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Verbete nº 057 · Curiosidades de objetos antigos

Ampulheta

O medidor de tempo que governou os navios por três séculos e hoje sobrevive como símbolo de espera.

Idade Média Medir e organizar Utensílio Europa ocidental, provavelmente Itália · c. 1338
Ampulheta: O medidor de tempo que governou os navios por três séculos e hoje sobrevive como símbolo de espera.
Imagem: Gianluca Miscione · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

01Origem

Ao contrário do que sugerem muitas histórias populares, não há nenhuma prova de que a ampulheta tenha existido na Antiguidade. Gregos e romanos mediam intervalos com a clepsidra, um relógio de água, e com relógios de sol. A ampulheta exige vidro soprado de qualidade uniforme e um pó que não absorva umidade, duas condições que só se reuniram na Europa no fim da Idade Média. A primeira imagem segura do objeto aparece no afresco 'Alegoria do Bom Governo', pintado por Ambrogio Lorenzetti no Palazzo Pubblico de Siena, em 1338, onde a figura da Temperança segura uma ampulheta.

Pouco depois, o objeto surge nos documentos. Um registro de contas de um navio inglês, por volta de 1345, lista a compra de 'relógios' de vidro, e inventários do século XV mencionam ampulhetas em mosteiros, oficinas e naus. Historiadores da técnica discutem se a invenção veio da Itália, da França ou dos países germânicos, mas a resposta é incerta. O que se sabe é que vidreiros venezianos e, mais tarde, de Nuremberg, produziam os bulbos aos pares, unidos por um diafragma de metal e vedados com cera e cordão.

O conteúdo também desmente o nome. A 'areia' de uma boa ampulheta raramente era areia de praia, irregular e úmida. Preferia-se pó de mármore, casca de ovo moída, óxido de estanho ou chumbo, tudo peneirado e seco. Um tratado veneziano do século XV recomenda ferver o pó em vinho e secá-lo ao sol nove vezes. Era esse cuidado que fazia o escoamento ser regular, e era ele que justificava o preço alto das peças calibradas para a navegação.

02Período histórico

O século XIV europeu é a época em que o tempo começa a ser contado em unidades iguais. Os relógios mecânicos de torre aparecem nas cidades italianas e flamengas, soando horas regulares para o mercado e para o trabalho, no lugar das horas canônicas que variavam com a estação. A ampulheta pertence a essa mudança: ela não mostra a hora, mas mede uma duração fixa, o que servia a pregadores, professores, cozinheiros e, sobretudo, marinheiros.

Nas embarcações, o relógio mecânico de pêndulo era inútil, porque o balanço do mar o desregulava, e o relógio de sol não funcionava à noite nem em dia nublado. A ampulheta de meia hora, virada por um grumete a cada escoamento, organizava os turnos de serviço, chamados quartos, e permitia estimar a distância percorrida. Foi esse uso que a tornou indispensável durante as grandes navegações dos séculos XV e XVI.

03Evolução ao longo do tempo

  1. Instrumento de bordo

    A ampulheta de bordo tinha vários tamanhos. A de trinta minutos marcava os turnos; a cada oito viradas trocava-se a guarnição, e as badaladas do sino, até hoje usadas na Marinha, derivam dessa contagem. A ampulheta de meio minuto media a velocidade: o marinheiro lançava ao mar uma barquilha presa a uma corda com nós e contava quantos nós passavam pela mão até a areia terminar. Daí vem o 'nó' como unidade de velocidade náutica. Antonio Pigafetta, cronista da expedição de Fernão de Magalhães, registra que a frota partiu em 1519 com dezoito ampulhetas por navio.

  2. Relógio de púlpito e de cozinha

    Em terra, a ampulheta regulava a fala e o trabalho. Igrejas protestantes do século XVI fixavam uma ampulheta de uma hora ao lado do púlpito para disciplinar a duração do sermão, e algumas ainda guardam o suporte de ferro. Oficinas e universidades usavam modelos de quinze minutos para aulas e tarefas. Na cozinha, uma versão pequena de três a cinco minutos cronometrava o cozimento do ovo. Esse último uso é o único que atravessou os séculos quase intacto, e o 'relógio de ovo' ainda é vendido em lojas de utilidades domésticas.

  3. Substituição e sobrevivência como símbolo

    A partir do fim do século XVIII, os cronômetros marítimos de John Harrison e seus sucessores, resistentes ao balanço, tiraram da ampulheta a função de bordo; no século XIX, o relógio de bolso barato a tirou da sala de aula e da oficina. O objeto, porém, já era um símbolo poderoso. Desde o Renascimento ele aparecia em túmulos, retratos e bandeiras de piratas como lembrete da morte e da brevidade da vida. Essa carga simbólica garantiu sua sobrevivência em logotipos, jogos de tabuleiro e no cursor de espera dos primeiros sistemas Windows.

