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Verbete nº 042 · Trabalho e escritório

Clipe de papel

Um pedaço de arame dobrado duas vezes, sem inventor conhecido, que resiste a toda tentativa de aperfeiçoamento.

Século XIX Medir e organizar Acessório Inglaterra · c. 1890
Clipe de papel: Um pedaço de arame dobrado duas vezes, sem inventor conhecido, que resiste a toda tentativa de aperfeiçoamento.
Imagem: Dietmar Rabich · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

01Origem

Antes do clipe, prender folhas era trabalhoso. Escrivães usavam alfinetes retos, que furavam o papel e enferrujavam; fitas passadas por cortes na folha; cera de lacre; ou costura com linha, método que sobrevive em processos judiciais. Durante o século XIX, com a expansão da burocracia e a queda do preço do papel, a quantidade de documentos cresceu a ponto de exigir uma solução rápida e reversível. A matéria-prima estava disponível: o arame de aço barato e uniforme, produzido em grande escala a partir da década de 1850, era o mesmo que sustentava cercas, molas e alfinetes industriais.

Dezenas de patentes de prendedores de arame foram registradas entre 1860 e 1900. A mais antiga que se costuma citar é a do norte-americano Samuel B. Fay, de 1867, para um clipe pensado para fixar etiquetas em tecido, mas que também servia para papéis. Nenhuma dessas formas vingou. O modelo que venceu, com duas voltas concêntricas de arame formando um laço alongado, é conhecido como Gem, nome da empresa inglesa Gem Manufacturing, que o comercializava na década de 1890. Não existe patente do desenho Gem, e ninguém sabe quem o traçou pela primeira vez.

O primeiro registro gráfico inequívoco do Gem está na patente de 1899 de William Middlebrook, de Waterbury, Connecticut, não para o clipe, mas para a máquina que o fabricava; o desenho mostra o clipe pronto como exemplo do produto. Em 1904, a Cushman and Denison registrou 'Gem' como marca nos Estados Unidos. A historiografia do objeto, consolidada pelo engenheiro Henry Petroski, trata o clipe como caso exemplar de design anônimo: uma forma que emergiu de tentativas sucessivas de oficinas e vendedores, não de um gesto de gênio individual.

02Período histórico

O clipe nasceu na segunda Revolução Industrial, quando o escritório se tornou um espaço de produção em massa de papéis. Bancos, seguradoras, ferrovias e repartições públicas empregavam exércitos de escriturários; a máquina de escrever, difundida a partir de 1874, e o papel carbono multiplicavam cópias. Guardar, agrupar e recuperar documentos passou a ser um problema logístico que gerou uma indústria inteira de pastas, arquivos de aço, fichários e prendedores.

A mesma época viu a padronização do arame de aço, trefilado com diâmetro constante e galvanizado para não enferrujar. Máquinas automáticas que cortavam, dobravam e descarregavam clipes às centenas por minuto permitiram vender o objeto por caixa, a preço quase simbólico. O clipe pertence à geração de produtos que o consumidor compra sem pensar e descarta sem culpa, antecipando o fenômeno dos descartáveis do século XX.

03Evolução ao longo do tempo

  1. Alfinetes, fitas e lacres

    Até meados do século XIX, o alfinete reto era o prendedor padrão de escritório, vendido em cartelas de dezenas de unidades. Ele furava e marcava as folhas, feria os dedos e enferrujava, deixando manchas. Alternativas eram cortar uma fenda no canto das folhas e passar uma fita, ou aplicar um pingo de cera. Nenhuma dessas soluções permitia desfazer e refazer o agrupamento sem dano, exigência que ficaria central quando os documentos começaram a circular entre vários funcionários.

  2. A explosão de patentes

    Entre as décadas de 1860 e 1900, inventores dos Estados Unidos, da Inglaterra e da Alemanha registraram formas triangulares, ovais, com dentes, com molas e com abas. Muitas funcionavam, mas eram caras de produzir ou rasgavam o papel. O modelo Gem se impôs porque combinava fabricação em um único movimento de máquina, pressão suave distribuída por dois pontos e encaixe com uma só mão. Dispensou patente, o que também facilitou sua cópia por qualquer fabricante.

  3. Variações e o limite do design

    No século XX surgiram clipes com ondulações para melhor aderência, pontas viradas para cima para facilitar o encaixe, modelos triangulares e os prendedores pretos com alavancas, chamados no Brasil de 'binder clips'. Houve clipes plásticos coloridos e revestidos. Nenhum substituiu o Gem, que continua a ser o mais vendido. Petroski observa que o clipe é um raro caso em que mais de um século de tentativas de aperfeiçoamento não produziu melhoria clara sobre o original.

