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Verbete nº 046 · Trabalho e escritório

Ábaco

Contas que deslizam em hastes: um instrumento de mais de dois mil anos que ainda vence calculadoras em torneios.

Antiguidade Medir e organizar Ferramenta Mesopotâmia e Grécia (tabuleiros); China (ábaco de contas) · c. 300 a.C.
Ábaco: Contas que deslizam em hastes: um instrumento de mais de dois mil anos que ainda vence calculadoras em torneios.
Imagem: Syced · Wikimedia Commons · CC0 (domínio público)

01Origem

A palavra ábaco vem do grego abax, tabuleiro, talvez derivado de um termo semítico para pó ou areia: as primeiras superfícies de cálculo eram placas cobertas de areia fina em que se traçavam colunas e se escreviam ou apagavam números. O passo seguinte foi o tabuleiro de contar, com linhas gravadas e pedrinhas movidas sobre elas. O exemplar mais antigo conhecido é a Tábua de Salamina, uma placa de mármore de cerca de 1,5 metro encontrada em 1846 na ilha grega de Salamina e datada por volta de 300 a.C., com sulcos paralelos e símbolos monetários nas bordas.

Os romanos usavam tabuleiros semelhantes e desenvolveram um ábaco portátil de bronze, com ranhuras e botões deslizantes, de que sobrevivem poucos exemplares. Suas pedrinhas de contar chamavam-se calculi, origem das palavras cálculo e calculadora. Na Europa medieval, o tabuleiro de contar com fichas, chamado de mesa de cálculo ou 'exchequer' na Inglaterra, por causa do pano quadriculado, foi a ferramenta oficial da contabilidade pública até os séculos XVI e XVII, quando os algarismos indo-arábicos e o cálculo escrito o substituíram.

O ábaco de contas enfiadas em hastes, dentro de uma moldura, é invenção chinesa. Sua data é discutida: há menção a um instrumento de contas no tratado Shushu Jiyi, atribuído a Xu Yue, por volta do ano 190, mas a forma clássica do suanpan, com duas contas na parte superior e cinco na inferior em cada haste, só está bem documentada na dinastia Ming, no século XVI, quando o manual de Cheng Dawei, de 1592, padronizou seu uso. O instrumento passou à Coreia e ao Japão, onde se tornou o soroban, e à Rússia, onde virou o schoty.

02Período histórico

Os tabuleiros de contar nasceram em sociedades que já escreviam números, mas não dispunham de um sistema posicional prático para operar com eles. Na Grécia e em Roma, a notação numérica servia para registrar, não para calcular; a operação se fazia no tabuleiro e o resultado era copiado. Comércio marítimo, cobrança de tributos e exércitos a pagar exigiam cálculos constantes, feitos por escravos e funcionários treinados.

Na China dos Ming, o suanpan acompanhou a expansão do comércio e da burocracia imperial, que selecionava funcionários por exames e precisava de contabilidade uniforme. Comerciantes, cambistas e coletores carregavam o instrumento e dominavam regras memorizadas em versos para dividir e multiplicar. O ábaco permaneceu o padrão de cálculo no Leste Asiático até a segunda metade do século XX, muito depois de a Europa adotar o lápis e as máquinas.

03Evolução ao longo do tempo

  1. Da areia ao tabuleiro de linhas

    Os primeiros instrumentos eram superfícies de areia ou pó, sobre as quais se desenhavam colunas e se gravavam algarismos com um estilete. Tabuleiros de pedra ou madeira com linhas fixas e fichas móveis tornaram o processo mais rápido e reutilizável. Cada linha valia uma potência de dez, ou de outra base, e o espaço entre linhas valia cinco vezes a linha abaixo, princípio que o ábaco de contas herdaria.

  2. O ábaco de hastes e a técnica dos dedos

    A moldura com hastes e contas, fixada na China, transformou o cálculo em movimento de polegar e indicador. O suanpan tradicional, com sete contas por haste, permitia operar também em base dezesseis, usada nos pesos chineses. O soroban japonês simplificou o instrumento: uma conta superior e cinco inferiores nos séculos XVII a XIX, e uma superior e quatro inferiores a partir da década de 1930, o mínimo necessário para o sistema decimal.

  3. Ensino, competição e cálculo mental

    No Japão, o soroban integrou o currículo escolar e gerou um sistema de graduações com exames e campeonatos. Operadores avançados praticam anzan, o cálculo mental em que visualizam um ábaco imaginário e movem contas invisíveis, obtendo somas de números de vários dígitos em segundos. Esse método se difundiu em escolas de aritmética na Ásia e, desde os anos 1990, em programas de ensino na Europa, nas Américas e no Oriente Médio.

  4. Instrumento para cegos

    Por ser tátil, o ábaco encontrou aplicação permanente na educação de pessoas cegas. Versões com contas que não deslizam por acidente, apoiadas em feltro ou borracha, permitem armar contas e conferir cada etapa com os dedos, algo que a calculadora falante não oferece. Essa adaptação, criada em meados do século XX, mantém o ábaco em uso em escolas e institutos de todo o mundo.

