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Verbete nº 021 · Alimentação e utensílios

Lata de conserva

Um prêmio de Napoleão, uma patente inglesa e quase meio século sem abridor.

Século XIX Guardar e conservar Recipiente ou embalagem Inglaterra, a partir de um método francês · 1810
Lata de conserva: Um prêmio de Napoleão, uma patente inglesa e quase meio século sem abridor.
Imagem: Rainer Zenz · Wikimedia Commons · CC BY-SA 3.0

01Origem

A lata começa com um vidro. Em 1795, o governo revolucionário francês ofereceu um prêmio de 12 mil francos a quem desenvolvesse um método de conservar alimentos para os exércitos em campanha. O confeiteiro Nicolas Appert passou anos testando e chegou a uma solução: fechar a comida em garrafas de vidro vedadas com rolha, mergulhá-las em água fervente por longos períodos e deixá-las esfriar. Em 1810, recebeu o prêmio e publicou 'L'Art de conserver', o primeiro manual de conservas. Ele não sabia por que o método funcionava; a explicação, a destruição de micro-organismos pelo calor, só viria com Louis Pasteur, meio século depois.

No mesmo ano de 1810, o comerciante Peter Durand obteve em Londres uma patente para conservar alimentos em recipientes de vidro, cerâmica ou folha de flandres, o ferro revestido de estanho. Historiadores apontam que a ideia veio do inventor francês Philippe de Girard, que teria usado Durand como intermediário na Inglaterra. Durand vendeu a patente a Bryan Donkin e John Hall, que em 1813 abriram em Bermondsey, nos arredores de Londres, a primeira fábrica de enlatados do mundo e passaram a fornecer carne e sopas para a Marinha Real e para expedições árticas.

As primeiras latas eram feitas à mão, uma a uma, por funileiros que cortavam a chapa, dobravam o corpo e soldavam com chumbo. Pesavam mais que o conteúdo, tinham paredes grossas e vinham com a instrução de abrir com martelo e talhadeira. Durante décadas, foram produto caro, de militares, exploradores e viajantes. A produção em escala só ocorreu a partir de meados do século XIX, com máquinas de estampar e a demanda da Guerra Civil americana, quando soldados dos dois lados se alimentaram de leite condensado e carne enlatada.

02Período histórico

A conserva em lata é tecnologia das guerras napoleônicas. Exércitos cada vez maiores marchavam por meses e dependiam de saques e de alimentos salgados ou defumados, que causavam escorbuto e doenças. Alimentar soldados e marinheiros virou problema de Estado, e o prêmio francês refletia essa urgência. A Inglaterra, que dominava os mares, tinha o mesmo interesse e a indústria metalúrgica para responder.

Era também o início da Revolução Industrial, com fábricas, laminadores de chapa e um comércio marítimo em expansão. A lata permitiu transportar comida de um hemisfério a outro sem gelo e, ao longo do século XIX, abasteceu colonizadores, mineiros da corrida do ouro e cidades que cresciam longe das áreas agrícolas.

03Evolução ao longo do tempo

  1. Latas pesadas sem abridor

    Por quase meio século, não houve abridor. As latas vinham com instruções para usar martelo e talhadeira, e soldados as abriam com baionetas e até tiros. O primeiro abridor patenteado, do inglês Robert Yeates, é de 1855; o modelo americano de Ezra Warner, de 1858, foi distribuído ao Exército da União. Somente em 1870 William Lyman criou o abridor com roda cortante, antecessor dos atuais.

  2. Produção mecanizada

    Máquinas de cortar, estampar e soldar surgiram a partir da década de 1840 e multiplicaram a produção: um funileiro fazia cerca de 60 latas por dia; as máquinas do fim do século faziam milhares por hora. Em Baltimore, Thomas Kensett obteve em 1825 a primeira patente americana, e a cidade virou polo de ostras e tomates enlatados. A solda de chumbo foi apontada como suspeita no desaparecimento da expedição Franklin, em 1845, hipótese ainda debatida.

  3. A lata sanitária

    Por volta de 1900, a indústria adotou a 'lata sanitária', com corpo e tampas unidos por costura dupla mecânica e sem solda em contato com a comida. A chapa ficou mais fina, o verniz interno impediu reações com alimentos ácidos e a esterilização em autoclave ganhou tempos e temperaturas calculados. É essencialmente a lata de hoje, produzida aos bilhões.

  4. Alumínio e anel de abertura

    Em 1959, a cervejaria Coors lançou a primeira lata de bebida de alumínio, mais leve e reciclável. Em 1963, o anel de puxar de Ermal Fraze dispensou o abridor em bebidas; em 1975, Daniel Cudzik criou o anel que fica preso à tampa, hoje universal. Latas de alimentos com tampa de abertura fácil seguiram o mesmo caminho a partir dos anos 1980.