04Fatos curiosos

  • O norueguês Johan Vaaler patenteou um clipe na Alemanha em 1899 e nos Estados Unidos em 1901, mas seu desenho, sem a volta interna, era inferior ao Gem, que já existia. A fama de 'inventor do clipe' lhe foi atribuída por enciclopédias norueguesas décadas depois.
  • Durante a ocupação nazista da Noruega, cidadãos usaram clipes na lapela como símbolo discreto de união contra o regime. O monumento ao clipe erguido em Sandvika, em 1989, tem a forma do Gem, não do modelo de Vaaler.
  • Um clipe comum é feito com cerca de 10 centímetros de arame de aço galvanizado.
  • Um levantamento de um banco britânico, citado com frequência por Petroski e outros autores, estimou que a maior parte dos clipes nunca prende papel: eles servem para limpar cachimbos, abrir fechaduras, marcar jogos ou simplesmente ser torcidos nas mãos.
  • A Noruega emitiu um selo comemorativo em 1999 pelos cem anos da patente de Vaaler, consolidando ainda mais a versão nacional da história.
  • O ícone de 'anexo' nos programas de e-mail é um clipe: o objeto físico virou símbolo universal de juntar documentos.

05Contexto social

O clipe é um objeto do escritório de massa, e portanto da nova classe de trabalhadores de colarinho branco surgida no fim do século XIX. Escriturários, datilógrafas e arquivistas, muitas delas mulheres a partir de 1900, passavam o dia agrupando, separando e reagrupando papéis; o clipe permitia organizar sem decisão definitiva, ao contrário do grampo ou da costura. Em um ambiente em que o documento valia mais do que o objeto que o prendia, ter uma caixa de clipes sobre a mesa sinalizava pertencimento ao mundo da escrita administrativa.

Economicamente, o clipe exemplifica o produto de margem mínima e volume gigantesco. Fabricantes competem por frações de centavo, e a produção migrou para onde o aço e a mão de obra são mais baratos. Culturalmente, tornou-se metáfora da invenção simples e perfeita, citado em manuais de design, e protagonista de episódios inesperados: em 2005, o canadense Kyle MacDonald iniciou uma cadeia de trocas a partir de um clipe vermelho que terminou, um ano depois, com uma casa.

06No Brasil

No Brasil, o objeto é chamado de clipe ou, com frequência, de 'clips' no singular, forma consagrada pelo uso embora derive do plural inglês. As caixas vendidas em papelarias seguem numeração própria, como 2/0, 4/0 e 8/0, que indica o tamanho e não tem correspondência direta com os padrões norte-americanos. Fabricantes nacionais produzem clipes de aço galvanizado há décadas, e o produto é item obrigatório nas listas de material de repartições, cartórios e escolas.

Nos processos judiciais em papel, tradição que a digitalização vem substituindo desde a década de 2010, o clipe convivia com o colchete de latão e com a costura das folhas, formas de junção consideradas mais seguras para documentos que não podiam se desprender. O clipe ficava reservado ao provisório: o bilhete preso à capa, a guia de encaminhamento, o rascunho.

07Linha do tempo

  1. 1867

    Samuel B. Fay patenteia nos Estados Unidos um prendedor de arame para etiquetas e papéis.

  2. c. 1890

    A Gem Manufacturing comercializa na Inglaterra o clipe de dupla volta.

  3. 1899

    William Middlebrook patenteia a máquina de fabricar clipes, com o Gem desenhado como produto.

  4. 1899

    Johan Vaaler patenteia na Alemanha um clipe de volta única.

  5. 1901

    Vaaler obtém a patente norte-americana de seu desenho.

  6. 1904

    A Cushman and Denison registra a marca Gem nos Estados Unidos.

  7. 1989

    Monumento ao clipe é erguido em Sandvika, Noruega, em forma de Gem.

  8. 1999

    A Noruega emite selo pelo centenário da patente de Vaaler.

08Comparativo

Como prender papéis: antes e depois do clipe
AspectoAlfinete reto (século XIX)Clipe Gem (hoje)
Dano ao papelFura e enferrujaNenhum, se removido a tempo
ReversibilidadeDifícil, deixa marcaImediata
SegurançaFere os dedosNão fere
Custo por unidadeBaixoÍnfimo
CapacidadePoucas folhasAté cerca de 20 folhas; mais nos tamanhos maiores

09Perguntas frequentes

Quem inventou o clipe de papel?

Ninguém sabe. O modelo Gem, usado até hoje, surgiu na Inglaterra por volta de 1890 sem patente. O norueguês Johan Vaaler patenteou outro desenho em 1899, mas sua fama de inventor é um equívoco histórico.

Por que o clipe é feito de arame galvanizado?

O aço dá a elasticidade que mantém a pressão sobre as folhas; a camada de zinco evita a ferrugem, que manchava os papéis presos pelos alfinetes antigos.

Clipe estraga documentos de arquivo?

Com o tempo, sim: a umidade pode oxidar o metal e marcar o papel. Arquivos e bibliotecas recomendam remover clipes e usar prendedores plásticos ou de aço inoxidável em documentos permanentes.

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11Fontes consultadas

  • Henry Petroski, The Evolution of Useful Things, 1992
  • Smithsonian Magazine, artigo sobre a história do clipe de papel
  • Early Office Museum, seção sobre prendedores de papel
  • Store norske leksikon, verbete sobre Johan Vaaler
  • Encyclopaedia Britannica, verbete 'paper clip'

Este verbete foi redigido e revisado pela equipe editorial do Daily's Treasures a partir das fontes acima. Encontrou um erro? Escreva para nós.