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Verbete nº 011 · Invenções do cotidiano

Pilha

A primeira fonte contínua de eletricidade era uma torre de discos de metal e pano molhado em salmoura.

Século XIX Iluminar e aquecer Aparelho ou máquina Itália (Pavia e Como) · 1800
Pilha: A primeira fonte contínua de eletricidade era uma torre de discos de metal e pano molhado em salmoura.
Imagem: RAIL P (RAIL.PHOTOGRAPHY) · Wikimedia Commons · CC0 (domínio público)

01Origem

A história começa com uma discussão entre dois italianos. Em 1791, o médico Luigi Galvani, de Bolonha, publicou experimentos em que pernas de rã se contraíam ao serem tocadas por dois metais diferentes, e concluiu que o tecido animal continha uma eletricidade própria. Alessandro Volta, professor de física em Pavia, repetiu os testes e chegou a outra leitura: a eletricidade vinha do contato entre os metais, e a rã era apenas um detector sensível. Para provar sua tese, Volta precisava gerar corrente sem nenhum animal envolvido.

A solução foi anunciada numa carta à Royal Society de Londres datada de 20 de março de 1800. Volta empilhou discos de zinco e de cobre ou prata, separados por rodelas de papelão umedecidas em salmoura, e verificou que a coluna produzia um fluxo contínuo de eletricidade, diferente das descargas instantâneas das garrafas de Leiden. A palavra pilha vem desse empilhamento. Quanto mais alta a coluna, maior a tensão, e o aparelho podia dar choques, decompor água e aquecer fios. Em 1801, Volta demonstrou o invento a Napoleão em Paris.

A pilha voltaica transformou a ciência em poucos anos. William Nicholson e Anthony Carlisle separaram hidrogênio e oxigênio da água semanas após a notícia chegar a Londres; Humphry Davy isolou o sódio e o potássio em 1807; Hans Christian Ørsted descobriu em 1820 que a corrente desviava a agulha de uma bússola, fundando o eletromagnetismo. O problema prático da pilha de Volta era que se esgotava rápido e polarizava, acumulando bolhas de hidrogênio nos discos.

02Período histórico

A pilha surgiu na virada do século XVIII para o XIX, em meio à Revolução Francesa e às guerras napoleônicas, quando a ciência experimental era uma atividade de salões, academias e correspondência entre cavalheiros. A eletricidade estática já era conhecida havia um século, demonstrada em espetáculos com máquinas de atrito e garrafas de Leiden, mas ninguém sabia produzi-la de forma contínua.

A disputa com Galvani foi lida também como embate entre duas cidades universitárias, Bolonha e Pavia. O apoio de Napoleão a Volta, com título de conde e pensão, mostra como os governos passaram a tratar a eletricidade como questão de prestígio nacional.

03Evolução ao longo do tempo

  1. Pilhas de laboratório e de telégrafo (1836-1866)

    A pilha de Daniell, de 1836, usava sulfato de cobre e evitava a polarização, fornecendo corrente estável por horas; foi a fonte dos primeiros telégrafos. Vieram depois as células de Grove e de Bunsen, mais potentes e com ácido nítrico fumegante. Em 1859, Gaston Planté criou o acumulador de chumbo e ácido, a primeira bateria recarregável, ainda usada em automóveis. Em 1866, Georges Leclanché patenteou uma célula de zinco e dióxido de manganês com cloreto de amônio, barata e sem gases tóxicos, base da pilha comum.

  2. A pilha seca (1886-1900)

    A célula de Leclanché era um pote de vidro com líquido, inadequado para transporte. Em 1886, o alemão Carl Gassner imobilizou o eletrólito numa pasta de gesso e usou o próprio copo de zinco como eletrodo, criando a pilha seca, que podia ser virada e carregada no bolso. Quase ao mesmo tempo, o dinamarquês Wilhelm Hellesen chegou a um projeto semelhante. A National Carbon Company lançou a pilha Columbia em 1896, e a lanterna elétrica de 1899 deu ao produto seu primeiro grande mercado de consumo.

  3. Alcalinas, botões e recarregáveis (1899-1960)

    O sueco Waldemar Jungner patenteou em 1899 a bateria de níquel e cádmio, recarregável e robusta, e Edison lançou a de níquel e ferro para veículos elétricos. Durante a Segunda Guerra, Samuel Ruben criou a pilha de mercúrio em formato de botão, usada em detectores de minas e aparelhos auditivos. Nos anos 1950, Lewis Urry, da Eveready, desenvolveu a pilha alcalina, com eletrólito de hidróxido de potássio e duração várias vezes maior que a de zinco-carbono, lançada em 1959.

  4. O íon de lítio (1970-hoje)

    Stanley Whittingham demonstrou nos anos 1970 uma bateria de lítio recarregável; John Goodenough identificou em 1980 o óxido de cobalto e lítio como cátodo mais potente; Akira Yoshino montou em 1985 a primeira célula comercializável, com ânodo de carbono. A Sony a lançou em 1991 para filmadoras, e os três receberam o Nobel de Química em 2019. Leve e densa em energia, a bateria de íon de lítio viabilizou o celular, o notebook e o carro elétrico, e deslocou a pilha descartável para funções secundárias.

