01Origem
Acender fogo foi, durante milênios, uma tarefa lenta feita com pederneira, aço e isca seca. Textos chineses do século X descrevem gravetos de pinho com a ponta impregnada de enxofre que pegavam fogo ao tocar uma brasa, mas não produziam a chama sozinhos. Em 1680, Robert Boyle e seu assistente Ambrose Godfrey, em Londres, obtiveram fogo esfregando enxofre em papel coberto com o fósforo recém-descoberto, curiosidade cara demais para uso prático. No início do século XIX surgiram os fósforos químicos, mergulhados em ácido sulfúrico para inflamar, perigosos e pouco confiáveis.
O fósforo de fricção nasceu em 1826 na farmácia de John Walker, em Stockton-on-Tees, no norte da Inglaterra. Walker preparava uma mistura de clorato de potássio, sulfeto de antimônio, goma e amido quando notou que um palito coberto com a pasta se incendiava ao ser raspado no chão de pedra. Passou a vender caixas com dezenas de palitos e uma lixa, e a primeira venda anotada em seu livro-caixa é de abril de 1827. Walker nunca patenteou a invenção, e Samuel Jones, de Londres, copiou-a e a vendeu sob o nome Lucifer a partir de 1829.
O passo seguinte foi mais perigoso. Em 1830, o francês Charles Sauria substituiu o sulfeto de antimônio pelo fósforo branco, que acendia com facilidade em qualquer superfície. Esses fósforos dominaram o mercado por décadas, mas o fósforo branco é tóxico: as operárias que o manipulavam desenvolviam a necrose da mandíbula, doença deformante e muitas vezes fatal. A saída veio da Suécia. Gustaf Erik Pasch patenteou em 1844 a ideia de usar o fósforo vermelho, não tóxico, apenas na lixa da caixa. Johan Edvard Lundström e seu irmão Carl Frans aperfeiçoaram o sistema em Jönköping e o apresentaram na Exposição de Paris de 1855.
02Período histórico
O fósforo apareceu numa Europa que fumava cada vez mais, iluminava-se com velas e lampiões a óleo e cozinhava em fogões a lenha e a carvão. Cada uma dessas atividades exigia uma chama inicial, e um objeto que a produzisse em segundos tinha mercado garantido. A química industrial da época, nascida da fabricação de corantes, ácidos e pólvora, fornecia os reagentes a baixo custo.
Era também o tempo das primeiras fábricas com mão de obra feminina e infantil em larga escala. A produção de fósforos exigia pouca força e muita repetição, e concentrou-se em bairros pobres de Londres, Viena e Estocolmo, cujas condições insalubres motivaram uma das primeiras leis internacionais de saúde do trabalhador.
03Evolução ao longo do tempo
Fósforos de fricção e Lucifers (1826-1830)
Os primeiros palitos de Walker eram de papelão e, depois, de madeira, e precisavam ser raspados entre as dobras de uma lixa. Soltavam faíscas, cheiravam mal e às vezes explodiam. Os Lucifers de Samuel Jones traziam na caixa um aviso recomendando que pessoas com pulmões delicados não os usassem. Mesmo assim, venderam bem: eram a primeira forma de obter fogo sem isca, pederneira ou brasa, e custavam uma fração do preço dos fósforos químicos a ácido.
A era do fósforo branco (1830-1906)
A fórmula de Sauria acendia em qualquer lugar, de uma sola de bota a uma parede, e dominou o mundo por sete décadas. Era também inflamável demais, causando incêndios em bolsos e armazéns, e envenenava trabalhadores e crianças que chupavam os palitos. A greve das operárias da Bryant & May, em Londres, em 1888, deu visibilidade ao problema. A Convenção de Berna de 1906 proibiu o fósforo branco em fósforos, e os países a adotaram nos anos seguintes, alguns por meio de impostos proibitivos, como os Estados Unidos em 1913.
O fósforo de segurança sueco (1844-1950)
A ideia de Pasch e dos Lundström dividiu a reação em duas partes: o clorato de potássio na cabeça do palito e o fósforo vermelho na lixa da caixa, que só reagem quando atritados um contra o outro. Jönköping tornou-se a capital mundial do fósforo, e nos anos 1920 o financista sueco Ivar Kreuger chegou a controlar cerca de dois terços da produção do planeta, concedendo empréstimos a governos em troca de monopólios nacionais, até o colapso de seu grupo em 1932. O modelo sueco, com caixa de papelão e rótulo ilustrado, é o mesmo encontrado hoje nas prateleiras.
04Fatos curiosos
- John Walker anotou a primeira venda de fósforos de fricção em 7 de abril de 1827, para um advogado da cidade, e nunca quis patentear o produto, dizendo que ele era útil demais para ser restringido.
- A necrose da mandíbula causada pelo fósforo branco, chamada em inglês de phossy jaw, fazia o osso brilhar no escuro em estágios avançados.
- A greve de 1888 na Bryant & May, conduzida por cerca de 1.400 mulheres e meninas com apoio da jornalista Annie Besant, é considerada um marco do sindicalismo feminino britânico.
