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Verbete nº 048 · Trabalho e escritório

Fita adesiva

Um técnico de laboratório, pintores irritados e celofane: a fita que cola, descola e virou nome genérico.

Século XX Trabalhar e estudar Material ou substância Saint Paul, Minnesota, Estados Unidos · 1925
Fita adesiva: Um técnico de laboratório, pintores irritados e celofane: a fita que cola, descola e virou nome genérico.
Imagem: autor não identificado · Wikimedia Commons · domínio público

01Origem

Materiais que grudam sob pressão têm antecedentes médicos. Em 1845, o cirurgião norte-americano Horace Day patenteou um emplastro de tecido com adesivo de borracha, e no fim do século XIX empresas como a Johnson and Johnson vendiam esparadrapo em rolos. Esses produtos, porém, deixavam resíduo e não eram pensados para papel ou pintura. A fita adesiva como item de escritório e oficina nasceu de outro problema: a pintura de automóveis em duas cores, moda dos anos 1920, exigia proteger uma área enquanto se pintava a outra, e os pintores usavam jornal colado com cola de sapateiro, que ao ser removida arrancava a tinta.

Richard Drew, técnico de laboratório da Minnesota Mining and Manufacturing, a 3M, então fabricante de lixas, visitava oficinas de Saint Paul para testar produtos quando presenciou a frustração dos pintores. Passou dois anos experimentando papéis e adesivos até criar, em 1925, uma fita de papel crepado que protegia a superfície e saía sem danos. Segundo a tradição da empresa, um pintor teria mandado devolver a primeira versão, com adesivo só nas bordas, aos 'chefes escoceses', isto é, sovinas, por economizar cola; daí o nome Scotch, que a 3M assumiu como marca.

Em 1929, a DuPont começou a produzir celofane nos Estados Unidos, e embaladores de alimentos pediram à 3M uma fita que vedasse pacotes do material transparente. Drew desenvolveu um adesivo incolor que aderia ao celofane e, em setembro de 1930, a 3M enviou o primeiro rolo de fita transparente a um cliente em Chicago. Lançada no início da Grande Depressão, a fita se popularizou não pelo uso industrial previsto, mas pelos consertos domésticos: remendar livros, roupas, brinquedos e até cédulas. Em 1932, John Borden, gerente de vendas da 3M, criou o dispensador com lâmina serrilhada, que fez da fita um objeto de mesa.

02Período histórico

A fita adesiva é produto da química industrial da década de 1920, quando polímeros e solventes começaram a sair dos laboratórios para as fábricas. A 3M, fundada em 1902 para extrair um mineral abrasivo que se revelou inútil, sobrevivia fabricando lixas e apostava em pesquisa aplicada, política que o diretor William McKnight consolidou e que depois produziria o Post-it. Drew foi um dos primeiros a se beneficiar da liberdade de insistir em projetos que a chefia mandara abandonar.

A Grande Depressão deu sentido ao produto: em uma época em que consertar era obrigatório, a fita transparente permitia reparar sem custo visível. A Segunda Guerra Mundial ampliou a família, com fitas de tecido impermeável para selar caixas de munição e fitas isolantes, e o pós-guerra transformou a fita em commodity de escritório, escola e casa, vendida em dezenas de variantes.

03Evolução ao longo do tempo

  1. Fita crepe e fita de celofane

    As duas fitas de Drew definiram as categorias básicas: a de papel, opaca e removível, para proteger superfícies, e a transparente, para unir e vedar. Ambas usavam adesivo à base de borracha natural, resinas e óleos, que amarelava e ressecava com o tempo, problema visível em livros e documentos remendados nas décadas de 1930 e 1940, que conservadores hoje precisam limpar.

  2. Fitas de guerra e de trabalho pesado

    Durante a Segunda Guerra, a divisão Permacel da Johnson and Johnson produziu uma fita de tecido impermeável, com adesivo de borracha, para selar caixas de munição; a sugestão é atribuída à operária Vesta Stoudt, que escreveu ao presidente Roosevelt em 1943. Depois da guerra, a fita, agora prateada, passou a ser usada em dutos de ar-condicionado e ganhou o nome duct tape, a 'silver tape' brasileira.

  3. Adesivos acrílicos e fita invisível

    Nos anos 1950 e 1960, adesivos sintéticos à base de acrílico substituíram a borracha, resistindo ao envelhecimento e à luz. A fita Magic, de 1961, com base de acetato fosco, some no papel e aceita escrita a caneta. Surgiram fitas dupla-face, de embalagem em polipropileno, antiderrapantes, condutoras e de espuma. O celofane, caro e sensível à umidade, foi substituído por filmes plásticos na maioria dos rolos comuns.

  4. Da papelaria ao laboratório

    A fita adesiva comum ganhou um capítulo científico em 2004, quando Andre Geim e Konstantin Novoselov, em Manchester, usaram fita para arrancar camadas de grafite até isolar o grafeno, folha de carbono de um átomo de espessura. O trabalho rendeu o Prêmio Nobel de Física de 2010. O método da fita continua a ser usado em laboratórios para obter materiais bidimensionais.

