua vez, competia com o prendedor de latão de abas, mais barato e sem necessidade de máquina, que permaneceu comum até o século XX. O grampeador só se tornou prático quando o abastecimento deixou de ser manual.

  2. Tiras, pentes e carregamento superior

    Nas primeiras décadas do século XX, os fabricantes passaram a vender grampos em tiras de arame contínuo e, em seguida, em pentes colados, que não precisavam ser cortados. A partir dos anos 1930, modelos de carregamento por cima, com tampa articulada e mola de empurrar, tornaram a recarga questão de segundos. Essa configuração, popularizada pela Swingline, cujo nome alude à tampa que gira para abrir, é a que ainda domina as mesas.

  3. Diversificação

    Grampeadores de alavanca longa para centenas de folhas, modelos elétricos e pneumáticos para linhas de produção, grampeadores de tapeceiro e os aparelhos cirúrgicos, derivados do instrumento criado pelo húngaro Hümér Hültl em 1908 para suturar tecidos, mostram a amplitude do princípio. O grampo de escritório padrão, com pernas de 6 milímetros e arame de bitola 26, foi normalizado e é compatível entre marcas, o que consolidou o objeto como commodity.

  4. Plástico, miniatura e sem grampo

    Desde a década de 1980, o ferro fundido cedeu lugar ao plástico com interior metálico, mais leve e barato. Surgiram minigrampeadores de estojo, modelos ergonômicos para uso com uma mão e grampeadores sem grampos, que dobram uma aba cortada no próprio papel. Nenhum deslocou o modelo clássico; a maioria dos grampeadores vendidos hoje seria reconhecível por um escriturário dos anos 1940.

04Fatos curiosos

  • No Japão, grampeador se diz 'hotchkiss', por causa da marca E. H. Hotchkiss, importada no início do século XX. Em Portugal, o aparelho se chama agrafador, e o grampo, agrafo.
  • O grampeador vermelho Swingline do filme Como Enlouquecer seu Chefe (Office Space, 1999) não existia naquela cor: a empresa só passou a fabricá-lo em 2002, por causa da demanda criada pelo filme.
  • A posição do grampo depende da bigorna: com a placa virada, as pernas se abrem para fora em vez de se dobrarem para dentro, criando um grampo provisório fácil de remover.
  • O grampo 26/6, o mais comum, tem esse nome porque usa arame de bitola 26 e pernas de 6 milímetros.
  • A primeira patente conhecida de grampeador cirúrgico é de 1908; hoje grampos de titânio substituem a sutura manual em muitas cirurgias.

05Contexto social

O grampeador marcou a passagem do documento artesanal ao documento de série. Costurar folhas ou lacrá-las com cera eram práticas de tabeliães e copistas; grampear é gesto de funcionário apressado. A máquina acelerou o trabalho em escritórios onde a quantidade de cópias, impulsionada pelo papel carbono e depois pela fotocopiadora, tornou a união de folhas uma tarefa repetida centenas de vezes por dia, muitas vezes por secretárias e auxiliares, cargos majoritariamente femininos ao longo do século XX.

Ao mesmo tempo, o grampeador adquiriu valor simbólico. Ter o próprio aparelho sobre a mesa, e não precisar pedir emprestado, virou marca de posição no escritório; o grampeador pessoal aparece como objeto de disputa em comédias de trabalho. Na escola, o grampo une o trabalho entregue; na repartição, define o que é anexo e o que é documento principal. É uma tecnologia de hierarquia de papéis, quase invisível de tão rotineira.

06No Brasil

No Brasil, o grampeador se difundiu nas repartições e escritórios ao longo do século XX, importado de fabricantes norte-americanos e europeus, e passou a ser produzido localmente pela indústria de artigos de papelaria. O nome 'grampeador' se fixou no português brasileiro, diferente do 'agrafador' de Portugal. O grampo padrão 26/6 é o mais vendido, e 'grampear' se tornou verbo corrente para unir papéis.

Nos cartórios e no Judiciário, os autos em papel exigiam formas de união mais robustas: o colchete de latão, chamado popularmente de 'bailarina', e a costura das folhas, que impedem a troca de páginas. O grampeador ficava com os ofícios, as guias e os trabalhos escolares. Com o processo eletrônico, difundido a partir de 2010, parte desse universo migrou para a tela, mas o grampeador segue em quase todas as listas de material.

07Linha do tempo

  1. 1866

    George W. McGill patenteia um prendedor de latão dobrável para papéis.

  2. 1877

    Henry R. Heyl patenteia um dispositivo que insere e dobra o grampo em um só movimento.

  3. 1879

    McGill lança a Single-Stroke Staple Press, primeiro grampeador de sucesso comercial.

  4. 1895

    A E. H. Hotchkiss Company começa a vender grampeadores em Norwalk, Connecticut.

  5. 1908

    Hümér Hültl apresenta em Budapeste o primeiro grampeador cirúrgico.

  6. década de 1920

    Pentes de grampos colados substituem as tiras de arame cortadas na máquina.

  7. década de 1930

    Modelos de carregamento superior, como os da Swingline, definem a forma atual.

  8. 2002

    A Swingline lança o grampeador vermelho popularizado pelo cinema.

08Comparativo

Grampeador: 1879 e hoje
AspectoPrensa McGill (1879)Grampeador de mesa (hoje)
MaterialFerro fundidoPlástico e aço
PesoMais de 1 quilo100 a 300 gramas
CarregamentoUm grampo por vezPente de 100 grampos ou mais
CapacidadePoucas folhas15 a 25 folhas nos modelos comuns
ClassificaçãoEquipamento de escritórioItem de papelaria

09Perguntas frequentes

Quem inventou o grampeador?

Não há consenso. George McGill patenteou a prensa de grampo único de 1879, a primeira com sucesso comercial; Henry Heyl registrou em 1877 um dispositivo que inseria e dobrava o grampo em um só movimento. A história do grampeador de Luís XV não tem comprovação.

Qual é o grampo mais comum?

O 26/6, com arame de bitola 26 e pernas de 6 milímetros, usado na maioria dos grampeadores de mesa. O 24/6 é equivalente, com arame um pouco mais grosso.

Por que o grampo às vezes não dobra?

Em geral por excesso de folhas ou por desgaste da bigorna, a placa com sulcos que guia as pernas do grampo. Pentes de má qualidade também entortam dentro do canal.

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11Fontes consultadas

  • Henry Petroski, The Evolution of Useful Things, 1992
  • Early Office Museum, seção sobre grampeadores e prendedores de papel
  • United States Patent and Trademark Office, patentes de George W. McGill (1866, 1867, 1879) e Henry R. Heyl (1877)
  • Encyclopaedia Britannica, verbete 'stapler'

Este verbete foi redigido e revisado pela equipe editorial do Daily's Treasures a partir das fontes acima. Encontrou um erro? Escreva para nós.