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Verbete nº 006 · Objetos domésticos

Vela

Durante dois mil anos foi a principal luz da noite; hoje sobrevive como rito, perfume e socorro em apagões.

Antiguidade Iluminar e aquecer Utensílio Roma antiga e China (origens paralelas) · c. 500 a.C.
Vela: Durante dois mil anos foi a principal luz da noite; hoje sobrevive como rito, perfume e socorro em apagões.
Imagem: Titus Tscharntke · Wikimedia Commons · domínio público

01Origem

Antes da vela existiu a lamparina, um recipiente com óleo e um pavio. A vela inverte a lógica: o combustível é sólido e envolve o pavio, derretendo aos poucos conforme a chama avança. Não há consenso sobre onde ela surgiu. Os romanos, por volta de 500 a.C., mergulhavam fios de papiro enrolados em sebo derretido, criando velas rudimentares, e a palavra candela vem do latim. Na China da dinastia Qin há relatos de velas de gordura de baleia, e no Japão e na Índia usaram-se ceras vegetais, extraídas de árvores e de canela.

Os egípcios usavam tochas de junco embebido em gordura, que muitos autores consideram precursoras, mas que não têm pavio central nem corpo sólido moldado. O que caracteriza a vela propriamente dita é a combinação de pavio e combustível sólido formado ao redor dele. Candelabros e castiçais romanos, encontrados em escavações, mostram que o objeto já era comum em casas abastadas no início da era cristã, embora a lamparina a óleo continuasse dominante no Mediterrâneo, onde o azeite era abundante.

Na Europa medieval, com o azeite escasso ao norte dos Alpes, a vela se tornou a principal fonte de luz artificial. Havia duas matérias-primas e duas classes: a cera de abelha, limpa, perfumada e cara, queimava em igrejas e palácios; o sebo de boi ou de carneiro, barato, fumacento e malcheiroso, iluminava as casas comuns. Corporações de cerieiros e de fabricantes de velas de sebo surgiram em Paris e Londres no século XIII, com regras próprias sobre qualidade e preço.

02Período histórico

A Idade Média europeia foi o mundo da vela. A noite era longa e perigosa, e a luz artificial, cara. Famílias camponesas iam dormir com o sol ou se reuniam ao redor da lareira; a vela de sebo era acesa com parcimônia e apagada cedo. A Igreja era a maior consumidora de cera, usada em missas, procissões e funerais, e mantinha ligação direta com a apicultura dos mosteiros.

No século XVIII, a caça à baleia abriu um novo capítulo. O espermacete, substância cerosa extraída da cabeça do cachalote, produzia velas brancas, duras e de chama brilhante, as melhores até então. Fabricadas sobretudo na Nova Inglaterra a partir da década de 1750, serviram de padrão de luminosidade: a candela, unidade de intensidade luminosa, foi definida originalmente a partir da chama de uma vela de espermacete.

03Evolução ao longo do tempo

  1. Sebo e cera de abelha

    Durante mais de mil anos a vela foi feita por imersão, mergulhando o pavio repetidas vezes no sebo ou na cera, ou por moldagem em formas. O sebo precisava ser aparado constantemente, pois o pavio não queimava por completo e a chama diminuía. A cera de abelha, de melhor qualidade, ficava reservada ao culto e às elites. Em muitas regiões a fabricação era tarefa doméstica, feita no outono, após o abate de animais.

  2. Espermacete e química

    O espermacete do cachalote elevou o padrão no século XVIII. Pouco depois, a química aplicada mudou tudo: em 1823 Michel Eugène Chevreul descreveu os ácidos graxos, e com Joseph Louis Gay-Lussac patenteou em 1825 a vela de estearina, mais dura e sem cheiro. No mesmo ano, Jean-Jacques de Cambacérès introduziu o pavio trançado, que se curva e se consome sozinho ao queimar, eliminando a necessidade de aparar a vela.

  3. Parafina e produção industrial

    A parafina, derivada do petróleo e do xisto, chegou na década de 1850 com o processo de James Young, na Escócia, e tornou-se o combustível mais barato da história da vela. Antes disso, em 1834, Joseph Morgan patenteara uma máquina de moldar com cilindro e pistão que ejetava as velas prontas, permitindo produção contínua. A vela industrial de parafina, branca e uniforme, passou a ser vendida em caixas em qualquer mercearia.

  4. Da necessidade ao ritual

    A lâmpada de querosene, o gás e, a partir das décadas de 1880 e 1890, a eletricidade aposentaram a vela como fonte principal de luz nas cidades. Ela se refugiou no culto, nas festas, nos jantares e nas emergências. No século XXI a indústria de velas perfumadas e decorativas, à base de parafina, soja ou cera de abelha, movimenta bilhões de dólares, e a vela de aniversário continua sendo um rito quase universal.

