01Origem
Cortar com duas lâminas que se cruzam é um princípio tão eficiente que foi reinventado em lugares diferentes. Os exemplares mais antigos são tesouras de mola: duas lâminas unidas por uma tira de metal em U que as mantém abertas e as faz voltar à posição após cada aperto. Objetos desse tipo, em bronze, foram encontrados na Mesopotâmia e no Egito e são datados por volta de 1500 a.C. Alguns pesquisadores sugerem datas um pouco anteriores, mas as evidências materiais seguras começam nesse período, quando a metalurgia do bronze já permitia lâminas finas e elásticas.
A tesoura de pivô, com as lâminas articuladas por um pino central, como a que usamos hoje, aparece mais tarde. Exemplares romanos em ferro e bronze são datados dos primeiros séculos da era cristã, e tesouras semelhantes surgem na China da dinastia Han por volta da mesma época, aparentemente de forma independente. O modelo de mola, porém, não desapareceu: continuou sendo usado para tosquiar ovelhas, cortar tecidos e aparar barbas durante toda a Idade Média, e ainda hoje tosquiadeiras manuais seguem esse desenho.
A palavra tesoura revela sua origem: vem do latim tonsoria, de tondere, tosquiar ou aparar, a mesma raiz de tonsura. Na Roma antiga o tonsor era o barbeiro, e a ferramenta tonsoria era seu instrumento de trabalho. Em muitas línguas europeias o nome do objeto também remete ao corte e ao barbeiro. Isso sugere que, antes de ser utensílio doméstico ou de costura, a tesoura foi sobretudo instrumento profissional, de pastores, barbeiros, alfaiates e cirurgiões, feita sob encomenda por ferreiros.
02Período histórico
A tesoura se tornou um objeto comum e barato na Europa com a siderurgia do século XVIII. A cidade inglesa de Sheffield, com minas de carvão e rios para mover rebolos, concentrava cuteleiros desde a Idade Média, e no século XVIII seus fabricantes adotaram o aço fundido, mais homogêneo e capaz de manter o fio. Há a tradição de que Robert Hinchliffe, em 1761, foi o primeiro a fabricar tesouras de aço fundido em escala. O nome é repetido em muitas histórias do objeto, embora a documentação de época seja escassa.
Era a época da Revolução Industrial e também do crescimento da costura doméstica. Revistas de moda, moldes de papel e, a partir da década de 1850, a máquina de costura fizeram da tesoura de alfaiate e de bordado um item de toda casa de classe média. Catálogos vitorianos ofereciam dezenas de modelos, de tesouras de unha a tesouras de uva para a mesa de jantar.
03Evolução ao longo do tempo
Tesoura de mola
As primeiras tesouras eram forjadas de uma única barra de bronze dobrada em U, com as lâminas nas extremidades. Para cortar, o usuário apertava as lâminas uma contra a outra; a mola devolvia a abertura. O desenho exige mão forte e corta com menos precisão, mas é simples de fabricar e não tem peças soltas. Foi a tesoura dos pastores, que tosquiavam ovelhas com ela, e das fiandeiras, que a usavam para cortar fios.
O pivô romano e chinês
A articulação central permitiu lâminas mais longas e corte mais controlado, já que as duas partes trabalham em alavanca. Tesouras de pivô romanas em ferro eram usadas por barbeiros e cirurgiões; as chinesas da dinastia Han, em bronze, acompanhavam estojos de costura. Durante a Idade Média europeia os dois modelos coexistiram, e a tesoura de pivô era peça de valor, muitas vezes decorada e carregada presa ao cinto.
Aço fundido e produção em série
O aço fundido de Sheffield, aperfeiçoado pelo relojoeiro Benjamin Huntsman na década de 1740, deu às tesouras lâminas uniformes e duradouras. Fábricas inglesas, alemãs, em Solingen, e americanas, como a Wiss, fundada em Newark em 1848, passaram a estampar, forjar e temperar tesouras em grande quantidade. Surgiram modelos especializados para cada ofício: costura, cirurgia, jardinagem, cozinha, barbearia e papel.
Cabos de plástico e aço inox
Em 1967 a empresa finlandesa Fiskars, originária de uma fundição de 1649, lançou tesouras com cabos de plástico moldado em laranja, ergonômicos e leves, que se tornaram referência mundial. O aço inoxidável eliminou a ferrugem, e versões para canhotos, para crianças, com ponta redonda, e para uso cirúrgico, com ligas especiais, passaram a cobrir praticamente toda necessidade de corte.
04Fatos curiosos
- Segundo a própria Fiskars, a cor laranja de suas tesouras nasceu por acaso: era a sobra de plástico de uma máquina usada para fabricar espremedores de laranja, e a equipe decidiu mantê-la após uma votação interna.
- A tesoura de mola ainda é fabricada e usada para tosquiar ovelhas em muitas regiões do mundo, com desenho praticamente idêntico ao de 3.500 anos atrás.
