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Verbete nº 062 · Curiosidades de objetos antigos

Fonógrafo

Em 1877, um cilindro de estanho guardou uma voz pela primeira vez; meio século depois, o disco e o rádio o aposentaram.

Século XIX Comunicar Aparelho ou máquina Menlo Park, Nova Jersey, Estados Unidos · 1877
Fonógrafo: Em 1877, um cilindro de estanho guardou uma voz pela primeira vez; meio século depois, o disco e o rádio o aposentaram.
Imagem: Anonymous · Wikimedia Commons · domínio público

01Origem

A ideia de registrar o som precede a de reproduzi-lo. Em 1857, o francês Édouard-Léon Scott de Martinville patenteou o fonautógrafo, que traçava as vibrações da voz numa folha enegrecida por fumaça, para estudo visual, sem qualquer meio de tocá-las de volta. Uma de suas folhas, de 1860, com um trecho de 'Au clair de la lune', foi convertida em áudio por pesquisadores em 2008 e é hoje a gravação mais antiga conhecida de uma voz humana. Em abril de 1877, outro francês, Charles Cros, depositou na Academia de Ciências de Paris a descrição de um aparelho capaz de gravar e reproduzir, o paleofone, mas nunca o construiu.

Thomas Edison chegou ao resultado por outro caminho. Trabalhando em melhorias para o telégrafo e o telefone, ele percebeu que a agulha de um diafragma, movida pela voz, podia marcar uma superfície em movimento, e que a mesma agulha, percorrendo as marcas, faria o diafragma vibrar de novo. Em dezembro de 1877, seu mecânico John Kruesi montou o aparelho: um cilindro de latão coberto de folha de estanho, girado à mão, com um diafragma de cada lado. A primeira gravação foi a cantiga 'Mary had a little lamb', recitada pelo próprio Edison. A patente foi concedida em 19 de fevereiro de 1878.

O fonógrafo de estanho era uma maravilha de curta duração: a folha se rasgava após poucas audições e o som era quase ininteligível. Edison o pôs de lado por quase dez anos, dedicado à lâmpada elétrica. Nesse intervalo, Alexander Graham Bell, Chichester Bell e Charles Tainter, no Laboratório Volta, em Washington, substituíram o estanho por cilindros de cera e a agulha rígida por um estilete flutuante, e patentearam o grafofone em 1886. Edison respondeu com o 'fonógrafo aperfeiçoado' de 1888, também em cera, e a corrida comercial começou.

02Período histórico

O fonógrafo nasce no mesmo surto de invenções que produziu o telefone, em 1876, e a lâmpada incandescente, em 1879. Os Estados Unidos do pós-Guerra Civil, com ferrovias, telégrafos e capital abundante, criaram o laboratório industrial, e Menlo Park foi o primeiro: uma oficina em que equipes de mecânicos e químicos trabalhavam em série sobre ideias do chefe.

Ninguém sabia, no início, para que servia a máquina. O próprio Edison listou usos como ditado de cartas, livros para cegos, ensino de línguas, registro de últimas palavras de moribundos e relógios falantes; a música aparecia no fim da lista. Foi o público dos salões de diversão com fonógrafos a moeda, na década de 1890, que ensinou aos fabricantes que as pessoas pagariam para ouvir canções e bandas.

03Evolução ao longo do tempo

  1. Cilindro contra disco

    Em 1887, o alemão radicado nos Estados Unidos Emile Berliner patenteou o gramofone, que gravava em um disco plano, com o sulco traçado lateralmente, e não em um cilindro. O disco tinha uma vantagem industrial decisiva: podia ser prensado aos milhares a partir de uma matriz metálica, enquanto cada cilindro de cera era, no início, gravado individualmente. Com a goma-laca como material a partir de meados da década de 1890 e a Victor Talking Machine Company, fundada em 1901, o disco venceu. Edison resistiu até 1929, quando encerrou a produção de cilindros e de fonógrafos.

  2. O cão, a corneta e a vitrola

    A pintura de um fox terrier escutando um gramofone, feita por Francis Barraud em 1898 e comprada pela Gramophone Company, tornou-se a marca 'His Master's Voice' e um dos logotipos mais reconhecidos do século XX. Em 1906, a Victor escondeu a corneta dentro de um móvel de madeira e chamou o aparelho de Victrola; a palavra, no Brasil, virou 'vitrola', nome genérico de qualquer toca-discos até os anos 1980.

  3. Elétrico, vinil e digital

    Em 1925, a gravação elétrica, com microfone e amplificador, aposentou a corneta de captação e deu ao disco frequências que a gravação acústica não registrava. O rádio, na mesma década, ofereceu música de graça e quase matou a indústria fonográfica. O vinil de longa duração da Columbia, em 1948, e o compacto de 45 rotações da RCA, em 1949, substituíram a goma-laca; a fita cassete, em 1963, e o CD, em 1982, substituíram o vinil; o MP3 e o streaming substituíram o objeto. Do fonógrafo original sobreviveu o princípio, agulha em sulco, que o vinil, em retomada desde 2007, mantém vivo.

