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Verbete nº 022 · Alimentação e utensílios

Garrafa térmica

Um frasco de laboratório para gases líquidos acabou guardando o café de cada manhã.

Garrafa térmica: Um frasco de laboratório para gases líquidos acabou guardando o café de cada manhã.
Imagem: Robert Orzanna · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

01Origem

A garrafa térmica nasceu de um problema de física de baixas temperaturas. Em 1892, o químico escocês James Dewar, professor na Royal Institution de Londres, precisava armazenar gases liquefeitos, como oxigênio a quase 200 graus negativos, sem que evaporassem em minutos. A solução foi um frasco de vidro de parede dupla, com o ar retirado do espaço entre as paredes. Sem ar, não há condução nem convecção de calor; para reduzir a radiação, Dewar prateou as superfícies internas. O 'vaso de Dewar' passou a ser peça básica de laboratórios e segue sendo chamado assim na ciência.

Dewar não patenteou a invenção, atitude comum entre cientistas da época, que viam o frasco como instrumento, não como produto. Quem percebeu o potencial comercial foram os vidreiros alemães que fabricavam os vasos para ele. Reinhold Burger, de Berlim, e seu sócio Albert Aschenbrenner acrescentaram uma carcaça metálica protetora e uma tampa, e registraram patente na Alemanha em 1903. No ano seguinte, abriram um concurso para batizar o produto; o vencedor sugeriu 'Thermos', do grego 'thermē', calor, e a Thermos GmbH foi fundada em 1904.

Dewar processou a empresa pelo uso da ideia e perdeu, pois nunca a registrara. Em 1907, a Thermos vendeu os direitos para empresas nos Estados Unidos, na Inglaterra e no Canadá, e a garrafa saiu do laboratório para a vida cotidiana. O nome da marca se tornou tão difundido que, nos Estados Unidos, um tribunal o declarou termo genérico em 1963. Em português, a palavra 'térmica' já designa o objeto, e 'garrafa térmica' é entendida sem referência a qualquer fabricante.

02Período histórico

O fim do século XIX foi a era da liquefação dos gases. Entre 1877 e 1898, cientistas conseguiram liquefazer oxigênio, nitrogênio e, por fim, hidrogênio, este último por Dewar. Cada avanço exigia recipientes melhores, e a garrafa térmica é um subproduto dessa corrida, assim como os primeiros frigoríficos industriais.

Quando chegou ao comércio, a garrafa encontrou uma sociedade em movimento: trens, automóveis, piqueniques, expedições e, logo, trincheiras. Carregar bebida quente ou fria por horas respondia a um estilo de vida urbano e a uma nova relação com o tempo, em que a refeição nem sempre acontecia em casa.

03Evolução ao longo do tempo

  1. O vaso de laboratório

    O frasco original de Dewar era um vidro nu, frágil, de boca larga, sem tampa própria, apoiado em suportes de laboratório. Serviu para guardar oxigênio e hidrogênio líquidos e, mais tarde, hélio. Versões maiores, com dezenas de litros, são usadas até hoje para transportar nitrogênio líquido em hospitais e centros de pesquisa, com o mesmo princípio de parede dupla sob vácuo.

  2. A Thermos de metal e vidro

    A versão de Burger juntou ampola de vidro espelhado, carcaça de latão ou aço niquelado, base amortecida e tampa rosqueada que servia de copo. Esse formato, com poucas mudanças, dominou o século XX. As ampolas quebravam com facilidade, e trocá-las era serviço comum em casas de ferragens; muita gente lembra do tilintar de vidro partido ao sacudir uma garrafa que caiu.

  3. Expedições e guerras

    Nos primeiros anos, a garrafa térmica viajou com Ernest Shackleton à Antártida, com Robert Peary ao Ártico e nos aviões dos irmãos Wright, e a publicidade explorou esses nomes. Na Primeira Guerra, foi fornecida a pilotos e oficiais; na Segunda, a produção em massa a colocou nas lancheiras de operários e soldados, muitas vezes decorada com personagens e marcas.

  4. Aço inoxidável e parede dupla metálica

    A partir da década de 1960, fabricantes japoneses como a Nippon Sanso desenvolveram garrafas totalmente de aço inoxidável, com o vácuo entre duas paredes de metal soldadas, sem vidro para quebrar. Mais leves e resistentes, dominaram o mercado a partir dos anos 1980 e deram origem às atuais garrafas esportivas e copos térmicos de parede dupla.

