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Verbete nº 055 · Moda e acessórios

Salto alto

Começou nos pés de cavaleiros persas e de reis franceses, e só no século XIX se tornou um calçado feminino.

Séculos XV a XVII Vestir e adornar Peça de vestuário Pérsia e Europa ocidental · c. 1590
Salto alto: Começou nos pés de cavaleiros persas e de reis franceses, e só no século XIX se tornou um calçado feminino.
Imagem: Daderot · Wikimedia Commons · CC0 (domínio público)

01Origem

O salto alto nasceu como equipamento de montaria, não como adorno. Na Pérsia, pelo menos desde a Idade Média, cavaleiros usavam botas com um salto que travava o pé no estribo, dando estabilidade para atirar com o arco em movimento. Miniaturas persas mostram esse calçado, e exemplares em museus confirmam a função. Historiadores como Elizabeth Semmelhack, do Bata Shoe Museum, situam aí a origem do objeto e ligam sua chegada à Europa à embaixada que o xá Abbas I enviou às cortes europeias em 1599, em busca de aliados contra os otomanos.

Antes disso, a Europa conhecia outras formas de elevar o pé. Os chapins venezianos, plataformas de madeira ou cortiça forradas de tecido, chegavam a mais de trinta centímetros no século XVI e serviam para erguer as damas acima da lama e para exibir riqueza, já que exigiam acompanhantes para andar. Os pattens medievais, solados de madeira presos ao sapato, cumpriam função parecida na rua. Nenhum deles, porém, é um salto no sentido estrito: a elevação só do calcanhar, com a ponta do pé no chão.

O salto propriamente dito aparece em sapatos masculinos europeus na virada do século XVII, e a moda persa, vista como viril e exótica, ajudou a difundi-lo entre aristocratas que também montavam. A corte francesa transformou o salto em emblema de posição: Luís XIV, de baixa estatura, usava saltos de até dez centímetros, e um decreto de 1670 teria reservado os saltos vermelhos aos membros da corte. Os retratos reais confirmam o uso; o decreto é citado por muitos historiadores, mas seu texto original não é bem documentado.

02Período histórico

O salto chegou à Europa quando as cortes absolutistas transformavam a aparência em instrumento político. Em Versalhes, cada detalhe da roupa indicava a distância em relação ao rei, e um calçado que impedia o trabalho físico era a prova de que seu dono não precisava trabalhar. Homens e mulheres da aristocracia usavam saltos, e a diferença entre os sexos estava no formato: mais grossos e quadrados para eles, mais finos e curvos para elas.

O Iluminismo do século XVIII mudou o ideal masculino. A razão, a utilidade e a sobriedade passaram a ser virtudes do homem público, e a roupa masculina se simplificou até chegar ao terno escuro do século XIX. Os saltos, os bordados e as perucas foram abandonados pelos homens e redefinidos como coisa de mulher. Essa divisão, que hoje parece natural, tem cerca de duzentos anos.

03Evolução ao longo do tempo

  1. Do estribo à corte

    O salto persa era baixo e largo, projetado para prender o pé ao estribo. Em Londres e Paris do início do século XVII ele cresceu e se tornou ornamento, com sapateiros adicionando laços, fivelas e couros tingidos. Para que o sapato parecesse menor, a ponta do pé se estreitou. No fim do século XVII o salto francês, curvo e fino, era chamado de 'salto Luís' e aparecia tanto em sapatos de homem quanto de mulher. As mulheres, que não montavam, usavam-no apenas como sinal de posição.

  2. O abandono masculino

    A partir de 1730, aproximadamente, os homens europeus foram deixando os saltos altos, primeiro na Inglaterra e depois na França. A Revolução de 1789 acelerou a mudança: saltos e sapatos de seda lembravam a aristocracia, e Napoleão, apesar da estatura, calçava botas rasas. As mulheres também os abandonaram por algumas décadas, e os sapatos femininos do início do século XIX eram sapatilhas de tecido quase sem sola. O salto voltou aos pés femininos por volta de 1850, com a moda das botinas.

  3. O salto agulha

    A alma de aço dentro do salto, que permitiu hastes muito finas sem quebrar, foi desenvolvida no início dos anos 1950. O francês Roger Vivier, trabalhando para Christian Dior, e o italiano Salvatore Ferragamo são os nomes mais citados na criação do salto agulha, por volta de 1953, embora o modelo tenha surgido quase simultaneamente em vários ateliês. A palavra inglesa stiletto vem do punhal italiano. Nos anos 1950 e 1960 o salto agulha virou obrigatório na elegância feminina e foi proibido em alguns edifícios por furar pisos.

  4. Plataformas, botas e a volta do debate

    As décadas seguintes alternaram ciclos: as plataformas dos anos 1970, usadas também por homens do glam rock, os saltos profissionais dos anos 1980, o retorno do stiletto nos anos 1990 e 2000. Ao mesmo tempo, estudos de ortopedia documentaram joanetes, encurtamento de tendões e lesões ligadas ao uso prolongado, e empresas que exigiam salto de funcionárias foram questionadas em vários países. Hoje o salto alto é opção, não norma, e voltou timidamente ao guarda-roupa masculino em passarelas e na cultura pop.