04Fatos curiosos

  • A marca Durex, sinônimo de fita adesiva no Brasil, pertence à 3M; no Reino Unido, Durex é marca de preservativos, de empresa sem relação, o que confunde brasileiros em viagem.
  • Richard Drew foi contratado pela 3M em 1921 e acumulou cerca de 30 patentes; a empresa criou um laboratório de produtos novos sob sua direção.
  • Descolar fita adesiva no vácuo produz raios X: um experimento publicado na revista Nature em 2008 mostrou emissão suficiente para radiografar um dedo.
  • A fita de celofane original amarelava e se desprendia em poucos anos, e documentos remendados com ela nos anos 1940 são hoje um problema recorrente para restauradores de arquivos.
  • O termo 'fita crepe', usado no Brasil para a fita de pintor, vem do papel crepado, levemente enrugado, que permite à fita acompanhar curvas.

05Contexto social

A fita adesiva alterou pequenos gestos cotidianos: embrulhar presente sem barbante, fixar um aviso sem furar a parede, etiquetar e selar pacotes, consertar os óculos quebrados. É uma tecnologia de reparo rápido e reversível, que se encaixou na cultura do 'dar um jeito' tanto quanto na do escritório organizado. Nas escolas, serviu a cartazes e trabalhos; nas oficinas, à pintura e ao isolamento; nos hospitais, à fixação de curativos e sondas.

Economicamente, é um dos produtos que fizeram da 3M um modelo de empresa de inovação, estudada por administradores pela política de deixar pesquisadores dedicarem parte do tempo a projetos próprios. A fita também virou símbolo cultural de improviso: a duct tape aparece em filmes e em missões espaciais, da Apollo 13, cujos astronautas a usaram para adaptar filtros de dióxido de carbono em 1970, aos reparos improvisados em qualquer casa.

06No Brasil

A 3M instalou-se no Brasil em 1946, em Campinas, e mais tarde concentrou a produção em Sumaré, no interior paulista. A fita transparente foi lançada no país com a marca Durex, e o nome se impôs de tal forma que 'durex' passou a designar qualquer fita adesiva transparente, de qualquer fabricante, registrado em dicionários como substantivo comum. É um dos exemplos mais citados de marca generalizada no português brasileiro, ao lado de gilete, bombril e xerox.

Outras denominações se consolidaram: 'fita crepe' para a fita de pintor, 'fita isolante' para a elétrica e 'silver tape' para a fita de tecido prateada. Fabricantes nacionais e importados disputam o mercado de embalagens, que cresceu com o comércio eletrônico, e a fita de polipropileno marrom das caixas de encomenda é hoje a versão mais produzida no país.

07Linha do tempo

  1. 1845

    Horace Day patenteia um emplastro adesivo de borracha nos Estados Unidos.

  2. 1902

    Fundação da Minnesota Mining and Manufacturing, a 3M.

  3. 1925

    Richard Drew cria a fita crepe para pintores de automóveis.

  4. 1930

    A 3M envia o primeiro rolo de fita transparente de celofane a um cliente em Chicago.

  5. 1932

    John Borden cria o dispensador com lâmina serrilhada.

  6. 1943

    Surge a fita de tecido impermeável para munição, futura duct tape.

  7. 1946

    A 3M se instala no Brasil, em Campinas.

  8. 1961

    Lançamento da fita Magic, fosca e invisível sobre o papel.

  9. 2010

    Nobel de Física para o grafeno, isolado com fita adesiva em 2004.

08Comparativo

Fita transparente: 1930 e hoje
AspectoFita Scotch (1930)Fita transparente comum (hoje)
BaseCelofanePolipropileno ou acetato
AdesivoBorracha natural e resinasAcrílico sintético
EnvelhecimentoAmarela e resseca em anosEstável por décadas
CorteTesouraDispensador com serrilha
Uso previstoVedar embalagens de celofaneEscritório, escola, embalagem e reparo

09Perguntas frequentes

Quem inventou a fita adesiva?

Richard Drew, técnico da 3M, criou a fita crepe para pintores em 1925 e a fita transparente de celofane em 1930. Fitas adesivas médicas já existiam desde o século XIX.

Por que a fita adesiva se chama durex no Brasil?

Durex foi a marca com que a 3M lançou a fita transparente no país, e o nome passou a designar o produto em geral, como aconteceu com Scotch nos Estados Unidos e Sellotape no Reino Unido.

A fita adesiva estraga documentos?

Fitas antigas, com adesivo de borracha, amarelam, ressecam e mancham o papel. Para documentos de valor, arquivistas recomendam fitas de conservação com adesivo acrílico neutro ou nenhum remendo.

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11Fontes consultadas

  • 3M Company, A Century of Innovation: The 3M Story, 2002
  • Smithsonian Magazine, artigo sobre a invenção da fita Scotch
  • National Inventors Hall of Fame, verbete sobre Richard Drew
  • Nature, 'Correlation between nanosecond X-ray flashes and stick-slip friction in peeling tape', 2008
  • Encyclopaedia Britannica, verbete 'adhesive tape'

Este verbete foi redigido e revisado pela equipe editorial do Daily's Treasures a partir das fontes acima. Encontrou um erro? Escreva para nós.