01Origem
O alfinete de segurança moderno tem um inventor, uma data e um número de patente, mas sua ideia é da Idade do Bronze. A fíbula, broche com uma agulha presa por mola a um arco e travada numa ponta de proteção, aparece na Europa central e no Egeu por volta de 1300 a.C., e dela derivaram variantes gregas, etruscas, celtas, romanas e germânicas. Um dos tipos mais antigos, a fíbula em arco de violino, é idêntico em princípio ao alfinete atual: um arame dobrado em mola, com a ponta travada num encaixe. Por dois mil anos a fíbula prendeu mantos e capas, e foi também joia e sinal de posição.
Com os botões e as roupas costuradas da Idade Média, a fíbula perdeu espaço e virou peça de museu. O alfinete comum, de haste reta com cabeça, continuou em uso por alfaiates e costureiras e para fixar fraldas e lenços, com o inconveniente de espetar e de se soltar. Em meados do século XIX, a produção de arame em grande escala e a cultura de patentes dos Estados Unidos criaram o ambiente para uma versão industrial da velha fíbula.
Walter Hunt, mecânico de Nova York, registrou a patente 6.281 em 10 de abril de 1849, para um 'alfinete de vestir' feito de um único arame, com uma espira que funcionava como mola e um encaixe que cobria a ponta. A história mais repetida diz que ele devia quinze dólares a um conhecido e, para pagar, torceu um arame enquanto pensava, vendendo depois os direitos por 400 dólares. O relato vem de fontes do século XIX e é plausível, mas não totalmente verificável; o documentado é que Hunt vendeu a patente e nunca lucrou com a difusão do objeto.
02Período histórico
Os Estados Unidos de 1849 viviam a febre do ouro na Califórnia e a expansão das fábricas de metal da Nova Inglaterra, onde cidades como Waterbury, em Connecticut, concentravam a produção de latão. O arame padronizado, as máquinas de dobrar e cortar e o sistema de patentes, reformado em 1836, faziam de qualquer objeto simples um possível negócio. Walter Hunt já havia criado uma máquina de costura, em 1834, que não patenteou, uma caneta-tinteiro e um rifle de repetição.
A Europa, por sua vez, vivia o ano das revoluções de 1848 e o avanço da indústria têxtil, com roupas prontas e um mercado de miudezas de costura em expansão. Alfinetes, agulhas, colchetes e botões eram vendidos por mascates e em armarinhos, e fábricas de Birmingham e Redditch produziam alfinetes retos aos milhões.
03Evolução ao longo do tempo
Da fíbula ao arame único
A fíbula antiga era fundida ou forjada, muitas vezes decorada com esmalte, âmbar ou ouro, e cada peça era trabalho de ourives. A versão de Hunt reduziu o objeto a um arame dobrado por máquina, sem solda, com a mola formada por uma ou duas voltas e o encaixe obtido dobrando a mesma extremidade. Isso tornou o alfinete barato o bastante para ser vendido em cartelas e perdido sem preocupação. A mola em espira é o que distingue o modelo de 1849 das tentativas inglesas anteriores, que usavam o arco rígido como mola.
Fraldas, costura e enfermaria
Na segunda metade do século XIX o alfinete de segurança virou item de berço, usado para prender fraldas de pano, depois com cabeças de plástico ou cerâmica para não abrir. Costureiras o usavam para marcar bainhas, enfermeiras para fixar ataduras, militares para prender insígnias, e fabricantes americanos como a Oneida e a Risdon produziam bilhões de unidades. Em muitos países era também amuleto preso à roupa de recém-nascidos.
Variações industriais
O século XX trouxe o alfinete de aço inoxidável, o modelo com trava para bebês, os alfinetes de cabeça colorida e os tamanhos padronizados por número. Surgiram usos técnicos: na indústria têxtil, para fixar etiquetas e amostras; no vestuário militar, em distintivos; no esporte, para prender números de competidores. O alfinete também virou base de broches baratos e bijuterias, em que uma barra de alfinete é soldada atrás de qualquer ornamento.
Do berço ao punk
Em 1976 e 1977 os punks de Londres e Nova York prenderam roupas rasgadas, enfeitaram jaquetas e furaram orelhas e bochechas com alfinetes de segurança, transformando um objeto doméstico em símbolo de recusa. O gesto entrou na moda: Zandra Rhodes o incorporou em vestidos em 1977, e em 1994 um vestido Versace fechado por alfinetes dourados deu fama mundial à atriz Elizabeth Hurley. Em 2016 o alfinete foi usado como sinal de solidariedade a imigrantes no Reino Unido e nos Estados Unidos.
04Fatos curiosos
- Walter Hunt também inventou, em 1834, uma máquina de costura com agulha de ponta furada, mas não a patenteou por temer o desemprego de costureiras; a ideia foi patenteada depois por Elias Howe.