04Fatos curiosos

  • O cursor em forma de ampulheta, que indicava 'aguarde' nas versões antigas do Windows, deu ao objeto uma nova vida visual décadas depois de sua aposentadoria prática.
  • A unidade 'nó', usada na aviação e na navegação, nasceu da ampulheta de meio minuto combinada com a corda de nós da barquilha.
  • Nos séculos XVI e XVII, o preço de uma ampulheta de navio bem calibrada podia superar o salário mensal de um marinheiro comum.
  • A escultura funerária barroca adotou a ampulheta alada como símbolo de que o tempo voa; o motivo se vê em lápides de Lisboa a Boston.
  • Como o pó de mármore roça o estreitamento de vidro a cada virada, o canal se alarga com o uso e a ampulheta vai ficando ligeiramente mais rápida com os anos.

05Contexto social

A ampulheta nunca foi um objeto de luxo nem um objeto exclusivo da elite. Seu lugar era o do trabalho disciplinado: a cozinha do mosteiro, a sala de aula, o convés. Em navios, virar a ampulheta era tarefa do grumete, o mais jovem da tripulação, e descuidar dela, ou virá-la antes da hora para encurtar o turno, era punido com severidade, porque a navegação por estima dependia da contagem honesta das meias horas.

Na cultura, a ampulheta serviu para falar da morte com elegância. Pintores holandeses a colocavam ao lado de caveiras e flores murchas nas naturezas-mortas do gênero 'vanitas'. O objeto transformou-se em metáfora antes de desaparecer do uso, e por isso continua compreensível para pessoas que nunca viraram uma. Poucos instrumentos abandonados mantêm esse grau de reconhecimento imediato.

Hoje o fabrico sobrevive em pequena escala para decoração, jogos, saunas e cozinha. A ampulheta também virou recurso pedagógico: terapeutas e professores a usam para tornar visível a passagem do tempo para crianças, porque o escoamento da areia é mais intuitivo que os ponteiros.

06No Brasil

As naus portuguesas que chegaram ao litoral brasileiro em 1500 mediam o tempo a bordo com ampulhetas, prática padrão da navegação ibérica, e os regimentos de pilotagem do século XVI determinavam quantas peças cada embarcação devia levar. Durante todo o período colonial, a travessia do Atlântico, o cabotagem entre capitanias e a contagem dos quartos na frota dependeram desse objeto. A tradição dos toques de sino que dividem o dia em turnos permanece nos navios da Marinha do Brasil.

Hoje a ampulheta aparece no país sobretudo como temporizador de jogos de tabuleiro e de cozinha, como peça decorativa e no ensino. Escolas e consultórios a usam para ajudar crianças a perceber a duração de tarefas, e museus navais, como o Museu Naval no Rio de Janeiro, expõem instrumentos de bordo do período em que ela era obrigatória.

07Linha do tempo

  1. 1338

    Ambrogio Lorenzetti pinta em Siena a primeira imagem conhecida de uma ampulheta.

  2. c. 1345

    Contas de um navio inglês registram a compra de relógios de vidro para uso a bordo.

  3. 1519

    A frota de Magalhães parte com dezoito ampulhetas por navio, segundo Pigafetta.

  4. séc. XVI

    Igrejas reformadas instalam ampulhetas de uma hora ao lado do púlpito para medir sermões.

  5. 1600-1700

    A ampulheta se consolida como símbolo da morte em pinturas, lápides e bandeiras piratas.

  6. 1761

    O cronômetro H4 de John Harrison prova que relógios mecânicos podem funcionar no mar.

  7. séc. XIX

    Cronômetros e relógios de bolso baratos aposentam a ampulheta como instrumento de trabalho.

  8. 1985

    O cursor de espera em forma de ampulheta estreia nas interfaces gráficas de computador.

08Comparativo

Ampulheta de navio e ampulheta de cozinha
AspectoNavio, século XVICozinha, hoje
Duração30 minutos ou 30 segundos3 a 5 minutos
ConteúdoPó de mármore ou casca de ovo secaAreia calibrada ou microesferas de vidro
VidroDois bulbos unidos por cera e cordãoPeça única soprada ou plástico
Quem operaGrumete em turno obrigatórioQualquer pessoa, sem compromisso
PrecisãoDecisiva para a navegaçãoAproximada, sem consequência

09Perguntas frequentes

A ampulheta existia na Grécia ou no Egito antigo?

Não há prova disso. Os antigos usavam relógios de água e de sol; a ampulheta só aparece com segurança no século XIV, na Europa.

Por que a ampulheta parou de ser usada?

Os cronômetros marítimos do século XVIII e os relógios de bolso baratos do XIX a substituíram em todas as funções práticas, menos na cozinha.

O que há dentro de uma ampulheta?

Nas peças antigas, pó de mármore, casca de ovo ou óxido metálico, secos e peneirados. Hoje, areia calibrada ou microesferas de vidro.

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11Fontes consultadas

  • Antonio Pigafetta, Relazione del primo viaggio intorno al mondo, 1524
  • Gerhard Dohrn-van Rossum, History of the Hour: Clocks and Modern Temporal Orders, University of Chicago Press, 1996
  • Ambrogio Lorenzetti, Allegoria del Buon Governo, Palazzo Pubblico de Siena, 1338
  • Dava Sobel, Longitude, Walker, 1995
  • Museu Marítimo Nacional de Greenwich, coleção de instrumentos de navegação

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