04Fatos curiosos

  • Em 12 de novembro de 1946, em Tóquio, o operador de soroban Kiyoshi Matsuzaki venceu por 4 a 1 o soldado norte-americano Thomas Wood, que usava uma calculadora elétrica, em um torneio promovido pelo jornal das forças de ocupação.
  • Os incas usavam a yupana, um tabuleiro de compartimentos, junto com o quipu de cordas e nós, para registrar e calcular; o funcionamento exato da yupana ainda é debatido.
  • O zhusuan, o cálculo com suanpan, foi inscrito pela UNESCO em 2013 na lista do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
  • O schoty russo tem dez contas por haste e uma haste de quatro contas para frações de rublo; era comum em lojas soviéticas até os anos 1990.
  • A palavra inglesa 'exchequer', nome do Tesouro britânico, vem do pano xadrez sobre o qual se calculavam as receitas reais com fichas.
  • No cálculo mental anzan, competidores japoneses somam quinze números de três dígitos exibidos por menos de dois segundos cada.

05Contexto social

O ábaco foi, por séculos, a ferramenta de quem lidava com dinheiro alheio: cambistas, cobradores de impostos, comerciantes e administradores. Dominar o instrumento era uma habilidade profissional transmitida em oficinas e famílias. Na Europa medieval, a disputa entre 'abacistas', que calculavam com fichas, e 'algoristas', que usavam os algarismos indo-arábicos no papel, durou séculos e envolveu interesses de guildas e desconfiança das autoridades quanto ao novo sistema, que permitia fraudes por alteração de dígitos.

No Leste Asiático, o ábaco se tornou parte da identidade do comerciante e, no Japão do século XX, da formação escolar: a destreza com o soroban era vista como disciplina mental, não só técnica. O instrumento também marcou a fronteira entre trabalho manual e cálculo escrito. Hoje, deslocado pelas máquinas, ele persiste como ferramenta pedagógica, defendida por educadores pela compreensão concreta do valor posicional, e como objeto de nostalgia.

06No Brasil

O ábaco chegou ao Brasil com os imigrantes japoneses, a partir de 1908, e o soroban se manteve em uso nas colônias de São Paulo, do Paraná e do Pará, com escolas e associações que promovem exames de graduação e torneios até hoje. Mas a contribuição brasileira mais notável é outra: em 1949, Joaquim Lima de Moraes, que havia perdido a visão, adaptou o soroban para uso de pessoas cegas, com uma base de borracha que impede as contas de deslizar, e passou a ensiná-lo.

O instrumento foi adotado oficialmente na educação especial brasileira. O Ministério da Educação publica manuais de técnicas operatórias com o soroban para estudantes com deficiência visual, e uma comissão de estudos do soroban foi criada em 2002 para padronizar seu ensino. Nas escolas regulares, o ábaco de contas coloridas aparece nos primeiros anos do ensino fundamental como material concreto para o sistema decimal.

07Linha do tempo

  1. c. 300 a.C.

    Tábua de Salamina, o mais antigo tabuleiro de contar conhecido.

  2. c. 190

    O tratado Shushu Jiyi, na China, menciona um instrumento de contas.

  3. 1592

    Cheng Dawei publica o manual que padroniza o suanpan na dinastia Ming.

  4. c. 1600

    O ábaco chinês se difunde no Japão e dá origem ao soroban.

  5. década de 1930

    O soroban adota a configuração de uma conta superior e quatro inferiores.

  6. 1946

    Em Tóquio, o soroban vence uma calculadora elétrica por 4 a 1.

  7. 1949

    Joaquim Lima de Moraes adapta o soroban para pessoas cegas no Brasil.

  8. 2013

    A UNESCO inscreve o zhusuan chinês como Patrimônio Cultural Imaterial.

08Comparativo

Suanpan chinês e soroban japonês
AspectoSuanpan chinêsSoroban japonês
Contas por haste2 em cima, 5 embaixo1 em cima, 4 embaixo
Base de cálculoDecimal e hexadecimalDecimal
Formato das contasArredondadasBiconvexas, em losango
DocumentaçãoSéculo XVISéculos XVII a XX
Uso atualComércio tradicional, patrimônio imaterialEnsino escolar, competições, educação de cegos

09Perguntas frequentes

Quem inventou o ábaco?

Ninguém em particular. Tabuleiros de contar existiam na Mesopotâmia e na Grécia antigas; o ábaco de contas em hastes é chinês e se consolidou até o século XVI.

O ábaco é mais rápido que a calculadora?

Em somas e subtrações, um operador treinado pode ser mais rápido, como mostrou o torneio de 1946 em Tóquio. Em multiplicações longas e funções complexas, a calculadora vence.

Qual a diferença entre ábaco e soroban?

Soroban é o ábaco japonês, com uma conta superior e quatro inferiores por haste. Ábaco é o termo geral, que inclui o suanpan chinês, o schoty russo e os ábacos escolares de dez contas.

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11Fontes consultadas

  • Georges Ifrah, História Universal dos Algarismos, 1994 (edição brasileira, 1997)
  • Takashi Kojima, The Japanese Abacus: Its Use and Theory, 1954
  • Ministério da Educação (Brasil), Soroban: manual de técnicas operatórias para pessoas com deficiência visual, 2012
  • UNESCO, ficha do zhusuan na lista do Patrimônio Cultural Imaterial, 2013
  • Encyclopaedia Britannica, verbete 'abacus'

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