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Verbete nº 010 · Invenções do cotidiano

Fósforo

Entre o acaso de um farmacêutico inglês e as fábricas suecas, o fogo passou a caber no bolso.

Século XIX Iluminar e aquecer Utensílio Inglaterra (Stockton-on-Tees) · 1826
Fósforo: Entre o acaso de um farmacêutico inglês e as fábricas suecas, o fogo passou a caber no bolso.
Imagem: Russell Lee · Wikimedia Commons · domínio público

01Origem

Acender fogo foi, durante milênios, uma tarefa lenta feita com pederneira, aço e isca seca. Textos chineses do século X descrevem gravetos de pinho com a ponta impregnada de enxofre que pegavam fogo ao tocar uma brasa, mas não produziam a chama sozinhos. Em 1680, Robert Boyle e seu assistente Ambrose Godfrey, em Londres, obtiveram fogo esfregando enxofre em papel coberto com o fósforo recém-descoberto, curiosidade cara demais para uso prático. No início do século XIX surgiram os fósforos químicos, mergulhados em ácido sulfúrico para inflamar, perigosos e pouco confiáveis.

O fósforo de fricção nasceu em 1826 na farmácia de John Walker, em Stockton-on-Tees, no norte da Inglaterra. Walker preparava uma mistura de clorato de potássio, sulfeto de antimônio, goma e amido quando notou que um palito coberto com a pasta se incendiava ao ser raspado no chão de pedra. Passou a vender caixas com dezenas de palitos e uma lixa, e a primeira venda anotada em seu livro-caixa é de abril de 1827. Walker nunca patenteou a invenção, e Samuel Jones, de Londres, copiou-a e a vendeu sob o nome Lucifer a partir de 1829.

O passo seguinte foi mais perigoso. Em 1830, o francês Charles Sauria substituiu o sulfeto de antimônio pelo fósforo branco, que acendia com facilidade em qualquer superfície. Esses fósforos dominaram o mercado por décadas, mas o fósforo branco é tóxico: as operárias que o manipulavam desenvolviam a necrose da mandíbula, doença deformante e muitas vezes fatal. A saída veio da Suécia. Gustaf Erik Pasch patenteou em 1844 a ideia de usar o fósforo vermelho, não tóxico, apenas na lixa da caixa. Johan Edvard Lundström e seu irmão Carl Frans aperfeiçoaram o sistema em Jönköping e o apresentaram na Exposição de Paris de 1855.

02Período histórico

O fósforo apareceu numa Europa que fumava cada vez mais, iluminava-se com velas e lampiões a óleo e cozinhava em fogões a lenha e a carvão. Cada uma dessas atividades exigia uma chama inicial, e um objeto que a produzisse em segundos tinha mercado garantido. A química industrial da época, nascida da fabricação de corantes, ácidos e pólvora, fornecia os reagentes a baixo custo.

Era também o tempo das primeiras fábricas com mão de obra feminina e infantil em larga escala. A produção de fósforos exigia pouca força e muita repetição, e concentrou-se em bairros pobres de Londres, Viena e Estocolmo, cujas condições insalubres motivaram uma das primeiras leis internacionais de saúde do trabalhador.

03Evolução ao longo do tempo

  1. Fósforos de fricção e Lucifers (1826-1830)

    Os primeiros palitos de Walker eram de papelão e, depois, de madeira, e precisavam ser raspados entre as dobras de uma lixa. Soltavam faíscas, cheiravam mal e às vezes explodiam. Os Lucifers de Samuel Jones traziam na caixa um aviso recomendando que pessoas com pulmões delicados não os usassem. Mesmo assim, venderam bem: eram a primeira forma de obter fogo sem isca, pederneira ou brasa, e custavam uma fração do preço dos fósforos químicos a ácido.

  2. A era do fósforo branco (1830-1906)

    A fórmula de Sauria acendia em qualquer lugar, de uma sola de bota a uma parede, e dominou o mundo por sete décadas. Era também inflamável demais, causando incêndios em bolsos e armazéns, e envenenava trabalhadores e crianças que chupavam os palitos. A greve das operárias da Bryant & May, em Londres, em 1888, deu visibilidade ao problema. A Convenção de Berna de 1906 proibiu o fósforo branco em fósforos, e os países a adotaram nos anos seguintes, alguns por meio de impostos proibitivos, como os Estados Unidos em 1913.

  3. O fósforo de segurança sueco (1844-1950)

    A ideia de Pasch e dos Lundström dividiu a reação em duas partes: o clorato de potássio na cabeça do palito e o fósforo vermelho na lixa da caixa, que só reagem quando atritados um contra o outro. Jönköping tornou-se a capital mundial do fósforo, e nos anos 1920 o financista sueco Ivar Kreuger chegou a controlar cerca de dois terços da produção do planeta, concedendo empréstimos a governos em troca de monopólios nacionais, até o colapso de seu grupo em 1932. O modelo sueco, com caixa de papelão e rótulo ilustrado, é o mesmo encontrado hoje nas prateleiras.