04Fatos curiosos

  • Os jarros de argila com cilindro de cobre e haste de ferro achados perto de Bagdá foram apresentados em 1938 como pilhas antigas; a maioria dos arqueólogos considera que eram recipientes para pergaminhos.
  • A unidade de tensão elétrica, o volt, foi batizada em homenagem a Volta em 1881, no Congresso Internacional de Eletricidade de Paris.
  • As denominações AA, AAA, C e D para tamanhos de pilha foram padronizadas nos Estados Unidos em 1947, para que qualquer marca coubesse em qualquer aparelho.
  • A lanterna elétrica, patenteada em 1899 por David Misell para a empresa de Conrad Hubert, chamava-se flash light porque as pilhas da época só sustentavam o brilho por alguns segundos.
  • A palavra bateria foi usada por Benjamin Franklin, em 1749, para uma fileira de garrafas de Leiden, por analogia com uma bateria de canhões.

05Contexto social

A pilha foi, durante quase um século, um instrumento de laboratório e de telégrafo. A pilha seca e a lanterna a transformaram em produto de consumo, e as campanhas da Eveready nos anos 1910 e 1920 criaram um hábito novo: comprar energia em pequenas unidades descartáveis, como quem compra sabão.

O rádio portátil a transistor, dos anos 1950, e o toca-fitas dos anos 1970 fizeram da pilha o combustível da cultura jovem e levaram notícia e música a lugares sem rede elétrica. Em grande parte do mundo rural, o rádio de pilha foi por décadas a principal ligação com a cidade, e o custo das pilhas pesava no orçamento das famílias.

No fim do século XX, o descarte de milhões de pilhas com mercúrio, cádmio e chumbo passou a preocupar governos. Diretivas europeias e leis nacionais limitaram metais pesados e criaram sistemas de coleta. Hoje a cadeia do lítio e do cobalto, concentrada em poucos países, é tema de disputa geopolítica e de debates sobre mineração e trabalho.

06No Brasil

No Brasil, a pilha chegou com os telégrafos imperiais do século XIX e se popularizou com as lanternas e os rádios do século XX. Marcas como Rayovac, Eveready e Panasonic dominaram o mercado por décadas, e o rádio de pilha tornou-se símbolo do interior, levando futebol, forró e programas de utilidade pública a regiões sem energia elétrica até o avanço do programa Luz para Todos, nos anos 2000.

O país foi um dos primeiros da América Latina a regular o descarte. A Resolução 257 do Conama, de 1999, limitou o teor de mercúrio, cádmio e chumbo e obrigou fabricantes a receber pilhas usadas, regra atualizada pela Resolução 401, de 2008. A Política Nacional de Resíduos Sólidos, de 2010, incluiu as pilhas entre os produtos com logística reversa obrigatória, com pontos de coleta em lojas e supermercados, embora a coleta efetiva ainda seja baixa.

07Linha do tempo

  1. 1791

    Luigi Galvani publica suas observações sobre a contração de pernas de rã por metais.

  2. 1800

    Alessandro Volta comunica à Royal Society a pilha de discos de zinco e cobre.

  3. 1836

    John Frederic Daniell cria uma célula estável, usada pelos primeiros telégrafos.

  4. 1859

    Gaston Planté inventa o acumulador de chumbo e ácido, primeira bateria recarregável.

  5. 1886

    Carl Gassner cria a pilha seca, transportável em qualquer posição.

  6. 1959

    A Eveready lança a pilha alcalina de Lewis Urry.

  7. 1991

    A Sony comercializa a primeira bateria de íon de lítio.

  8. 2019

    Whittingham, Goodenough e Yoshino recebem o Nobel de Química.

08Comparativo

A pilha de Volta e a pilha alcalina
AspectoPilha de Volta (1800)Pilha alcalina AA (hoje)
EletrodosDiscos de zinco e cobre ou prataZinco em pó e dióxido de manganês
EletrólitoPapelão embebido em salmouraPasta de hidróxido de potássio
Tensão por célulaCerca de 0,8 volt1,5 volt
DuraçãoMinutos a poucas horasMeses em uso intermitente
TamanhoTorre de dezenas de centímetrosCilindro de 5 centímetros
UsoExperimentos de laboratórioControles, brinquedos, lanternas

09Perguntas frequentes

Qual é a diferença entre pilha e bateria?

Tecnicamente, pilha é uma única célula eletroquímica e bateria é um conjunto delas ligadas em série ou em paralelo. No uso cotidiano brasileiro, pilha designa as unidades cilíndricas descartáveis e bateria as recarregáveis ou de formato retangular.

Por que a pilha de Volta foi tão importante?

Porque forneceu pela primeira vez uma corrente elétrica contínua. Com ela foi possível decompor a água, isolar novos elementos químicos e descobrir o eletromagnetismo, abrindo caminho para o telégrafo, o motor e o dínamo.

Como descartar pilhas no Brasil?

Em pontos de coleta de lojas, supermercados e assistências técnicas, previstos pela Política Nacional de Resíduos Sólidos. As pilhas comuns atuais têm pouco mercúrio, mas ainda não devem ir ao lixo comum.

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11Fontes consultadas

  • Giuliano Pancaldi, Volta: Science and Culture in the Age of Enlightenment, Princeton University Press, 2003
  • Henry Schlesinger, The Battery: How Portable Power Sparked a Technological Revolution, Smithsonian Books, 2010
  • Royal Society de Londres, Philosophical Transactions, carta de Alessandro Volta a Joseph Banks, 1800
  • Tempio Voltiano, Como, acervo de instrumentos de Alessandro Volta
  • Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), Resoluções 257 de 1999 e 401 de 2008

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