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Verbete nº 060 · Curiosidades de objetos antigos

Moeda

Inventada há 2.600 anos para pesar confiança, a moeda metálica está sendo aposentada pelo dinheiro que não se toca.

Antiguidade Medir e organizar Sistema ou técnica Lídia, atual Turquia · c. 650-600 a.C.
Moeda: Inventada há 2.600 anos para pesar confiança, a moeda metálica está sendo aposentada pelo dinheiro que não se toca.
Imagem: Szilas · Wikimedia Commons · CC0 (domínio público)

01Origem

Antes da moeda, o comércio já usava metal como medida de valor: lingotes de prata pesados em balança circulavam na Mesopotâmia dois mil anos antes de Cristo, e anéis, barras e armas serviam de pagamento em muitos lugares. O que a moeda acrescentou foi a garantia. Um pedaço de metal com peso e pureza fixos, marcado por uma autoridade que responde por ele, dispensa a balança e a desconfiança a cada troca. É esse selo, mais que o metal, que define o objeto.

Os historiadores aceitam que as primeiras moedas foram cunhadas na Lídia, reino da atual Turquia ocidental, entre meados e o fim do século VII a.C. Heródoto, escrevendo dois séculos depois, atribui aos lídios a invenção do dinheiro de ouro e prata, e as peças mais antigas, encontradas no templo de Ártemis em Éfeso, são pequenas gotas de electro, liga natural de ouro e prata, com a figura de um leão de um lado e marcas de punção do outro. Sob o rei Creso, por volta de 550 a.C., a Lídia passou a cunhar peças separadas de ouro puro e prata pura, o primeiro sistema bimetálico.

A invenção não foi única. Na China, sob a dinastia Zhou, circulavam desde o século VII ou VI a.C. moedas de bronze em forma de pá e de faca, substituídas em 221 a.C. pela moeda redonda com furo quadrado do primeiro imperador, que durou mais de dois mil anos. Na Índia, moedas de prata marcadas a punção aparecem por volta do século VI a.C. As cidades gregas adotaram a ideia lídia com rapidez e espalharam-na pelo Mediterrâneo, e Roma a levou até a Britânia e o deserto da Síria.

02Período histórico

A moeda nasce no mundo das cidades-Estado do Mediterrâneo oriental, em que mercenários, templos e tributos exigiam pagamentos padronizados. Muitos estudiosos acham que as primeiras peças serviam menos ao comércio de rua, para o qual eram valiosas demais, e mais ao pagamento de soldados e à arrecadação de impostos pelo Estado. Só com as frações pequenas de prata e bronze, nos séculos seguintes, a moeda chegou ao mercado cotidiano.

Roma transformou a cunhagem em política. O denário de prata, criado em 211 a.C., financiou as legiões, e a oficina ficava junto ao templo de Juno Moneta, no Capitólio, de onde vem a palavra 'moeda'. Imperadores do século III a.C. em diante reduziram a prata das peças para pagar despesas, provocando inflação e desconfiança.

03Evolução ao longo do tempo

  1. Martelo, prensa e bordas serrilhadas

    Por quase dois mil anos, a moeda foi feita a martelo: um disco de metal era colocado entre dois cunhos e golpeado. O resultado era irregular, fácil de aparar nas bordas para roubar metal. No século XVI, oficinas de Augsburgo e depois de Paris introduziram a prensa de balancim, com peso e rosca, que produzia discos uniformes. Na Inglaterra, a partir de 1662, as bordas serrilhadas e as legendas em relevo dificultaram a fraude. A Casa da Moeda de Londres, sob Isaac Newton como diretor, a partir de 1699, foi um dos centros dessa modernização.

  2. O papel e o fim do lastro

    A China da dinastia Song emitiu papel-moeda no século XI, e a Europa só o adotou de forma duradoura no século XVII, com o banco de Estocolmo em 1661 e o Banco da Inglaterra em 1694. Durante dois séculos, a nota prometia conversão em metal, e a moeda de ouro ou prata seguiu sendo o dinheiro de verdade. Esse vínculo rompeu-se em etapas: as guerras mundiais suspenderam a conversão, e em 1971 os Estados Unidos abandonaram o padrão-ouro. A moeda metálica passou a valer apenas pelo número gravado nela.

  3. O disco que custa mais do que vale

    Desde o fim do século XX, as moedas de menor valor custam mais para fabricar do que representam. O Canadá parou de cunhar o centavo em 2012; a Austrália, a Nova Zelândia e vários países europeus aposentaram suas frações mínimas. Cartões, transferências instantâneas e carteiras digitais reduziram o uso de dinheiro físico, e na Suécia menos de um décimo dos pagamentos ocorre em espécie. A moeda não desapareceu, mas deixou de ser o centro do sistema que inventou: hoje é um resíduo tolerado, caro de produzir e de transportar.

04Fatos curiosos

  • A palavra 'moeda' vem de Juno Moneta, título da deusa junto a cujo templo funcionava a oficina de cunhagem de Roma; 'money' e 'monnaie' têm a mesma origem.
  • As primeiras moedas lídias não tinham valor escrito; o peso, cerca de 4,7 gramas na unidade maior, era a própria denominação.
  • A moeda chinesa redonda com furo quadrado permitia enfiar as peças em cordões de mil unidades, e o cordão funcionava como uma nota de valor alto.
  • A Casa da Moeda do Brasil, criada em 1694, é uma das instituições mais antigas do país em funcionamento contínuo.