04Fatos curiosos

  • A candela, unidade de intensidade luminosa do Sistema Internacional, descende da antiga candle power inglesa, definida pela chama de uma vela de espermacete de peso e taxa de queima determinados.
  • Velas marcadas com linhas horizontais serviram como relógio na Idade Média; a tradição atribui ao rei Alfredo, o Grande, no século IX, o uso de velas que queimavam em intervalos regulares para dividir o dia.
  • O pavio trançado curva-se para fora da chama ao queimar, o que o faz se consumir sozinho. Antes dele, era preciso usar a espevitadeira, pequena tesoura para aparar o pavio.
  • A expressão o jogo não vale a vela, usada em francês e em português, nasceu quando a aposta era tão baixa que não pagava sequer a vela que iluminava a mesa.
  • A cera de carnaúba, palmeira nativa do Nordeste brasileiro, tem ponto de fusão alto e por isso produzia velas que não amoleciam no calor dos trópicos, exportadas desde o século XIX.

05Contexto social

A vela separou classes pela qualidade da luz. Palácios e catedrais brilhavam com cera de abelha, enquanto a maioria vivia à luz fumacenta do sebo ou simplesmente sem luz, e o custo da iluminação era parcela relevante do orçamento doméstico até o século XIX. Em alguns países, velas chegaram a ser tributadas, como na Inglaterra, que cobrou imposto sobre elas entre 1709 e 1831 e proibiu a fabricação doméstica sem licença.

Na vida religiosa a vela ganhou significado que sobrevive à sua função: a chama como presença, oração, memória e passagem. Igrejas católicas e ortodoxas, o judaísmo, com a menorá e as velas do shabat, e tradições de matriz africana usam velas em ritos centrais. A vela também marca aniversários, vigílias e protestos, onde a luz coletiva vira símbolo de solidariedade.

06No Brasil

No Brasil colonial, a iluminação doméstica dependia de lamparinas de azeite de peixe ou de mamona e de velas de sebo, produzidas nas fazendas e, no Sul, nas charqueadas, que aproveitavam a gordura do gado abatido. A cera de abelha era importada ou colhida de abelhas nativas sem ferrão e ficava reservada às igrejas. No século XIX, o Ceará e o Piauí passaram a exportar cera de carnaúba, que serviu tanto para velas resistentes ao calor quanto, mais tarde, para polidores e cosméticos.

A vela segue muito presente na cultura popular. O Círio de Nazaré, em Belém, leva o nome do grande círio de cera carregado na procissão desde 1793; a Igreja da Candelária, no Rio de Janeiro, é dedicada à festa das velas; velas de sete dias acendem-se em promessas e em terreiros de umbanda e candomblé, e no Dia de Finados os cemitérios se cobrem de chamas. A vela também é item obrigatório nas casas por causa das quedas de energia.

07Linha do tempo

  1. c. 500 a.C.

    Romanos produzem velas mergulhando pavios de papiro em sebo derretido.

  2. Século XIII

    Corporações de cerieiros e fabricantes de velas de sebo se organizam em Paris e Londres.

  3. Década de 1750

    Velas de espermacete passam a ser fabricadas na Nova Inglaterra.

  4. 1793

    Primeira procissão do Círio de Nazaré em Belém do Pará.

  5. 1825

    Chevreul e Gay-Lussac patenteiam a vela de estearina; Cambacérès introduz o pavio trançado.

  6. 1834

    Joseph Morgan patenteia a máquina de moldar velas em série.

  7. 1850

    James Young patenteia a obtenção de parafina, que se tornará a principal matéria-prima.

  8. 1879

    A lâmpada incandescente de Edison inicia a substituição da vela como fonte principal de luz.

08Comparativo

Vela: do sebo medieval à parafina industrial
AspectoVela de sebo medievalVela atual
Matéria-primaGordura de boi ou carneiroParafina, soja, estearina ou cera de abelha
PavioFio de linho, precisava ser aparadoAlgodão trançado, autoconsumível
Cheiro e fumaçaFortesMínimos ou perfumados
FabricaçãoDoméstica, por imersãoIndustrial, moldada em série
FunçãoÚnica fonte de luz noturnaRito, decoração e emergência

09Perguntas frequentes

Quem inventou a vela?

Não há um inventor. Romanos faziam velas de sebo com pavio de papiro por volta de 500 a.C., e há registros paralelos na China. A vela moderna de estearina e parafina é fruto da química do século XIX.

Qual a diferença entre vela de sebo e de cera?

O sebo é gordura animal: barato, fumacento e de cheiro forte. A cera de abelha queima limpa e perfumada, mas sempre custou muito mais, por isso ficava reservada a igrejas e palácios.

Do que são feitas as velas hoje?

A maioria é de parafina, derivada do petróleo, às vezes misturada com estearina. Velas de soja, de cera de abelha e de carnaúba atendem ao mercado decorativo e artesanal.

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11Fontes consultadas

  • Jane Brox, Brilliant: The Evolution of Artificial Light, 2010
  • A. Roger Ekirch, At Day's Close: Night in Times Past, 2005
  • Michel Eugène Chevreul, Recherches chimiques sur les corps gras d'origine animale, 1823
  • Enciclopédia Britânica, verbete Candle
  • Iphan, dossiê de registro do Círio de Nossa Senhora de Nazaré como patrimônio imaterial, 2004

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