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Verbete nº 063 · Curiosidades de objetos antigos

Aquecedor de cama

Uma panela de cobre cheia de brasas esquentava a cama dos europeus até o aquecimento central e a bolsa de água quente a aposentarem.

Séculos XV a XVII Iluminar e aquecer Utensílio Europa ocidental · c. século XVI
Aquecedor de cama: Uma panela de cobre cheia de brasas esquentava a cama dos europeus até o aquecimento central e a bolsa de água quente a aposentarem.
Imagem: Auckland Museum · Wikimedia Commons · CC BY 4.0

01Origem

Esquentar a cama antes de deitar é uma necessidade tão antiga quanto o inverno em casas sem aquecimento. Durante séculos, o método foi improvisado: pedras ou tijolos postos no fogo, enrolados em panos e levados para debaixo das cobertas, costume registrado da Roma antiga aos vilarejos alpinos do século XX. O aquecedor de cama propriamente dito, uma panela rasa de metal, com tampa articulada e perfurada, presa a um cabo longo, aparece na Europa ocidental no fim da Idade Média, e os registros seguros, inventários domésticos e pinturas, concentram-se a partir do século XVI.

O objeto respondia à arquitetura de seu tempo. As casas europeias tinham uma lareira na cozinha ou na sala e quartos frios, de paredes de pedra, com camas de dossel cujas cortinas tentavam reter o calor do corpo. Antes de dormir, uma criada ou a própria dona da casa enchia a panela com brasas da lareira, às vezes cobertas por uma camada de cinza para suavizar o calor, fechava a tampa e passava o aquecedor entre os lençóis em movimentos contínuos, sem parar, porque o cobre quente queimaria o tecido.

Não se conhece um inventor nem um local preciso de origem. Modelos semelhantes aparecem na Inglaterra, nos Países Baixos, na França e na Itália ao mesmo tempo, e a Itália desenvolveu uma variante própria: o 'prete', armação de madeira em forma de barco que se punha dentro da cama para manter as cobertas afastadas de um braseiro de barro, o 'scaldino'. Os nomes populares, padre e freira, vinham da piada sobre a única companhia que aquecia a cama sem pecado.

02Período histórico

O aquecedor de cama pertence à Europa da Pequena Idade do Gelo, o período de invernos rigorosos que vai do século XIV ao XIX. Pinturas holandesas do século XVII mostram o objeto pendurado ao lado da lareira como item comum das casas burguesas, e nas casas senhoriais inglesas e francesas o 'aquecer a cama' era tarefa fixa de um criado. A lareira única, a vela e o aquecedor compunham o conforto possível numa casa sem isolamento térmico.

O cobre e o latão, metais que conduzem calor depressa e eram trabalhados por caldeireiros de cada cidade, fizeram do aquecedor um produto artesanal corrente, muitas vezes gravado com flores, datas e iniciais, porque ficava à vista. Modelos de ferro, mais baratos, atendiam às casas mais pobres, e os de prata, raríssimos, às cortes.

03Evolução ao longo do tempo

  1. Brasas e tampa perfurada

    O modelo clássico dos séculos XVI a XVIII tem uma panela de cobre de 25 a 30 centímetros, tampa de dobradiça com furos para deixar sair a fumaça e cabo de madeira torneada ou de ferro, com cerca de um metro. As brasas, retiradas da lareira, vinham às vezes misturadas a sal, que reduzia o cheiro de fumaça nos lençóis. Os riscos eram constantes: queimar a roupa de cama, incendiar o colchão de palha e intoxicar o quarto com monóxido de carbono. Os manuais domésticos da época recomendavam retirar o aquecedor antes de deitar e nunca deixá-lo parado.

  2. A água quente substitui a brasa

    No século XVIII, a água quente começou a substituir as brasas. Apareceram garrafas de grés, de estanho e de cobre, fechadas com rolha ou rosca, que se enchiam na chaleira e dormiam aos pés do leito, sem fumaça nem risco de incêndio. Na Escócia e no norte da Inglaterra, a garrafa cilíndrica de cerâmica ganhou o apelido de 'pig'. A panela de brasas, por sua vez, foi sendo adaptada: muitas receberam um reservatório interno para água e passaram a ser usadas como garrafas de cabo longo.

  3. Borracha, eletricidade e aquecimento central

    Em 1903, o inventor croata Eduard Penkala patenteou uma bolsa de água quente de borracha, flexível e leve, que se tornou o padrão mundial e ainda é vendida com poucas mudanças. Nas décadas seguintes, o cobertor elétrico, derivado de almofadas térmicas usadas em sanatórios, e sobretudo o aquecimento central, que elevou a temperatura do quarto inteiro, tornaram desnecessário aquecer a cama. A panela de cobre perdeu a função, mas não a estima: polida e pendurada em paredes de casas de campo e de pubs ingleses, virou decoração e símbolo de um lar antigo.