04Fatos curiosos

  • Nicolas Appert não patenteou seu método; condição do prêmio era publicá-lo, e seu livro foi traduzido para o inglês e o alemão em poucos anos.
  • Latas de carne da fábrica de Donkin e Hall, levadas por expedições árticas na década de 1820, foram abertas mais de um século depois, e o conteúdo ainda estava comestível segundo análises da época.
  • A palavra 'lata' vem do latim tardio 'latta', que designava ripa ou lâmina; em inglês, 'tin' confunde o estanho do revestimento com o ferro que forma o corpo.
  • O leite condensado, patenteado por Gail Borden em 1856, foi um dos primeiros enlatados de consumo em massa.
  • A lata de alumínio de bebidas é a embalagem mais reciclada do mundo; o metal pode ser refundido indefinidamente sem perder qualidade.
  • Andy Warhol transformou a lata de sopa Campbell em ícone da arte pop em 1962, imagem do consumo padronizado.

05Contexto social

A lata democratizou alimentos antes sazonais ou regionais. Ervilhas em janeiro, salmão longe do mar, pêssegos em cidades de inverno: a conserva desfez a dependência do calendário e da geografia muito antes do congelado. Também criou uma indústria com trabalho duro e repetitivo, em que mulheres e crianças, nas fábricas de ostras de Baltimore ou de sardinhas da Bretanha, descascavam, cortavam e enchiam latas em jornadas longas e mal pagas.

Culturalmente, a lata oscila entre a modernidade e o desprezo. Nos anos 1950, sopas e carnes enlatadas representavam a cozinha prática da dona de casa moderna; décadas depois, viraram símbolo de alimentação pobre e de excesso de sódio. Em emergências, porém, a conserva volta a ser o que era na origem: a forma mais confiável de guardar comida sem energia elétrica.

06No Brasil

As conservas chegaram ao Brasil importadas, no século XIX, como artigo de luxo nas casas de pasto e armazéns do Rio de Janeiro e de São Paulo. A produção nacional ganhou escala no século XX: a Nestlé inaugurou em Araras, no interior paulista, em 1921, sua primeira fábrica no país, de leite condensado, produto que se tornaria a base de brigadeiros e pudins. A sardinha em lata, a goiabada em lata, o extrato de tomate, o palmito e o milho verde formaram o repertório de enlatados do armário brasileiro ao longo das décadas seguintes.

A lata de alumínio para bebidas começou a ser produzida no país no fim da década de 1980 e deu origem a um dos sistemas de reciclagem mais eficientes do mundo: há mais de uma década, o Brasil recicla acima de 95 por cento das latas que consome, resultado sobretudo de uma rede de catadores e cooperativas que tira do material parte de sua renda.

07Linha do tempo

  1. 1795

    Governo francês oferece prêmio por método de conservação de alimentos.

  2. 1810

    Appert publica seu método; Durand patenteia a lata de folha de flandres em Londres.

  3. 1813

    Donkin e Hall abrem a primeira fábrica de enlatados, em Bermondsey.

  4. 1855

    Primeiro abridor de latas patenteado, por Robert Yeates.

  5. década de 1860

    Pasteur explica o papel dos micro-organismos; a Guerra Civil americana impulsiona os enlatados.

  6. c. 1900

    Lata sanitária com costura dupla substitui a solda de chumbo.

  7. 1921

    Nestlé inicia a produção de leite condensado em Araras, no Brasil.

  8. 1959

    Primeira lata de bebida de alumínio, lançada pela Coors.

  9. 1975

    Anel de abertura que fica preso à tampa é patenteado por Daniel Cudzik.

08Comparativo

Lata de conserva: 1815 e hoje
AspectoLata de 1815Lata atual
FabricaçãoÀ mão, por funileiroAutomática, milhares por minuto
FechamentoSolda de chumboCostura dupla mecânica
AberturaMartelo e talhadeiraAbridor ou anel de abertura
Peso da embalagemMaior que o do conteúdoPoucas dezenas de gramas
MaterialFerro estanhado espessoAço fino envernizado ou alumínio
PúblicoMilitares e expediçõesConsumo doméstico em massa

09Perguntas frequentes

Quem inventou a lata de conserva?

O método de conservação pelo calor é de Nicolas Appert, que usava vidro; a lata de folha de flandres foi patenteada por Peter Durand em 1810, provavelmente a partir de ideia de Philippe de Girard, e fabricada por Donkin e Hall desde 1813.

Por que o abridor demorou tanto?

As primeiras latas eram grossas e feitas para militares, que as abriam com ferramentas. Só quando a chapa ficou mais fina e o consumo doméstico cresceu, na década de 1850, surgiram os primeiros abridores.

Comida em lata perde nutrientes?

O calor da esterilização reduz parte das vitaminas sensíveis, como a C, mas preserva proteínas, minerais e fibras. Enlatados bem armazenados duram anos; o cuidado principal é com latas estufadas ou amassadas.

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11Fontes consultadas

  • Nicolas Appert, L'Art de conserver pendant plusieurs années toutes les substances animales et végétales, 1810
  • Sue Shephard, Pickled, Potted, and Canned: How the Art and Science of Food Preserving Changed the World, 2000
  • Science Museum, Londres, coleção de latas da Donkin, Hall and Gamble
  • Abralatas, relatórios anuais sobre reciclagem de latas de alumínio no Brasil
  • Henry Petroski, The Evolution of Useful Things, 1992

Este verbete foi redigido e revisado pela equipe editorial do Daily's Treasures a partir das fontes acima. Encontrou um erro? Escreva para nós.