04Fatos curiosos

  • John Walker anotou a primeira venda de fósforos de fricção em 7 de abril de 1827, para um advogado da cidade, e nunca quis patentear o produto, dizendo que ele era útil demais para ser restringido.
  • A necrose da mandíbula causada pelo fósforo branco, chamada em inglês de phossy jaw, fazia o osso brilhar no escuro em estágios avançados.
  • A greve de 1888 na Bryant & May, conduzida por cerca de 1.400 mulheres e meninas com apoio da jornalista Annie Besant, é considerada um marco do sindicalismo feminino britânico.
  • O colecionismo de caixas e rótulos de fósforos tem nome próprio, filumenismo, e reúne associações em dezenas de países.
  • O palito brasileiro é feito em geral de madeira de pinus, mais macia que o álamo usado na Europa, e recebe tratamento para não continuar em brasa depois de apagado.

05Contexto social

O fósforo barateou um gesto que antes exigia habilidade e tempo, e por isso mudou a rotina doméstica antes mesmo da eletricidade. Acender o fogão, a vela ou o lampião deixou de depender de manter brasas vivas durante a noite, preocupação constante das donas de casa e das empregadas que acordavam antes de todos.

A indústria foi, desde o início, um negócio de mão de obra feminina e infantil mal remunerada. Nas fábricas de Londres, meninas de 13 anos mergulhavam palitos em pasta de fósforo branco por jornadas de doze horas, e multas por conversar ou deixar cair palitos eram descontadas de salários já pequenos. A greve de 1888 e as pesquisas médicas sobre a necrose transformaram o fósforo em símbolo da luta por regulação industrial.

No século XX, o fósforo tornou-se objeto de monopólios fiscais, porque o consumo era enorme, regular e fácil de tributar. A carteira de fósforos de papel, patenteada por Joshua Pusey em 1892 e distribuída de graça por hotéis e restaurantes, virou um dos primeiros suportes de propaganda de massa.

06No Brasil

As primeiras fábricas de fósforos do Brasil surgiram no fim do século XIX, no Rio de Janeiro e em São Paulo, substituindo o produto importado da Europa, e o setor atraiu capital sueco, dono da tecnologia do fósforo de segurança. Ao longo do século XX, a marca Fiat Lux, controlada por décadas pelo grupo Swedish Match, tornou-se sinônimo de fósforo no país, acompanhada de marcas regionais como Pinheiro. As caixinhas de papelão com rótulos ilustrados viraram objeto de coleção e peça de memória doméstica.

O fósforo manteve no Brasil uma presença maior do que em muitos países ricos, pela difusão do fogão a gás com acendimento manual e do fogão a lenha, ainda usado em parte das casas rurais. Hoje o palito concorre com o isqueiro descartável e o acendedor elétrico, mas segue presente no churrasco, nas velas de aniversário e nas festas juninas, e aparece em expressões populares como riscar o fósforo.

07Linha do tempo

  1. c. 950

    Textos chineses descrevem gravetos de pinho com enxofre que acendem ao tocar uma brasa.

  2. 1680

    Robert Boyle e Ambrose Godfrey produzem fogo com fósforo e enxofre em Londres.

  3. 1826

    John Walker cria em Stockton-on-Tees o primeiro fósforo de fricção.

  4. 1830

    Charles Sauria introduz o fósforo branco na cabeça do palito.

  5. 1844

    Gustaf Erik Pasch patenteia na Suécia o princípio do fósforo de segurança.

  6. 1855

    Os irmãos Lundström apresentam o fósforo de segurança de Jönköping na Exposição de Paris.

  7. 1888

    Operárias da Bryant & May entram em greve em Londres.

  8. 1906

    A Convenção de Berna proíbe o fósforo branco na fabricação de fósforos.

08Comparativo

Do Lucifer ao fósforo de segurança
AspectoFósforo de 1830Fósforo de segurança atual
Substância ativaFósforo branco na cabeçaFósforo vermelho na lixa da caixa
Onde acendeEm qualquer superfície ásperaApenas na lixa própria
Risco à saúdeTóxico para operários e usuáriosConsiderado seguro
Risco de incêndioAlto, acendia no bolsoBaixo
PalitoMadeira com cabeça grandeMadeira ou papel com cabeça pequena
RegulaçãoNenhumaNormas internacionais desde 1906

09Perguntas frequentes

Por que o fósforo só acende na lixa da caixa?

Porque a reação precisa de dois ingredientes separados: o clorato de potássio da cabeça e o fósforo vermelho da lixa. O atrito converte uma pequena quantidade de fósforo vermelho em branco, que inflama e acende a cabeça.

Quem inventou o fósforo?

O farmacêutico inglês John Walker criou o fósforo de fricção em 1826. O fósforo de segurança, usado até hoje, foi patenteado pelo sueco Gustaf Erik Pasch em 1844 e aperfeiçoado pelos irmãos Lundström na década seguinte.

O fósforo ainda faz mal à saúde?

Não nas versões atuais. O fósforo branco, tóxico, foi banido por acordo internacional em 1906. O fósforo vermelho da lixa é estável em condições normais de uso.

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11Fontes consultadas

  • Louis Figuier, Les Merveilles de la science, capítulo sobre as allumettes chimiques, Paris, 1870
  • Herbert Manchester, The Diamond Match Company: A Century of Service, of Progress, and of Growth, 1935
  • Louise Raw, Striking a Light: The Bryant and May Matchwomen and Their Place in History, Bloomsbury, 2009
  • Preston Park Museum, Stockton-on-Tees, acervo sobre John Walker
  • Tändsticksmuseet (Museu do Fósforo), Jönköping, Suécia

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