01Origem
Esquentar a cama antes de deitar é uma necessidade tão antiga quanto o inverno em casas sem aquecimento. Durante séculos, o método foi improvisado: pedras ou tijolos postos no fogo, enrolados em panos e levados para debaixo das cobertas, costume registrado da Roma antiga aos vilarejos alpinos do século XX. O aquecedor de cama propriamente dito, uma panela rasa de metal, com tampa articulada e perfurada, presa a um cabo longo, aparece na Europa ocidental no fim da Idade Média, e os registros seguros, inventários domésticos e pinturas, concentram-se a partir do século XVI.
O objeto respondia à arquitetura de seu tempo. As casas europeias tinham uma lareira na cozinha ou na sala e quartos frios, de paredes de pedra, com camas de dossel cujas cortinas tentavam reter o calor do corpo. Antes de dormir, uma criada ou a própria dona da casa enchia a panela com brasas da lareira, às vezes cobertas por uma camada de cinza para suavizar o calor, fechava a tampa e passava o aquecedor entre os lençóis em movimentos contínuos, sem parar, porque o cobre quente queimaria o tecido.
Não se conhece um inventor nem um local preciso de origem. Modelos semelhantes aparecem na Inglaterra, nos Países Baixos, na França e na Itália ao mesmo tempo, e a Itália desenvolveu uma variante própria: o 'prete', armação de madeira em forma de barco que se punha dentro da cama para manter as cobertas afastadas de um braseiro de barro, o 'scaldino'. Os nomes populares, padre e freira, vinham da piada sobre a única companhia que aquecia a cama sem pecado.
02Período histórico
O aquecedor de cama pertence à Europa da Pequena Idade do Gelo, o período de invernos rigorosos que vai do século XIV ao XIX. Pinturas holandesas do século XVII mostram o objeto pendurado ao lado da lareira como item comum das casas burguesas, e nas casas senhoriais inglesas e francesas o 'aquecer a cama' era tarefa fixa de um criado. A lareira única, a vela e o aquecedor compunham o conforto possível numa casa sem isolamento térmico.
O cobre e o latão, metais que conduzem calor depressa e eram trabalhados por caldeireiros de cada cidade, fizeram do aquecedor um produto artesanal corrente, muitas vezes gravado com flores, datas e iniciais, porque ficava à vista. Modelos de ferro, mais baratos, atendiam às casas mais pobres, e os de prata, raríssimos, às cortes.
03Evolução ao longo do tempo
Brasas e tampa perfurada
O modelo clássico dos séculos XVI a XVIII tem uma panela de cobre de 25 a 30 centímetros, tampa de dobradiça com furos para deixar sair a fumaça e cabo de madeira torneada ou de ferro, com cerca de um metro. As brasas, retiradas da lareira, vinham às vezes misturadas a sal, que reduzia o cheiro de fumaça nos lençóis. Os riscos eram constantes: queimar a roupa de cama, incendiar o colchão de palha e intoxicar o quarto com monóxido de carbono. Os manuais domésticos da época recomendavam retirar o aquecedor antes de deitar e nunca deixá-lo parado.
A água quente substitui a brasa
No século XVIII, a água quente começou a substituir as brasas. Apareceram garrafas de grés, de estanho e de cobre, fechadas com rolha ou rosca, que se enchiam na chaleira e dormiam aos pés do leito, sem fumaça nem risco de incêndio. Na Escócia e no norte da Inglaterra, a garrafa cilíndrica de cerâmica ganhou o apelido de 'pig'. A panela de brasas, por sua vez, foi sendo adaptada: muitas receberam um reservatório interno para água e passaram a ser usadas como garrafas de cabo longo.
Borracha, eletricidade e aquecimento central
Em 1903, o inventor croata Eduard Penkala patenteou uma bolsa de água quente de borracha, flexível e leve, que se tornou o padrão mundial e ainda é vendida com poucas mudanças. Nas décadas seguintes, o cobertor elétrico, derivado de almofadas térmicas usadas em sanatórios, e sobretudo o aquecimento central, que elevou a temperatura do quarto inteiro, tornaram desnecessário aquecer a cama. A panela de cobre perdeu a função, mas não a estima: polida e pendurada em paredes de casas de campo e de pubs ingleses, virou decoração e símbolo de um lar antigo.
04Fatos curiosos
- Em 1688, opositores do rei inglês Jaime II espalharam o boato de que seu herdeiro recém-nascido fora contrabandeado para o quarto da rainha dentro de um aquecedor de cama; o 'bebê da panela' virou argumento político na Revolução Gloriosa.
- Em italiano, a armação de madeira que mantinha as cobertas longe do braseiro chamava-se 'prete', padre, e o braseiro de barro, 'suora', freira.