- O colecionismo de caixas e rótulos de fósforos tem nome próprio, filumenismo, e reúne associações em dezenas de países.
- O palito brasileiro é feito em geral de madeira de pinus, mais macia que o álamo usado na Europa, e recebe tratamento para não continuar em brasa depois de apagado.
05Contexto social
O fósforo barateou um gesto que antes exigia habilidade e tempo, e por isso mudou a rotina doméstica antes mesmo da eletricidade. Acender o fogão, a vela ou o lampião deixou de depender de manter brasas vivas durante a noite, preocupação constante das donas de casa e das empregadas que acordavam antes de todos.
A indústria foi, desde o início, um negócio de mão de obra feminina e infantil mal remunerada. Nas fábricas de Londres, meninas de 13 anos mergulhavam palitos em pasta de fósforo branco por jornadas de doze horas, e multas por conversar ou deixar cair palitos eram descontadas de salários já pequenos. A greve de 1888 e as pesquisas médicas sobre a necrose transformaram o fósforo em símbolo da luta por regulação industrial.
No século XX, o fósforo tornou-se objeto de monopólios fiscais, porque o consumo era enorme, regular e fácil de tributar. A carteira de fósforos de papel, patenteada por Joshua Pusey em 1892 e distribuída de graça por hotéis e restaurantes, virou um dos primeiros suportes de propaganda de massa.
06No Brasil
As primeiras fábricas de fósforos do Brasil surgiram no fim do século XIX, no Rio de Janeiro e em São Paulo, substituindo o produto importado da Europa, e o setor atraiu capital sueco, dono da tecnologia do fósforo de segurança. Ao longo do século XX, a marca Fiat Lux, controlada por décadas pelo grupo Swedish Match, tornou-se sinônimo de fósforo no país, acompanhada de marcas regionais como Pinheiro. As caixinhas de papelão com rótulos ilustrados viraram objeto de coleção e peça de memória doméstica.
O fósforo manteve no Brasil uma presença maior do que em muitos países ricos, pela difusão do fogão a gás com acendimento manual e do fogão a lenha, ainda usado em parte das casas rurais. Hoje o palito concorre com o isqueiro descartável e o acendedor elétrico, mas segue presente no churrasco, nas velas de aniversário e nas festas juninas, e aparece em expressões populares como riscar o fósforo.
07Linha do tempo
- c. 950
Textos chineses descrevem gravetos de pinho com enxofre que acendem ao tocar uma brasa.
- 1680
Robert Boyle e Ambrose Godfrey produzem fogo com fósforo e enxofre em Londres.
- 1826
John Walker cria em Stockton-on-Tees o primeiro fósforo de fricção.
- 1830
Charles Sauria introduz o fósforo branco na cabeça do palito.
- 1844
Gustaf Erik Pasch patenteia na Suécia o princípio do fósforo de segurança.
- 1855
Os irmãos Lundström apresentam o fósforo de segurança de Jönköping na Exposição de Paris.
- 1888
Operárias da Bryant & May entram em greve em Londres.
- 1906
A Convenção de Berna proíbe o fósforo branco na fabricação de fósforos.
08Comparativo
| Aspecto | Fósforo de 1830 | Fósforo de segurança atual |
|---|---|---|
| Substância ativa | Fósforo branco na cabeça | Fósforo vermelho na lixa da caixa |
| Onde acende | Em qualquer superfície áspera | Apenas na lixa própria |
| Risco à saúde | Tóxico para operários e usuários | Considerado seguro |
| Risco de incêndio | Alto, acendia no bolso | Baixo |
| Palito | Madeira com cabeça grande | Madeira ou papel com cabeça pequena |
| Regulação | Nenhuma | Normas internacionais desde 1906 |
09Perguntas frequentes
Por que o fósforo só acende na lixa da caixa?
Porque a reação precisa de dois ingredientes separados: o clorato de potássio da cabeça e o fósforo vermelho da lixa. O atrito converte uma pequena quantidade de fósforo vermelho em branco, que inflama e acende a cabeça.
Quem inventou o fósforo?
O farmacêutico inglês John Walker criou o fósforo de fricção em 1826. O fósforo de segurança, usado até hoje, foi patenteado pelo sueco Gustaf Erik Pasch em 1844 e aperfeiçoado pelos irmãos Lundström na década seguinte.
O fósforo ainda faz mal à saúde?
Não nas versões atuais. O fósforo branco, tóxico, foi banido por acordo internacional em 1906. O fósforo vermelho da lixa é estável em condições normais de uso.
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11Fontes consultadas
- Louis Figuier, Les Merveilles de la science, capítulo sobre as allumettes chimiques, Paris, 1870
- Herbert Manchester, The Diamond Match Company: A Century of Service, of Progress, and of Growth, 1935
- Louise Raw, Striking a Light: The Bryant and May Matchwomen and Their Place in History, Bloomsbury, 2009
- Preston Park Museum, Stockton-on-Tees, acervo sobre John Walker
- Tändsticksmuseet (Museu do Fósforo), Jönköping, Suécia
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