01Origem
A lamparina é um dos objetos mais antigos ainda reconhecíveis. Nas cavernas de Lascaux, na França, arqueólogos encontraram placas de arenito escavadas com resíduos de gordura animal e de pavio vegetal, com cerca de 17 mil anos, usadas para iluminar a pintura das paredes. O princípio nunca mudou: um recipiente com combustível líquido e um pavio que o conduz por capilaridade até uma chama pequena e controlada. O que mudou ao longo dos milênios foi o recipiente, o combustível e a regulagem do ar.
Na Mesopotâmia e no Egito, a partir do quarto milênio antes de Cristo, a lamparina ganhou forma de tigela de cerâmica ou de concha, cheia de óleo vegetal ou gordura. Os gregos, por volta do século VII a.C., fecharam a tigela e abriram um bico para o pavio, reduzindo a fumaça e o risco de derramar. Os romanos fizeram da lamparina um produto industrial: moldadas em terracota aos milhares, com marca de fabricante no fundo e cenas em relevo na tampa, elas eram exportadas para todo o império e são, hoje, um dos achados mais comuns em escavações.
O combustível seguia a economia local. No Mediterrâneo, azeite de oliva; no norte da Europa, gordura de boi, de peixe ou de foca; em regiões asiáticas, óleo de gergelim, de rícino ou de nozes. Essa dependência de combustível caro explica por que, durante a maior parte da história, a luz artificial foi escassa. Uma família camponesa europeia do século XVII dormia ao escurecer não por costume, mas porque o óleo tinha preço.
02Período histórico
A lamparina moderna, com chama forte e fumaça reduzida, é produto do século XVIII. Até então, o desenho de uma lamparina romana e o de uma lamparina medieval eram quase iguais: a chama fraca, amarelada e fumarenta de um pavio aberto. Em 1780, o físico suíço Aimé Argand inventou o pavio tubular, que deixa o ar passar por dentro e por fora da chama, e a chaminé de vidro, que organiza a corrente ascendente. O resultado era uma luz várias vezes mais forte e muito mais limpa.
A lamparina de Argand chegou junto com a Revolução Industrial, que exigia iluminação prolongada em fábricas, escritórios e ruas. Seu combustível predileto, o óleo de baleia, alimentou uma indústria mundial de caça e tornou portos como Nantucket e New Bedford centros de riqueza. O esgotamento das baleias e o preço crescente do óleo prepararam o terreno para o combustível seguinte.
03Evolução ao longo do tempo
Do azeite ao querosene
Na década de 1850, dois avanços quase simultâneos mudaram o combustível. O farmacêutico polonês Ignacy Łukasiewicz destilou querosene a partir do petróleo bruto e construiu uma lamparina adequada a ele em Lviv, em 1853; o canadense Abraham Gesner patenteou um processo semelhante a partir de carvão e nomeou o produto. Com a exploração de petróleo na Pensilvânia, a partir de 1859, o querosene ficou barato. O lampião de querosene, com reservatório de latão, pavio plano regulável e chaminé de vidro, tornou-se a forma final da lamparina a óleo e espalhou-se por todos os continentes.
O gás e a eletricidade
Nas cidades, a lamparina enfrentou dois concorrentes. O gás de iluminação, canalizado em Londres a partir de 1807 e em outras capitais nas décadas seguintes, tirou dela as ruas, os teatros e as casas ricas. Depois, a lâmpada incandescente de Joseph Swan e Thomas Edison, em 1879, ofereceu uma luz sem chama, sem fumaça e sem reabastecimento. A substituição, porém, foi lenta e desigual: onde não havia rede elétrica, o lampião de querosene seguiu sendo a única luz noturna até bem avançado o século XX.
Sobrevivência nos rituais e na decoração
A lamparina resistiu onde a chama tem significado. A lâmpada do sacrário nas igrejas católicas, as lamparinas de azeite acesas em mosteiros ortodoxos, a menorá de óleo do Hanukkah e as 'diyas' de barro do Diwali indiano mantêm o objeto vivo em sua forma antiga. Fora da religião, ela virou peça de decoração, item de acampamento e reserva para apagões. A palavra também sobreviveu: 'lamparina' nomeia luzes fracas de vigília e, por extensão, qualquer luz de pouca intensidade.
04Fatos curiosos
- Oficinas romanas marcavam o fundo das lamparinas com o nome do fabricante; a marca FORTIS, do norte da Itália, foi tão copiada que é considerada um dos primeiros casos de falsificação de marca.
- A chaminé de vidro de Argand foi uma descoberta acidental: um frasco sem fundo colocado sobre a chama fez a luz subir e clarear.
- Antes do querosene, o óleo de baleia iluminava faróis e ruas; uma única baleia-franca podia render dezenas de barris.
- O cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva recebeu o apelido de Lampião, segundo a versão mais repetida, porque o clarão dos tiros de seu rifle à noite lembrava a luz do objeto.