04Fatos curiosos

  • Em 1688, opositores do rei inglês Jaime II espalharam o boato de que seu herdeiro recém-nascido fora contrabandeado para o quarto da rainha dentro de um aquecedor de cama; o 'bebê da panela' virou argumento político na Revolução Gloriosa.
  • Em italiano, a armação de madeira que mantinha as cobertas longe do braseiro chamava-se 'prete', padre, e o braseiro de barro, 'suora', freira.
  • O sal misturado às brasas servia para abafar o cheiro de fumaça nos lençóis e reduzir as faíscas.
  • Muitos aquecedores de cobre do século XVIII foram, no século XX, transformados em luminárias ou pratos de parede, por isso raramente se encontram com o cabo original.
  • A bolsa de água quente de borracha patenteada por Penkala em 1903 recebeu o nome de Termofor, e o mesmo inventor criou pouco depois a lapiseira mecânica.

05Contexto social

Aquecer a cama era trabalho de outra pessoa. Nas casas abastadas, uma criada percorria os quartos ao anoitecer passando o aquecedor nos leitos, e a tarefa aparece nos regulamentos de serviço doméstico ingleses até o início do século XX. Nas casas pobres, sem criados e muitas vezes sem aquecedor, a solução era dormir em grupo, perto da cozinha, ou levar para a cama o tijolo aquecido. O objeto marcava, por isso, uma fronteira de classe tão nítida quanto a lareira no quarto.

Seu desaparecimento também foi desigual. O aquecimento central chegou primeiro aos hotéis e às casas ricas das grandes cidades, no fim do século XIX, e demorou décadas para alcançar as zonas rurais. A bolsa de água quente de borracha foi o substituto democrático: barata, segura, sem criado, e por isso o único descendente direto do aquecedor que permanece de uso corrente em todo o mundo, inclusive em hospitais e cuidados a bebês.

06No Brasil

Não há registro de uso difundido do aquecedor de brasas no Brasil. O clima quente da maior parte do território e as casas coloniais abertas, com telhados ventilados, tornavam o objeto desnecessário, e as peças que existem em museus de casas senhoriais e em antiquários chegaram como mobiliário importado por famílias europeias ou como curiosidade. Nas regiões frias do Sul, colonos alemães e italianos do século XIX trouxeram o costume de aquecer tijolos e pedras no fogão a lenha e envolvê-los em panos para a cama, prática lembrada até hoje na Serra Gaúcha e no planalto catarinense.

O que sobreviveu no país foi a geração seguinte do objeto. A bolsa de água quente de borracha é item comum de farmácia e aparece nas noites de inverno do Sul e do Sudeste, além do uso para cólicas e dores musculares; o cobertor elétrico tem mercado nas cidades serranas. O aquecedor de cobre, quando aparece, é peça de decoração em pousadas e restaurantes de inspiração europeia.

07Linha do tempo

  1. Antiguidade

    Pedras e tijolos aquecidos ao fogo, enrolados em panos, esquentam leitos na Roma antiga.

  2. séc. XVI

    A panela de cobre com tampa perfurada e cabo longo aparece em inventários e pinturas europeias.

  3. 1688

    O boato do bebê escondido num aquecedor de cama agita a política inglesa.

  4. séc. XVIII

    Garrafas de grés e de metal com água quente começam a substituir as brasas.

  5. fim do séc. XIX

    O aquecimento central chega a hotéis e residências ricas das grandes cidades.

  6. 1903

    Eduard Penkala patenteia a bolsa de água quente de borracha.

  7. década de 1930

    Cobertores elétricos entram no mercado doméstico.

  8. séc. XX

    O aquecedor de cobre vira objeto decorativo em casas e pubs.

08Comparativo

Aquecedor de brasas e bolsa de água quente
AspectoPanela de cobre, séc. XVIIBolsa de borracha, hoje
Fonte de calorBrasas da lareiraÁgua fervida na chaleira ou no micro-ondas
RiscoIncêndio, queimadura, fumaça tóxicaQueimadura leve se mal fechada
Quem operaCriada ou dona da casaA própria pessoa
Permanência na camaRetirado antes de deitarFica a noite toda
CustoPeça artesanal de metal, caraProduto industrial barato

09Perguntas frequentes

Como funcionava o aquecedor de cama?

Enchia-se a panela de cobre com brasas da lareira, fechava-se a tampa perfurada e passava-se o objeto entre os lençóis em movimento contínuo, retirando-o antes de deitar.

Por que o aquecedor de cama saiu de uso?

Garrafas de água quente, a bolsa de borracha de 1903, os cobertores elétricos e, sobretudo, o aquecimento central tornaram desnecessário esquentar a cama com brasas.

O aquecedor de cama foi usado no Brasil?

Não de forma difundida; o clima dispensava. As peças existentes são importadas e decorativas. O que o país adotou foi a bolsa de água quente e, no Sul, o tijolo aquecido no fogão a lenha.

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11Fontes consultadas

  • Lawrence Wright, Warm and Snug: The History of the Bed, Routledge and Kegan Paul, 1962
  • Victoria and Albert Museum, Londres, coleção de utensílios domésticos de metal
  • Judith Flanders, The Making of Home, Atlantic Books, 2014
  • Museu Casa de Rui Barbosa, Rio de Janeiro, inventário de mobiliário e objetos domésticos

Este verbete foi redigido e revisado pela equipe editorial do Daily's Treasures a partir das fontes acima. Encontrou um erro? Escreva para nós.