04Fatos curiosos

  • Salvatore Ferragamo criou em 1938 uma sandália com plataforma de cortiça em camadas coloridas para a atriz Judy Garland, hoje uma das peças mais célebres do design de calçados.
  • O rei Luís XIV usava saltos vermelhos, e a cor foi copiada por cortes de toda a Europa; a sola vermelha de uma marca de luxo atual remete a essa tradição.
  • Os chapins venezianos eram tão altos que leis da República de Veneza tentaram limitar sua altura, sem sucesso, nos séculos XV e XVI.
  • Em 2016 uma recepcionista britânica foi mandada para casa por recusar-se a usar salto; o caso gerou uma petição com mais de 150 mil assinaturas e debate no Parlamento.
  • Os primeiros saltos femininos do século XVII eram tão finos que os sapatos vinham com saltos de reposição e precisavam de pattens para andar na rua.

05Contexto social

Poucos objetos mostram tão claramente como os significados de gênero são construídos. O mesmo salto que por um século foi sinal de masculinidade aristocrática virou, a partir do fim do século XVIII, marca de feminilidade, e o que mudou não foi o objeto, mas a ideia do que homens e mulheres deviam parecer. No século XX o salto foi lido como símbolo de sedução, de poder profissional e de submissão, dependendo de quem falava, e os debates feministas sobre ele se repetem desde os anos 1970.

O salto também sempre foi marcador de classe e de trabalho. Na corte, provava a inutilidade prática de seu dono; na cidade industrial, distinguia a mulher da família burguesa da operária, que não podia usá-lo na fábrica. Hoje a relação se inverteu em parte: profissões de atendimento exigiram o salto de suas funcionárias por décadas, convertendo o sinal de ócio em uniforme de trabalho, e a resistência a essa obrigação gerou leis e regulamentos em países como Canadá, Reino Unido e Filipinas.

06No Brasil

No Brasil, o salto chegou com a corte portuguesa e as modas francesas do século XIX, restrito às senhoras das famílias ricas do Rio de Janeiro e de Salvador, que o usavam em bailes e missas. A fabricação em escala nasceu no Vale do Rio dos Sinos, no Rio Grande do Sul, com os sapateiros de origem alemã, e transformou-se numa das maiores indústrias calçadistas do mundo a partir dos anos 1960, quando as exportações para os Estados Unidos dispararam. Franca, em São Paulo, especializou-se em sapatos masculinos, e Jaú e Birigui em femininos e infantis.

O país é hoje um dos maiores produtores de calçados, com marcas de sapatos de salto vendidas em toda a América Latina; o clima faz da sandália o calçado mais usado, mas o escarpim segue como peça das ocasiões formais.

07Linha do tempo

  1. Séculos X a XV

    Cavaleiros persas usam botas com salto para firmar o pé no estribo.

  2. 1599

    Embaixada do xá Abbas I apresenta a moda persa às cortes europeias.

  3. c. 1670

    Luís XIV consagra os saltos vermelhos como privilégio da corte francesa.

  4. c. 1730-1789

    Homens europeus abandonam progressivamente o salto alto.

  5. c. 1850

    O salto retorna ao calçado feminino com as botinas vitorianas.

  6. c. 1953

    Surge o salto agulha, com alma de aço, atribuído a Vivier e Ferragamo.

08Comparativo

Salto do século XVII e salto de hoje
AspectoSéculo XVIIHoje
Quem usavaHomens e mulheres da aristocraciaMajoritariamente mulheres
FunçãoMontaria e sinal de posiçãoEstética e ocasiões formais
EstruturaMadeira ou couro empilhadoPlástico com alma de aço
Altura comum5 a 10 centímetros3 a 12 centímetros
SignificadoNobreza e ócioFeminilidade, poder, debate de gênero

09Perguntas frequentes

O salto alto foi inventado para mulheres?

Não. Nasceu como calçado de cavaleiros persas e chegou à Europa como moda masculina no fim do século XVI. Só se tornou exclusivamente feminino após o século XVIII.

Por que os homens deixaram de usar salto?

Com o Iluminismo e a Revolução Francesa, a roupa masculina adotou sobriedade e utilidade, e o salto passou a ser associado à aristocracia e, depois, às mulheres.

Quem criou o salto agulha?

A atribuição é dividida entre Roger Vivier e Salvatore Ferragamo, no início dos anos 1950. A inovação técnica foi a alma de aço, que permitiu hastes muito finas.

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11Fontes consultadas

  • Elizabeth Semmelhack, Heights of Fashion: A History of the Elevated Shoe, 2008
  • Bata Shoe Museum, Toronto, coleção e exposição Standing Tall
  • Giorgio Riello e Peter McNeil, Shoes: A History from Sandals to Sneakers, 2006
  • Victoria and Albert Museum, Londres, coleção de calçados

Este verbete foi redigido e revisado pela equipe editorial do Daily's Treasures a partir das fontes acima. Encontrou um erro? Escreva para nós.