- As fíbulas são tão numerosas e variadas que arqueólogos as usam para datar sepulturas da Idade do Ferro com precisão de poucas décadas.
- O alfinete de segurança é chamado em várias línguas de 'alfinete de fralda' ou 'alfinete de bebê', reflexo de seu uso mais comum até os anos 1960, quando as fraldas descartáveis se difundiram.
- Na Ucrânia, na Grécia e em partes da Índia e do Brasil existe o costume de prender um alfinete de segurança, às vezes com uma conta azul ou vermelha, na roupa de bebês contra o mau-olhado.
- O vestido Versace de alfinetes dourados de 1994 foi recriado pela marca em 2019 e segue entre os mais fotografados dos tapetes vermelhos.
05Contexto social
A fíbula era, na Antiguidade, objeto de distinção. Pelo material, tamanho e decoração, dizia a origem, o sexo e a posição de quem a usava, e muitas foram enterradas com seus donos. O alfinete de segurança do século XIX fez o movimento oposto: tornou-se o objeto mais anônimo possível, vendido por centavos, usado em fraldas, enfermarias e oficinas, associado ao trabalho doméstico e ao cuidado com crianças e, por isso, às mulheres. Seu valor estava em ser descartável e invisível.
A inversão punk dos anos 1970 fez do alfinete um símbolo político. Preso na bochecha ou segurando uma camiseta rasgada, ele comunicava pobreza voluntária, recusa do consumo e da moda e desprezo pela roupa 'pronta'. Que a moda de luxo o tenha absorvido pouco depois é um exemplo clássico de como o mercado assimila sinais de rebeldia. No século XXI o alfinete voltou a ser emblema, desta vez de acolhimento, em campanhas de solidariedade a minorias.
06No Brasil
No Brasil o alfinete de segurança é chamado também de alfinete de fralda, e esse foi seu uso dominante até a chegada das fraldas descartáveis, entre o fim dos anos 1970 e os anos 1980. Armarinhos, mascates e lojas de miudezas venderam cartelas de alfinetes importados da Europa e, a partir de meados do século XX, produzidos por metalúrgicas nacionais. O costume de prender um alfinete com uma figa, uma medalhinha ou uma fita vermelha na roupa do bebê, contra o mau-olhado, existe em várias regiões e mistura tradições portuguesas, africanas e indígenas.
Hoje o alfinete segue presente em ateliês de costura, no carnaval, em que prende fantasias às pressas, e nas corridas de rua, onde fixa os números dos participantes; a estética punk dos alfinetes também teve eco nas bandas brasileiras dos anos 1980.
07Linha do tempo
- c. 1300 a.C.
Surgem na Europa central e no Egeu as primeiras fíbulas de bronze.
- 1849
Walter Hunt patenteia o alfinete de segurança de arame único em Nova York.
- Fim do século XIX
O alfinete vira item de berço, enfermaria e costura em todo o mundo.
- 1977
O punk adota o alfinete como símbolo de rebeldia.
- 1994
O vestido Versace de alfinetes usado por Elizabeth Hurley se torna ícone.
- 2016
O alfinete na lapela é usado como sinal de solidariedade a imigrantes.
08Comparativo
| Aspecto | Fíbula (c. 500 a.C.) | Alfinete de hoje |
|---|---|---|
| Material | Bronze, ouro, ferro | Aço niquelado ou inoxidável |
| Fabricação | Fundição e ourivesaria | Arame dobrado por máquina |
| Função | Prender mantos e exibir posição | Prender tecidos de modo provisório |
| Valor | Joia, bem de sepultura | Centavos, descartável |
| Mola | Arco rígido ou espira forjada | Espira de arame único |
09Perguntas frequentes
Quem inventou o alfinete de segurança?
Walter Hunt, mecânico de Nova York, patenteou o modelo de arame único em 10 de abril de 1849. O princípio, porém, é o da fíbula da Idade do Bronze.
O que é uma fíbula?
Um broche antigo com agulha, mola e encaixe de proteção, usado para prender mantos e túnicas desde cerca de 1300 a.C. É o ancestral direto do alfinete de segurança.
Walter Hunt enriqueceu com a invenção?
Não. Segundo relatos da época, ele vendeu os direitos da patente por cerca de 400 dólares, e outras empresas fabricaram o objeto aos bilhões.
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11Fontes consultadas
- Henry Petroski, The Evolution of Useful Things, 1992
- Joseph Nathan Kane, Necessity's Child: The Story of Walter Hunt, 1997
- British Museum, Londres, coleção de fíbulas da Idade do Bronze e do Ferro
- United States Patent and Trademark Office, patente 6.281, 1849
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