04Fatos curiosos

  • Dewar também desenvolveu, com Frederick Abel, a cordite, explosivo sem fumaça da artilharia britânica, e foi o primeiro a liquefazer o hidrogênio, em 1898.
  • O concurso que batizou a 'Thermos', em 1904, foi vencido por um morador de Munique, e a marca foi registrada em diversos países nos anos seguintes.
  • Nos Estados Unidos, 'thermos' é hoje substantivo comum; a decisão judicial de 1963 reconheceu que o público usava o nome para qualquer garrafa a vácuo.
  • A tampa que serve de copo surgiu já nas primeiras garrafas comerciais, e a rolha de cortiça só foi substituída por tampas de plástico na segunda metade do século XX.
  • Um bom isolamento a vácuo mantém o café acima de 60 graus por mais de doze horas; o calor escapa sobretudo pela tampa, único ponto sem vácuo.
  • Cuias e bombas de chimarrão não mantêm temperatura; por isso a garrafa térmica se tornou companheira inseparável do mate no Sul do Brasil, na Argentina e no Uruguai.

05Contexto social

A garrafa térmica democratizou algo que antes dependia de fogo: a bebida quente fora de casa. Para operários, motoristas, pescadores e trabalhadores rurais, ela significou café quente no intervalo e sopa no turno da noite. A lancheira com garrafa foi, nos Estados Unidos dos anos 1950, objeto de identidade infantil e de marketing, com estampas de personagens de cinema e televisão.

Há também uma geografia da garrafa. Em países de chá e café, ela é objeto de escritório e de cozinha; na bacia do Prata, acompanha a cuia de mate por ruas e praias, e carregar a térmica debaixo do braço virou gesto de identidade regional. Em hospitais e laboratórios, versões grandes transportam vacinas, amostras e nitrogênio, lembrando a origem científica do objeto.

06No Brasil

No Brasil, a garrafa térmica tem dois territórios bem definidos. No Sul, especialmente no Rio Grande do Sul, ela carrega a água quente do chimarrão, entre 70 e 80 graus, e faz parte da paisagem de parques, estádios e ônibus; no Centro-Oeste, acompanha o tereré com água gelada. No restante do país, é a garrafa do café: o modelo de bomba, com alavanca no alto, é padrão em escritórios, padarias, oficinas e repartições públicas, servindo o cafezinho que se oferece a qualquer visita.

A fabricação nacional se concentrou na indústria gaúcha e paulista. A Termolar, de Porto Alegre, e a Invicta, marca da Aladdin no Brasil, dominaram o mercado por décadas, com ampolas de vidro produzidas no país. Nos anos 2010, garrafas de aço inoxidável importadas e copos térmicos de parede dupla ganharam espaço, mas a térmica de bomba e a garrafa de um litro do chimarrão continuam entre os objetos mais vendidos do gênero.

07Linha do tempo

  1. 1892

    James Dewar cria o frasco a vácuo na Royal Institution de Londres.

  2. 1898

    Dewar liquefaz o hidrogênio, usando seus próprios frascos.

  3. 1903

    Reinhold Burger patenteia a garrafa térmica comercial na Alemanha.

  4. 1904

    Concurso batiza o produto de 'Thermos'; fundação da Thermos GmbH.

  5. 1907

    Direitos vendidos para Estados Unidos, Inglaterra e Canadá.

  6. 1907 a 1909

    Garrafas térmicas acompanham expedições de Shackleton e Peary.

  7. 1963

    Tribunal americano declara 'thermos' termo genérico.

  8. década de 1980

    Garrafas de aço inoxidável de parede dupla se popularizam.

08Comparativo

Garrafa térmica: 1904 e hoje
AspectoThermos de 1904Garrafa atual
AmpolaVidro espelhadoAço inoxidável ou vidro
CarcaçaLatão ou aço niqueladoAço ou plástico
VedaçãoRolha de cortiçaTampa de plástico com rosca ou bomba
FragilidadeQuebrava com facilidadeResiste a quedas, nos modelos de aço
Uso principalViagens e expediçõesCafé, mate, água e bebidas esportivas
PreçoArtigo de luxoProduto popular

09Perguntas frequentes

Quem inventou a garrafa térmica?

O princípio é do químico escocês James Dewar, em 1892. A garrafa comercial, com carcaça e tampa, foi patenteada pelo alemão Reinhold Burger em 1903 e vendida sob a marca Thermos.

Como a garrafa térmica mantém a temperatura?

Duas paredes separadas por vácuo impedem a passagem de calor por condução e convecção; o espelhamento interno reduz a radiação. O calor escapa devagar, principalmente pela tampa.

Por que Dewar não ficou rico com a invenção?

Ele não patenteou o frasco, por considerá-lo instrumento científico. Quando processou a Thermos, os tribunais entenderam que a empresa havia patenteado melhorias legítimas sobre uma ideia que era de domínio público.

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11Fontes consultadas

  • Royal Institution, Londres, arquivos de James Dewar
  • Science Museum Group, coleção de frascos a vácuo e garrafas Thermos
  • Deutsches Patent- und Markenamt, registro da patente de Reinhold Burger, 1903
  • Henry Petroski, The Evolution of Useful Things, 1992

Este verbete foi redigido e revisado pela equipe editorial do Daily's Treasures a partir das fontes acima. Encontrou um erro? Escreva para nós.