05Contexto social
A luz artificial foi, durante milênios, uma medida de riqueza. Nas casas romanas, o número de lamparinas acesas num jantar indicava o status do anfitrião, e os pobres iluminavam-se com uma só chama ou com nenhuma. Na Europa pré-industrial, trabalhar à noite com luz de óleo era privilégio de monges, estudiosos e oficinas que podiam pagar o combustível.
O querosene barato do fim do século XIX foi uma das primeiras conquistas igualitárias da iluminação: pela primeira vez, uma família camponesa podia ler, costurar e conversar depois do escurecer a custo baixo. A lamparina doméstica também era um objeto feminino, acesa, limpa e regulada por mulheres, e os acidentes com querosene, incêndios e queimaduras, eram uma causa frequente de morte em casas do campo.
A eletrificação, por fim, redistribuiu essa desigualdade no espaço: cidades iluminadas e campo à luz de lampião conviveram por décadas, e em muitos países ainda convivem. A lamparina deixou de ser um objeto do passado para se tornar um marcador de quem ficou fora da rede.
06No Brasil
A iluminação pública do Rio de Janeiro começou em 1794, no governo do vice-rei conde de Resende, com lampiões de óleo de baleia pendurados nas esquinas; a caça à baleia na costa da Bahia e de Santa Catarina abastecia as cidades coloniais. Em 1854, o Barão de Mauá inaugurou o gás canalizado na mesma cidade, e, em 1883, Campos dos Goytacazes, no norte fluminense, tornou-se a primeira cidade da América do Sul com iluminação pública elétrica. Nas casas, porém, o candeeiro de azeite e, depois, o lampião e a lamparina de querosene seguiram sendo a luz de todos os dias.
No sertão e nas zonas rurais, a lamparina de querosene, um frasco de lata ou vidro com pavio de pano e sem chaminé, também chamada de fifó ou candeeiro conforme a região, atravessou o século XX como a única luz noturna de milhões de famílias. O programa federal Luz para Todos, lançado em 2003, levou rede elétrica a comunidades que até então dependiam dela. Hoje a lamparina persiste em capelas, em festas juninas e na memória da literatura regionalista.
07Linha do tempo
- c. 15.000 a.C.
Lamparinas de pedra com gordura animal iluminam as cavernas pintadas do sudoeste da Europa.
- c. 3000 a.C.
Tigelas de cerâmica e conchas servem de lamparina na Mesopotâmia e no Egito.
- séc. VII a.C.
Lamparinas gregas ganham corpo fechado e bico para o pavio.
- séc. I
Oficinas romanas moldam lamparinas de terracota em série, com marca de fabricante.
- 1780
Aimé Argand cria o pavio tubular e a chaminé de vidro, multiplicando a luz.
- 1794
O Rio de Janeiro ganha iluminação pública com lampiões de óleo de baleia.
- 1853
Ignacy Łukasiewicz acende a primeira lamparina de querosene em Lviv.
- 1879
A lâmpada incandescente de Swan e Edison inicia a substituição da chama pela eletricidade.
- 2003
O programa Luz para Todos começa a aposentar a lamparina nas zonas rurais brasileiras.
08Comparativo
| Aspecto | Lamparina romana, séc. I | Lampião de querosene, c. 1900 |
|---|---|---|
| Combustível | Azeite de oliva | Querosene destilado do petróleo |
| Pavio | Fibra vegetal, fixo | Algodão plano, regulável por roda dentada |
| Intensidade | Cerca de uma vela | Dez a vinte velas |
| Fumaça | Intensa, suja paredes e tetos | Reduzida pela chaminé de vidro |
| Custo da luz | Alto; privilégio dos abastados | Baixo; acessível a famílias pobres |
09Perguntas frequentes
Qual é a diferença entre lamparina e lampião?
No uso brasileiro, lamparina é o frasco simples com pavio e chama aberta; lampião é o modelo com reservatório, pavio regulável e chaminé de vidro, de luz mais forte.
Por que a lamparina a óleo saiu de uso?
O gás canalizado tirou dela as cidades no século XIX, e a lâmpada elétrica, a partir de 1879, ofereceu luz sem chama, fumaça ou reabastecimento. Onde não há rede elétrica, ela ainda é usada.
Que combustível se usava antes do querosene?
Azeite de oliva no Mediterrâneo, gordura animal e óleo de peixe no norte da Europa, óleo de baleia nos séculos XVIII e XIX, e óleos de sementes na Ásia.
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11Fontes consultadas
- Sophie A. de Beaune e Randall White, 'Ice Age Lamps', Scientific American, 1993
- Donald R. Bailey, A Catalogue of the Lamps in the British Museum, British Museum Press, 1975-1996
- William T. O'Dea, The Social History of Lighting, Routledge and Kegan Paul, 1958
- Jane Brox, Brilliant: The Evolution of Artificial Light, Houghton Mifflin, 2010
- Instituto Moreira Salles, acervo fotográfico sobre iluminação urbana no Rio de Janeiro
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