01Origem
A ideia de mandar uma mensagem sem envelope, em cartão aberto e mais barato que a carta, foi proposta em 1865 por Heinrich von Stephan, funcionário dos correios prussianos, numa conferência postal em Karlsruhe, e rejeitada por se considerar indecoroso expor a correspondência. Quatro anos depois, Emanuel Herrmann, professor de economia em Wiener Neustadt, defendeu em artigo de jornal um cartão de poucas palavras com tarifa reduzida. O correio austríaco aceitou, e em 1º de outubro de 1869 lançou a Correspondenz-Karte, cartolina amarelada com selo impresso e espaço para o endereço de um lado e a mensagem do outro. Em três meses, quase três milhões foram vendidos.
Houve antecedentes privados. Em 1861, John P. Charlton, de Filadélfia, registrou um cartão postal cujos direitos passou a Hymen Lipman, o mesmo do lápis com borracha, que o vendeu como 'Lipman's Postal Card'. Mas foi o modelo oficial austríaco que se espalhou: a Confederação da Alemanha do Norte e a Suíça o adotaram em 1870, o Reino Unido em outubro do mesmo ano, os Estados Unidos em 1873. No início, os cartões eram emitidos exclusivamente pelos correios, sem imagem, e seu atrativo era o preço, metade do de uma carta.
A ilustração chegou com a Guerra Franco-Prussiana. O livreiro francês Léon Besnardeau, de Sillé-le-Guillaume, imprimiu em 1870 cartões com motivos patrióticos para soldados acampados na região, e editores alemães e austríacos começaram a vender, na década de 1870, cartões com vistas de cidades e a saudação 'Gruss aus', 'saudações de'. A fotografia e a cromolitografia barata fizeram o resto. Os cartões da Torre Eiffel vendidos na Exposição de 1889 e a liberalização dos correios, que passaram a aceitar cartões impressos por particulares, abriram a era de ouro.
02Período histórico
O cartão-postal nasceu quando os correios europeus, reformados pelo exemplo britânico de 1840, buscavam ampliar o volume de correspondência com tarifas baixas, e quando trens e navios a vapor tornavam a viagem de lazer possível para a classe média. A União Postal Universal, de 1874, garantiu que um cartão enviado de Viena chegasse a Lisboa ou ao Rio com uma única tarifa.
Entre 1898 e 1918, a Belle Époque viveu a 'cartomania': bilhões de cartões circularam, álbuns de postais ocupavam a sala de visitas, e correios com várias entregas diárias permitiam combinar um encontro à tarde por um cartão enviado de manhã. A Primeira Guerra interrompeu a produção alemã, que dominava o mercado, e encerrou a era de ouro.
03Evolução ao longo do tempo
O verso dividido
Nos primeiros cartões ilustrados, a imagem dividia a frente com a mensagem, e o verso era reservado ao endereço, o que obrigava a escrever nas margens da gravura. Em 1902, o correio britânico autorizou o 'verso dividido': uma linha vertical separava a mensagem, à esquerda, do endereço e do selo, à direita, liberando a frente para a imagem inteira. A França adotou o formato em 1904, a Alemanha em 1905 e os Estados Unidos em 1907. Esse desenho, que parece natural, é o que define o cartão-postal moderno.
Fotografia e cores
A cromolitografia alemã dos anos 1890 produzia cartões coloridos em grandes tiragens, muitos impressos em Leipzig ou Dresden a partir de fotografias enviadas de todo o mundo. Nos anos 1900, o 'cartão fotográfico real', revelado diretamente em papel sensível, permitiu que fotógrafos de cidade pequena registrassem enchentes, festas e desastres locais. Nos Estados Unidos, os cartões 'linen', de textura de linho e cores saturadas, dominaram as décadas de 1930 e 1940, até serem substituídos pelos 'chrome', fotográficos e brilhantes, a partir dos anos 1950.
Do souvenir ao arquivo
Depois da Segunda Guerra, o cartão-postal se fixou como lembrança de viagem, vendido em bancas de praia e lojas de museu. O telefone, o e-mail e depois a fotografia de celular com mensagem instantânea assumiram a função de 'estou aqui, estou bem'. Hoje os postais antigos interessam a historiadores e urbanistas como registro de ruas, prédios e costumes desaparecidos, e a deltiologia, nome do colecionismo de cartões, movimenta feiras e acervos digitais.
04Fatos curiosos
- A palavra deltiologia, para o colecionismo de postais, foi criada em 1945 pelo americano Randall Rhoades, a partir do grego deltion, pequena tabuinha de escrever.
- Estima-se que só na Alemanha mais de um bilhão de cartões tenham sido enviados em 1903, e cerca de 670 milhões nos Estados Unidos no ano fiscal de 1908.