- Leonardo da Vinci é frequentemente apontado na internet como inventor da tesoura, mas trata-se de um mito: a ferramenta existia milhares de anos antes dele.
- Na Roma antiga o barbeiro, o tonsor, era figura central da vida urbana; sua loja funcionava como ponto de encontro e de notícias, e a tesoura era seu principal instrumento.
- Tesouras para canhotos têm as lâminas montadas em posição invertida; uma tesoura comum usada com a mão esquerda tende a afastar as lâminas em vez de pressioná-las, e por isso corta mal.
05Contexto social
A tesoura é uma ferramenta de ofícios. Pastores, alfaiates, barbeiros, cirurgiões, jardineiros e ferreiros tiveram, cada um, seu modelo, e nas corporações medievais a tesoura aparecia em brasões de alfaiates e tosquiadores. Na casa, ela se associou ao trabalho feminino: a tesoura de costura era peça do enxoval e muitas vezes passava de mãe para filha, guardada em estojo com dedal e agulhas.
A produção industrial do século XIX tornou a tesoura descartável e multiplicou seus tipos, mas também criou cidades inteiras dependentes dela: Sheffield, Solingen e, no Japão, Seki ainda têm economias ligadas à cutelaria. A tesoura também virou símbolo de censura, com a imagem da tesoura cortando textos e filmes, e de rompimento ou inauguração, como no gesto de cortar a fita.
06No Brasil
Tesouras chegaram ao Brasil com os portugueses e faziam parte das mercadorias de escambo com os povos indígenas, ao lado de facas, machados e espelhos, como registram cronistas do século XVI. Durante séculos foram importadas de Portugal, Inglaterra e Alemanha. A indústria nacional nasceu no Rio Grande do Sul com a imigração alemã: a Mundial, fundada em Porto Alegre em 1896, tornou-se a maior fabricante de tesouras do país e exporta modelos profissionais para cabeleireiros, e a Tramontina, de Carlos Barbosa, fundada em 1911, ampliou a oferta de tesouras domésticas e de cozinha.
No cotidiano brasileiro a tesoura está ligada a ofícios populares como o de costureira, alfaiate e cabeleireiro, e a crença de deixar uma tesoura aberta atrás da porta para apressar a saída de visitas indesejadas é registrada em vários estados. Tesoura é também o nome popular de um pássaro de cauda bifurcada, a tesourinha, e do chute acrobático em que o jogador acerta a bola de costas, com as pernas cruzadas no ar.
07Linha do tempo
- c. 1500 a.C.
Tesouras de mola em bronze são usadas na Mesopotâmia e no Egito.
- c. 100
Romanos e chineses da dinastia Han usam tesouras de pivô em ferro e bronze.
- Década de 1740
Benjamin Huntsman aperfeiçoa o aço fundido em Sheffield, base das lâminas modernas.
- 1761
Segundo a tradição, Robert Hinchliffe fabrica tesouras de aço fundido em Sheffield.
- 1848
A Wiss é fundada em Newark, nos Estados Unidos, e se torna grande fabricante de tesouras.
- 1896
A Mundial é fundada em Porto Alegre e inicia a produção brasileira de tesouras.
- 1967
A Fiskars lança a tesoura de cabo laranja, de plástico moldado.
08Comparativo
| Aspecto | Tesoura de mola antiga | Tesoura moderna |
|---|---|---|
| Mecanismo | Tira de metal em U | Pino central e alavanca |
| Material | Bronze ou ferro | Aço inoxidável e plástico |
| Esforço | Mão fechada o tempo todo | Alavanca reduz a força |
| Precisão | Baixa | Alta, com modelos especializados |
| Uso típico | Tosquia e fios | Costura, papel, cozinha e cabelo |
09Perguntas frequentes
Quem inventou a tesoura?
Não há inventor conhecido. As tesouras de mola surgiram no Oriente Próximo por volta de 1500 a.C., e a tesoura de pivô, com pino central, foi difundida por romanos e chineses nos primeiros séculos da era cristã.
Qual a diferença entre tesoura de mola e de pivô?
A de mola tem as lâminas unidas por uma tira elástica em U e é apertada com a mão fechada. A de pivô articula as lâminas em um pino central, funcionando como alavanca, o que dá mais precisão e menos esforço.
Por que tesoura comum corta mal na mão esquerda?
Porque a pressão natural da mão esquerda afasta as lâminas em vez de uni-las. Tesouras para canhotos têm as lâminas montadas invertidas para corrigir isso.
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11Fontes consultadas
- Henry Petroski, The Evolution of Useful Things, 1992
- Museu Britânico, Londres, tesouras romanas e egípcias do acervo
- Enciclopédia Britânica, verbete Scissors
- Fiskars, histórico oficial da empresa
- Mundial S.A., memória institucional
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