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Verbete nº 059 · Curiosidades de objetos antigos

Lamparina a óleo

Da pedra escavada com gordura animal ao lampião de querosene: a luz artificial que a lâmpada elétrica apagou.

Pré-história Iluminar e aquecer Utensílio Europa e Oriente Próximo · c. 15.000 a.C.
Lamparina a óleo: Da pedra escavada com gordura animal ao lampião de querosene: a luz artificial que a lâmpada elétrica apagou.
Imagem: Rama · Wikimedia Commons · CC BY-SA 2.0 fr

01Origem

A lamparina é um dos objetos mais antigos ainda reconhecíveis. Nas cavernas de Lascaux, na França, arqueólogos encontraram placas de arenito escavadas com resíduos de gordura animal e de pavio vegetal, com cerca de 17 mil anos, usadas para iluminar a pintura das paredes. O princípio nunca mudou: um recipiente com combustível líquido e um pavio que o conduz por capilaridade até uma chama pequena e controlada. O que mudou ao longo dos milênios foi o recipiente, o combustível e a regulagem do ar.

Na Mesopotâmia e no Egito, a partir do quarto milênio antes de Cristo, a lamparina ganhou forma de tigela de cerâmica ou de concha, cheia de óleo vegetal ou gordura. Os gregos, por volta do século VII a.C., fecharam a tigela e abriram um bico para o pavio, reduzindo a fumaça e o risco de derramar. Os romanos fizeram da lamparina um produto industrial: moldadas em terracota aos milhares, com marca de fabricante no fundo e cenas em relevo na tampa, elas eram exportadas para todo o império e são, hoje, um dos achados mais comuns em escavações.

O combustível seguia a economia local. No Mediterrâneo, azeite de oliva; no norte da Europa, gordura de boi, de peixe ou de foca; em regiões asiáticas, óleo de gergelim, de rícino ou de nozes. Essa dependência de combustível caro explica por que, durante a maior parte da história, a luz artificial foi escassa. Uma família camponesa europeia do século XVII dormia ao escurecer não por costume, mas porque o óleo tinha preço.

02Período histórico

A lamparina moderna, com chama forte e fumaça reduzida, é produto do século XVIII. Até então, o desenho de uma lamparina romana e o de uma lamparina medieval eram quase iguais: a chama fraca, amarelada e fumarenta de um pavio aberto. Em 1780, o físico suíço Aimé Argand inventou o pavio tubular, que deixa o ar passar por dentro e por fora da chama, e a chaminé de vidro, que organiza a corrente ascendente. O resultado era uma luz várias vezes mais forte e muito mais limpa.

A lamparina de Argand chegou junto com a Revolução Industrial, que exigia iluminação prolongada em fábricas, escritórios e ruas. Seu combustível predileto, o óleo de baleia, alimentou uma indústria mundial de caça e tornou portos como Nantucket e New Bedford centros de riqueza. O esgotamento das baleias e o preço crescente do óleo prepararam o terreno para o combustível seguinte.

03Evolução ao longo do tempo

  1. Do azeite ao querosene

    Na década de 1850, dois avanços quase simultâneos mudaram o combustível. O farmacêutico polonês Ignacy Łukasiewicz destilou querosene a partir do petróleo bruto e construiu uma lamparina adequada a ele em Lviv, em 1853; o canadense Abraham Gesner patenteou um processo semelhante a partir de carvão e nomeou o produto. Com a exploração de petróleo na Pensilvânia, a partir de 1859, o querosene ficou barato. O lampião de querosene, com reservatório de latão, pavio plano regulável e chaminé de vidro, tornou-se a forma final da lamparina a óleo e espalhou-se por todos os continentes.

  2. O gás e a eletricidade

    Nas cidades, a lamparina enfrentou dois concorrentes. O gás de iluminação, canalizado em Londres a partir de 1807 e em outras capitais nas décadas seguintes, tirou dela as ruas, os teatros e as casas ricas. Depois, a lâmpada incandescente de Joseph Swan e Thomas Edison, em 1879, ofereceu uma luz sem chama, sem fumaça e sem reabastecimento. A substituição, porém, foi lenta e desigual: onde não havia rede elétrica, o lampião de querosene seguiu sendo a única luz noturna até bem avançado o século XX.

  3. Sobrevivência nos rituais e na decoração

    A lamparina resistiu onde a chama tem significado. A lâmpada do sacrário nas igrejas católicas, as lamparinas de azeite acesas em mosteiros ortodoxos, a menorá de óleo do Hanukkah e as 'diyas' de barro do Diwali indiano mantêm o objeto vivo em sua forma antiga. Fora da religião, ela virou peça de decoração, item de acampamento e reserva para apagões. A palavra também sobreviveu: 'lamparina' nomeia luzes fracas de vigília e, por extensão, qualquer luz de pouca intensidade.

04Fatos curiosos

  • Oficinas romanas marcavam o fundo das lamparinas com o nome do fabricante; a marca FORTIS, do norte da Itália, foi tão copiada que é considerada um dos primeiros casos de falsificação de marca.
  • A chaminé de vidro de Argand foi uma descoberta acidental: um frasco sem fundo colocado sobre a chama fez a luz subir e clarear.
  • Antes do querosene, o óleo de baleia iluminava faróis e ruas; uma única baleia-franca podia render dezenas de barris.
  • O cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva recebeu o apelido de Lampião, segundo a versão mais repetida, porque o clarão dos tiros de seu rifle à noite lembrava a luz do objeto.