- O cartão aberto preocupava moralistas: por ser lido pelo carteiro e pela família, criou um estilo de mensagem curta, cifrada ou cheia de fórmulas feitas.
- Cartões 'Gruss aus' do fim do século XIX combinavam várias vistas de uma cidade numa só página, antecedendo a colagem fotográfica.
- Durante a Primeira Guerra, cartões bordados em seda, feitos por mulheres francesas e belgas, foram o souvenir preferido dos soldados britânicos.
05Contexto social
O postal foi a comunicação escrita das classes populares e das mulheres. Barato e curto, não exigia o domínio da forma epistolar nem papel de carta; operários, empregadas domésticas e soldados o usavam para avisar que haviam chegado, que estavam bem ou que viriam no domingo. Fabricantes exploraram esse público com séries românticas, cômicas e de atrizes de teatro, e os censores das guerras aproveitaram a transparência do cartão.
Para as cidades, o cartão foi propaganda: vistas de avenidas recém-abertas, bondes, praias e monumentos construíram a imagem de modernidade que prefeituras e companhias ferroviárias queriam vender. Para o turismo nascente, foi o primeiro souvenir de massa. E para a história da fotografia, o cartão levou a imagem impressa à casa de pessoas que nunca haviam entrado num museu ou comprado um livro ilustrado.
06No Brasil
Os Correios do Brasil emitiram seu primeiro bilhete postal oficial em 1880, ainda no Império, com o brasão imperial e sem ilustração, seguindo o modelo europeu. Os cartões ilustrados se difundiram a partir do fim do século XIX, impressos em grande parte na Europa a partir de fotografias feitas aqui: Marc Ferrez e Augusto Malta registraram o Rio de Janeiro, e Guilherme Gaensly, São Paulo, e suas imagens circularam em milhares de cartões, hoje fonte essencial para o estudo das reformas urbanas de Pereira Passos e da expansão paulistana.
A Biblioteca Nacional, o Museu Paulista e o Instituto Moreira Salles guardam grandes coleções de postais brasileiros. No cotidiano atual, o cartão sobrevive nas bancas de praia, nas lojas de aeroporto e de museus e em projetos de troca de postais pela internet, de que o Brasil participa.
07Linha do tempo
- 1861
John P. Charlton registra um cartão postal privado na Filadélfia.
- 1865
Heinrich von Stephan propõe o cartão aberto na conferência de Karlsruhe.
- 1869
A Áustria lança a Correspondenz-Karte, primeiro cartão-postal oficial.
- 1870
Besnardeau imprime cartões ilustrados para soldados na França.
- 1880
Os Correios do Brasil emitem o primeiro bilhete postal nacional.
- 1889
Cartões da Torre Eiffel são vendidos na Exposição Universal de Paris.
- 1902
O Reino Unido autoriza o verso dividido, formato do cartão moderno.
- 1945
Randall Rhoades cria o termo deltiologia.
08Comparativo
| Aspecto | Cartão de 1870 | Cartão atual |
|---|---|---|
| Emissor | Apenas os correios | Qualquer editora ou fotógrafo |
| Frente | Texto da mensagem; sem imagem | Fotografia ou ilustração inteira |
| Verso | Endereço e selo impresso | Dividido entre mensagem, endereço e selo colado |
| Preço do porte | Metade do de uma carta | Tarifa própria, pouco usada |
| Função | Aviso rápido e cotidiano | Lembrança de viagem e objeto de coleção |
09Perguntas frequentes
Qual foi o primeiro cartão-postal?
O oficial foi a Correspondenz-Karte austríaca, de 1º de outubro de 1869, sem imagem. Cartões privados existiam desde 1861 nos Estados Unidos, e os ilustrados surgiram na década de 1870.
Por que a mensagem fica do lado do endereço?
Porque o 'verso dividido', autorizado no Reino Unido em 1902, liberou a frente inteira para a imagem. Antes, escrevia-se na frente, ao redor da gravura.
Cartões-postais antigos têm valor?
Sim, sobretudo os de cidades pequenas, de eventos e de fotógrafos conhecidos. Além do valor de coleção, são documentos usados por historiadores para reconstituir ruas e prédios desaparecidos.
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11Fontes consultadas
- Frank Staff, The Picture Postcard and Its Origins, 1966
- Bjarne Rogan, An Entangled Object: The Picture Postcard as Souvenir and Collectible, Cultural Analysis, 2005
- Fundação Biblioteca Nacional, coleção de cartões-postais
- Instituto Moreira Salles, acervo fotográfico de Marc Ferrez e Guilherme Gaensly
- Museu Nacional dos Correios, Brasília
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