- O sal misturado às brasas servia para abafar o cheiro de fumaça nos lençóis e reduzir as faíscas.
- Muitos aquecedores de cobre do século XVIII foram, no século XX, transformados em luminárias ou pratos de parede, por isso raramente se encontram com o cabo original.
- A bolsa de água quente de borracha patenteada por Penkala em 1903 recebeu o nome de Termofor, e o mesmo inventor criou pouco depois a lapiseira mecânica.
05Contexto social
Aquecer a cama era trabalho de outra pessoa. Nas casas abastadas, uma criada percorria os quartos ao anoitecer passando o aquecedor nos leitos, e a tarefa aparece nos regulamentos de serviço doméstico ingleses até o início do século XX. Nas casas pobres, sem criados e muitas vezes sem aquecedor, a solução era dormir em grupo, perto da cozinha, ou levar para a cama o tijolo aquecido. O objeto marcava, por isso, uma fronteira de classe tão nítida quanto a lareira no quarto.
Seu desaparecimento também foi desigual. O aquecimento central chegou primeiro aos hotéis e às casas ricas das grandes cidades, no fim do século XIX, e demorou décadas para alcançar as zonas rurais. A bolsa de água quente de borracha foi o substituto democrático: barata, segura, sem criado, e por isso o único descendente direto do aquecedor que permanece de uso corrente em todo o mundo, inclusive em hospitais e cuidados a bebês.
06No Brasil
Não há registro de uso difundido do aquecedor de brasas no Brasil. O clima quente da maior parte do território e as casas coloniais abertas, com telhados ventilados, tornavam o objeto desnecessário, e as peças que existem em museus de casas senhoriais e em antiquários chegaram como mobiliário importado por famílias europeias ou como curiosidade. Nas regiões frias do Sul, colonos alemães e italianos do século XIX trouxeram o costume de aquecer tijolos e pedras no fogão a lenha e envolvê-los em panos para a cama, prática lembrada até hoje na Serra Gaúcha e no planalto catarinense.
O que sobreviveu no país foi a geração seguinte do objeto. A bolsa de água quente de borracha é item comum de farmácia e aparece nas noites de inverno do Sul e do Sudeste, além do uso para cólicas e dores musculares; o cobertor elétrico tem mercado nas cidades serranas. O aquecedor de cobre, quando aparece, é peça de decoração em pousadas e restaurantes de inspiração europeia.
07Linha do tempo
- Antiguidade
Pedras e tijolos aquecidos ao fogo, enrolados em panos, esquentam leitos na Roma antiga.
- séc. XVI
A panela de cobre com tampa perfurada e cabo longo aparece em inventários e pinturas europeias.
- 1688
O boato do bebê escondido num aquecedor de cama agita a política inglesa.
- séc. XVIII
Garrafas de grés e de metal com água quente começam a substituir as brasas.
- fim do séc. XIX
O aquecimento central chega a hotéis e residências ricas das grandes cidades.
- 1903
Eduard Penkala patenteia a bolsa de água quente de borracha.
- década de 1930
Cobertores elétricos entram no mercado doméstico.
- séc. XX
O aquecedor de cobre vira objeto decorativo em casas e pubs.
08Comparativo
| Aspecto | Panela de cobre, séc. XVII | Bolsa de borracha, hoje |
|---|---|---|
| Fonte de calor | Brasas da lareira | Água fervida na chaleira ou no micro-ondas |
| Risco | Incêndio, queimadura, fumaça tóxica | Queimadura leve se mal fechada |
| Quem opera | Criada ou dona da casa | A própria pessoa |
| Permanência na cama | Retirado antes de deitar | Fica a noite toda |
| Custo | Peça artesanal de metal, cara | Produto industrial barato |
09Perguntas frequentes
Como funcionava o aquecedor de cama?
Enchia-se a panela de cobre com brasas da lareira, fechava-se a tampa perfurada e passava-se o objeto entre os lençóis em movimento contínuo, retirando-o antes de deitar.
Por que o aquecedor de cama saiu de uso?
Garrafas de água quente, a bolsa de borracha de 1903, os cobertores elétricos e, sobretudo, o aquecimento central tornaram desnecessário esquentar a cama com brasas.
O aquecedor de cama foi usado no Brasil?
Não de forma difundida; o clima dispensava. As peças existentes são importadas e decorativas. O que o país adotou foi a bolsa de água quente e, no Sul, o tijolo aquecido no fogão a lenha.
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11Fontes consultadas
- Lawrence Wright, Warm and Snug: The History of the Bed, Routledge and Kegan Paul, 1962
- Victoria and Albert Museum, Londres, coleção de utensílios domésticos de metal
- Judith Flanders, The Making of Home, Atlantic Books, 2014
- Museu Casa de Rui Barbosa, Rio de Janeiro, inventário de mobiliário e objetos domésticos
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