05Contexto social

A luz artificial foi, durante milênios, uma medida de riqueza. Nas casas romanas, o número de lamparinas acesas num jantar indicava o status do anfitrião, e os pobres iluminavam-se com uma só chama ou com nenhuma. Na Europa pré-industrial, trabalhar à noite com luz de óleo era privilégio de monges, estudiosos e oficinas que podiam pagar o combustível.

O querosene barato do fim do século XIX foi uma das primeiras conquistas igualitárias da iluminação: pela primeira vez, uma família camponesa podia ler, costurar e conversar depois do escurecer a custo baixo. A lamparina doméstica também era um objeto feminino, acesa, limpa e regulada por mulheres, e os acidentes com querosene, incêndios e queimaduras, eram uma causa frequente de morte em casas do campo.

A eletrificação, por fim, redistribuiu essa desigualdade no espaço: cidades iluminadas e campo à luz de lampião conviveram por décadas, e em muitos países ainda convivem. A lamparina deixou de ser um objeto do passado para se tornar um marcador de quem ficou fora da rede.

06No Brasil

A iluminação pública do Rio de Janeiro começou em 1794, no governo do vice-rei conde de Resende, com lampiões de óleo de baleia pendurados nas esquinas; a caça à baleia na costa da Bahia e de Santa Catarina abastecia as cidades coloniais. Em 1854, o Barão de Mauá inaugurou o gás canalizado na mesma cidade, e, em 1883, Campos dos Goytacazes, no norte fluminense, tornou-se a primeira cidade da América do Sul com iluminação pública elétrica. Nas casas, porém, o candeeiro de azeite e, depois, o lampião e a lamparina de querosene seguiram sendo a luz de todos os dias.

No sertão e nas zonas rurais, a lamparina de querosene, um frasco de lata ou vidro com pavio de pano e sem chaminé, também chamada de fifó ou candeeiro conforme a região, atravessou o século XX como a única luz noturna de milhões de famílias. O programa federal Luz para Todos, lançado em 2003, levou rede elétrica a comunidades que até então dependiam dela. Hoje a lamparina persiste em capelas, em festas juninas e na memória da literatura regionalista.

07Linha do tempo

  1. c. 15.000 a.C.

    Lamparinas de pedra com gordura animal iluminam as cavernas pintadas do sudoeste da Europa.

  2. c. 3000 a.C.

    Tigelas de cerâmica e conchas servem de lamparina na Mesopotâmia e no Egito.

  3. séc. VII a.C.

    Lamparinas gregas ganham corpo fechado e bico para o pavio.

  4. séc. I

    Oficinas romanas moldam lamparinas de terracota em série, com marca de fabricante.

  5. 1780

    Aimé Argand cria o pavio tubular e a chaminé de vidro, multiplicando a luz.

  6. 1794

    O Rio de Janeiro ganha iluminação pública com lampiões de óleo de baleia.

  7. 1853

    Ignacy Łukasiewicz acende a primeira lamparina de querosene em Lviv.

  8. 1879

    A lâmpada incandescente de Swan e Edison inicia a substituição da chama pela eletricidade.

  9. 2003

    O programa Luz para Todos começa a aposentar a lamparina nas zonas rurais brasileiras.

08Comparativo

Lamparina romana e lampião de querosene
AspectoLamparina romana, séc. ILampião de querosene, c. 1900
CombustívelAzeite de olivaQuerosene destilado do petróleo
PavioFibra vegetal, fixoAlgodão plano, regulável por roda dentada
IntensidadeCerca de uma velaDez a vinte velas
FumaçaIntensa, suja paredes e tetosReduzida pela chaminé de vidro
Custo da luzAlto; privilégio dos abastadosBaixo; acessível a famílias pobres

09Perguntas frequentes

Qual é a diferença entre lamparina e lampião?

No uso brasileiro, lamparina é o frasco simples com pavio e chama aberta; lampião é o modelo com reservatório, pavio regulável e chaminé de vidro, de luz mais forte.

Por que a lamparina a óleo saiu de uso?

O gás canalizado tirou dela as cidades no século XIX, e a lâmpada elétrica, a partir de 1879, ofereceu luz sem chama, fumaça ou reabastecimento. Onde não há rede elétrica, ela ainda é usada.

Que combustível se usava antes do querosene?

Azeite de oliva no Mediterrâneo, gordura animal e óleo de peixe no norte da Europa, óleo de baleia nos séculos XVIII e XIX, e óleos de sementes na Ásia.

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11Fontes consultadas

  • Sophie A. de Beaune e Randall White, 'Ice Age Lamps', Scientific American, 1993
  • Donald R. Bailey, A Catalogue of the Lamps in the British Museum, British Museum Press, 1975-1996
  • William T. O'Dea, The Social History of Lighting, Routledge and Kegan Paul, 1958
  • Jane Brox, Brilliant: The Evolution of Artificial Light, Houghton Mifflin, 2010
  • Instituto Moreira Salles, acervo fotográfico sobre iluminação urbana no Rio de Janeiro

Este verbete foi redigido e revisado pela equipe editorial do Daily's Treasures a partir das fontes acima. Encontrou um erro? Escreva para nós.