04Fatos curiosos

  • A gravação mais antiga de uma voz, de 1860, foi feita sem intenção de ser ouvida: o fonautógrafo de Scott servia apenas para desenhar o som no papel.
  • Os primeiros cilindros comerciais eram gravados em lotes: o cantor repetia a música diante de várias máquinas ao mesmo tempo, dezenas de vezes por dia.
  • O prêmio Grammy, criado em 1959, tem esse nome e formato por causa do gramofone de Berliner, não do fonógrafo de Edison.
  • A rotação de 78 por minuto dos discos de goma-laca não foi planejada: resultou da combinação entre o motor elétrico padrão de 3.600 rpm e a engrenagem de redução de 46 para 1.

05Contexto social

O fonógrafo foi o primeiro aparelho a separar a música de quem a executava. Até 1877, ouvir uma canção exigia alguém cantando ou tocando no mesmo lugar e na mesma hora; depois, a música tornou-se um produto que se compra, guarda e repete. Isso criou a indústria fonográfica, o cantor como celebridade nacional, e também as primeiras disputas sobre direitos autorais de execução, que os compositores levaram aos tribunais já na década de 1900.

Nos primeiros anos, o aparelho era caro, e a audição era coletiva: salões com máquinas a moeda e tubos de escuta, demonstrações em feiras, sessões em clubes. Quando o preço caiu, no início do século XX, o gramofone virou objeto da sala de estar das famílias de classe média, e escolher discos passou a ser um gesto de identidade.

06No Brasil

O fonógrafo chegou ao Brasil nas mãos de exibidores itinerantes nos anos 1890, e um deles, o imigrante tcheco Frederico Figner, percorreu cidades do Norte e do Nordeste cobrando ingresso para que o público ouvisse a máquina. Em 1900, Figner abriu no Rio de Janeiro a Casa Edison, loja de fonógrafos e cilindros na Rua do Ouvidor, e em 1902 iniciou as primeiras gravações comerciais feitas no país. O lundu 'Isto é bom', de Xisto Bahia, cantado por Baiano, é considerado a primeira gravação brasileira, e em 1917 o mesmo Baiano registrou 'Pelo telefone', o primeiro samba gravado. Em 1913, Figner inaugurou no Rio uma fábrica de discos, a Odeon, tida como a primeira da América Latina.

A Casa Edison documentou modinhas, lundus, maxixes e, depois, o samba, e os discos do seu catálogo, guardados hoje em instituições como o Instituto Moreira Salles, são a fonte principal para conhecer a música urbana brasileira do início do século XX. O aparelho, por sua vez, perdeu o nome: o brasileiro chamou o toca-discos de vitrola por décadas, e 'fonógrafo' ficou restrito aos museus e aos textos de história.

07Linha do tempo

  1. 1857

    Scott de Martinville patenteia o fonautógrafo, que desenha o som sem reproduzi-lo.

  2. abr. 1877

    Charles Cros descreve o paleofone na Academia de Ciências de Paris, sem construí-lo.

  3. dez. 1877

    Edison demonstra o fonógrafo de folha de estanho em Menlo Park.

  4. 1886-1888

    O grafofone de Bell e Tainter e o fonógrafo aperfeiçoado de Edison adotam cilindros de cera.

  5. 1887

    Emile Berliner patenteia o gramofone de disco plano.

  6. 1902

    A Casa Edison, no Rio de Janeiro, inicia as primeiras gravações comerciais do Brasil.

  7. 1925

    A gravação elétrica com microfone substitui a corneta de captação.

  8. 1929

    Edison encerra a produção de cilindros e fonógrafos; o disco vence.

  9. 1948

    A Columbia lança o LP de vinil, que aposenta a goma-laca.

08Comparativo

Fonógrafo de Edison e gramofone de Berliner
AspectoFonógrafo, 1877-1888Gramofone, 1887-1901
SuporteCilindro de estanho ou ceraDisco plano de goma-laca
SulcoVertical, por profundidadeLateral, em espiral
Gravação pelo usuárioPossívelImpossível; só reprodução
Produção em sérieDifícil; cópias de molde a partir de 1901Prensagem a partir de matriz metálica
DestinoAbandonado em 1929Base de todos os discos até o CD

09Perguntas frequentes

Qual é a diferença entre fonógrafo e gramofone?

O fonógrafo de Edison usava cilindros com sulco vertical e permitia gravar em casa; o gramofone de Berliner usava discos planos com sulco lateral, só reproduzia e podia ser prensado em massa.

Por que o fonógrafo saiu de uso?

O disco era mais barato de produzir e guardar, a gravação elétrica e o rádio mudaram o padrão de som, e Edison abandonou os cilindros em 1929.

Qual foi a primeira gravação feita no Brasil?

O lundu 'Isto é bom', de Xisto Bahia, cantado por Baiano para a Casa Edison, no Rio de Janeiro, em 1902.

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11Fontes consultadas

  • Oliver Read e Walter L. Welch, From Tin Foil to Stereo: Evolution of the Phonograph, Howard W. Sams, 1976
  • David L. Morton, Sound Recording: The Life Story of a Technology, Johns Hopkins University Press, 2006
  • Humberto M. Franceschi, A Casa Edison e seu tempo, Sarapuí, 2002
  • Thomas A. Edison Papers, Rutgers University, documentos sobre o fonógrafo de 1877-1878
  • Instituto Moreira Salles, acervo de discos de 78 rotações e Coleção Humberto Franceschi

Este verbete foi redigido e revisado pela equipe editorial do Daily's Treasures a partir das fontes acima. Encontrou um erro? Escreva para nós.