05Contexto social

A moeda sempre foi um instrumento de poder antes de ser um meio de troca. Cunhar era prerrogativa de reis, cidades e imperadores, e a imagem na face da moeda, o leão lídio, a coruja de Atenas, o rosto de César, foi a primeira forma de propaganda de massa. Quem controlava a moeda controlava os soldados, os impostos e a confiança pública; quem a falsificava enfrentava a morte em quase todas as legislações da história.

Para a maioria das pessoas, porém, a moeda significou a entrada no mercado. Camponeses que pagavam tributos em grão ou trabalho passaram, ao longo dos séculos, a vender, comprar e poupar em metal, e as frações de bronze e cobre foram o dinheiro das mulheres, dos escravizados que compravam a própria alforria e dos trabalhadores diaristas. A moeda miúda era, por isso, a mais usada e a mais gasta.

O declínio do dinheiro físico redistribui essa história. Pagamentos eletrônicos dependem de conta bancária, celular e rede, e deixam de fora quem não os tem. Manter moedas e notas em circulação virou, por isso, um debate sobre inclusão e privacidade.

06No Brasil

Nas primeiras décadas da colônia circulavam no Brasil moedas portuguesas e, sobretudo, os reales de prata espanhóis, apelidados de patacas. As primeiras moedas cunhadas em território brasileiro foram as peças de emergência dos holandeses em Pernambuco, em 1645 e 1646: quadrados de ouro e prata marcados pela Companhia das Índias Ocidentais para pagar as tropas sitiadas. A Casa da Moeda foi criada em 1694, em Salvador, para reaproveitar a prata que chegava do Rio da Prata; passou pelo Rio de Janeiro e por Pernambuco e fixou-se no Rio em 1703, a tempo de cunhar o ouro das Minas Gerais.

O real, no plural réis, foi a unidade brasileira de 1500 a 1942, quando o cruzeiro o substituiu. Entre 1942 e 1994, a inflação obrigou o país a trocar de moeda oito vezes, do cruzeiro ao real atual, e cada troca aposentou toneladas de discos metálicos. O Banco Central deixou de cunhar a moeda de um centavo em 2005, porque custava mais do que valia. Com o Pix, de 2020, o Brasil tornou-se um dos países em que o dinheiro físico recua mais depressa, embora moedas e notas ainda circulem em feiras, transporte e comércio informal.

07Linha do tempo

  1. c. 650-600 a.C.

    A Lídia cunha as primeiras moedas de electro com marca real.

  2. c. 550 a.C.

    O rei Creso separa ouro e prata e cria o primeiro sistema bimetálico.

  3. 221 a.C.

    O primeiro imperador da China unifica a moeda redonda com furo quadrado.

  4. 211 a.C.

    Roma cria o denário de prata, moeda das legiões por séculos.

  5. séc. XI

    A dinastia Song emite o primeiro papel-moeda de uso amplo.

  6. 1645

    Holandeses cunham em Pernambuco as primeiras moedas feitas no Brasil.

  7. 1694

    Criação da Casa da Moeda em Salvador.

  8. 1971

    Os Estados Unidos abandonam a conversão do dólar em ouro; o dinheiro passa a valer por decreto.

  9. 2020

    O Banco Central lança o Pix e acelera o recuo do dinheiro físico no Brasil.

08Comparativo

Moeda antiga e moeda contemporânea
AspectoLídia, séc. VI a.C.Brasil, hoje
MetalElectro, ouro e prataAço revestido de cobre, bronze ou níquel
ValorIgual ao peso do metalFixado por lei, sem lastro
FabricaçãoGolpe de martelo sobre cunhoPrensas automáticas com milhares de peças por minuto
Função principalPagar soldados e tributosTroco de pequenas compras
ConcorrenteLingotes pesados em balançaCartões, Pix e carteiras digitais

09Perguntas frequentes

Quem inventou a moeda?

As primeiras peças conhecidas vêm da Lídia, na atual Turquia, entre 650 e 600 a.C. A China e a Índia desenvolveram moedas próprias de forma independente pouco depois.

Quais foram as primeiras moedas cunhadas no Brasil?

As peças de emergência dos holandeses em Pernambuco, em 1645 e 1646. A Casa da Moeda portuguesa só foi criada em 1694, em Salvador.

A moeda metálica vai desaparecer?

Está em declínio: vários países já aposentaram as frações mínimas, e pagamentos eletrônicos dominam. Mas moedas seguem úteis onde não há rede, conta bancária ou energia.

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11Fontes consultadas

  • Heródoto, Histórias, livro I, século V a.C.
  • Philip Grierson, Numismatics, Oxford University Press, 1975
  • Museu de Valores do Banco Central do Brasil, Brasília, acervo numismático
  • Casa da Moeda do Brasil, História da Casa da Moeda, 1984
  • Glyn Davies, A History of Money from Ancient Times to the Present Day, University of Wales Press, 1994

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