01Origem
Em 1948, Bernard Silver, estudante de pós-graduação do Drexel Institute of Technology, na Filadélfia, ouviu por acaso o dono de uma rede de supermercados pedir ao diretor da escola um sistema que lesse automaticamente as informações de um produto no caixa. Silver levou o problema ao amigo Norman Joseph Woodland, que havia aprendido código Morse nos escoteiros. Numa praia de Miami, Woodland desenhou na areia pontos e traços e, em seguida, os esticou para baixo, formando linhas finas e grossas. Depois, curvou-as em círculos concêntricos, para que pudessem ser lidas em qualquer direção.
Os dois pediram a patente em outubro de 1949 e a receberam em outubro de 1952, sob o título de aparelho e método de classificação. A ideia estava décadas à frente da técnica: a leitura exigia uma lâmpada de 500 watts e uma fotocélula, e não havia computador barato para processar os dados. A patente foi vendida à Philco em 1952, por 15 mil dólares, e depois passou à RCA. Woodland foi trabalhar na IBM, onde tentou sem sucesso convencer a empresa a desenvolver o sistema.
A peça que faltava apareceu em 1960, com o laser, e em seguida com os circuitos integrados. Nos anos 1960, David Collins criou para a Sylvania o KarTrak, código de barras coloridas para identificar vagões de trem, adotado pelas ferrovias americanas em 1967 e abandonado na década seguinte. Em 1972, a RCA testou o código circular num supermercado Kroger de Cincinnati, mas a tinta borrava nos círculos. Em abril de 1973, um comitê do setor supermercadista escolheu a proposta linear da IBM, desenhada por George Laurer: o Código Universal de Produto, UPC.
02Período histórico
O código de barras é filho do supermercado de autosserviço, que se espalhou pelos Estados Unidos após a Segunda Guerra. Com milhares de itens e filas no caixa, a digitação de preços era lenta, sujeita a erros e exigia etiquetar cada produto à mão. O controle de estoque era feito em fichas, e as redes perdiam dinheiro com produtos vencidos ou em falta.
Nos anos 1960 e 1970, a eletrônica barateou rapidamente, com o laser, o transistor e o microprocessador, e as grandes redes de varejo passaram a investir em computação. Era também a época em que a indústria de alimentos se concentrava em poucas marcas nacionais, capazes de imprimir um código padronizado em embalagens vendidas em todo o país.
03Evolução ao longo do tempo
UPC e EAN: o padrão mundial (1973-1977)
O UPC usa doze dígitos: o primeiro indica o tipo de produto, os cinco seguintes identificam o fabricante, outros cinco o item e o último é um dígito de verificação. Em 26 de junho de 1974, no supermercado Marsh de Troy, em Ohio, um pacote de chicletes Juicy Fruit foi o primeiro produto lido com o novo sistema. Em 1977, os países europeus criaram o EAN, com treze dígitos e um prefixo por organização nacional, compatível com o UPC. O padrão se tornou global e hoje é administrado pela GS1.
Além do supermercado (1980-2000)
Códigos como o 39 e o 128, capazes de representar letras, levaram as barras à indústria, aos hospitais, às bibliotecas, aos correios e aos cartões de embarque. A logística passou a rastrear caixas e paletes, e os leitores a laser portáteis e as impressoras térmicas de etiquetas baratearam a adoção. A redução de erros no caixa e o controle de estoque em tempo real mudaram a gestão do varejo e permitiram a expansão de redes gigantes como o Walmart.
Códigos bidimensionais (1994-hoje)
Em 1994, a Denso Wave, do grupo Toyota, criou o código QR, lido por câmera e capaz de guardar milhares de caracteres, pensado para peças de automóveis. Com a câmera dos smartphones, o QR saiu da fábrica para os cardápios, as passagens, os pagamentos e as campanhas de propaganda. A GS1 planeja que os caixas do mundo aceitem códigos bidimensionais ao lado das barras tradicionais, que carregam, além da identidade do produto, lote, validade e links.
04Fatos curiosos
- O pacote de chicletes lido em 1974 em Troy, Ohio, está no acervo do Museu Nacional de História Americana do Smithsonian, em Washington.
- O código de barras não contém o preço: ele identifica o produto, e o preço é buscado no banco de dados da loja, o que permite promoções sem trocar etiquetas.
- Woodland recebeu em 1992 a Medalha Nacional de Tecnologia dos Estados Unidos; Silver morreu em 1963, antes de ver o invento em uso.
- As barras de guarda, mais longas, nas extremidades e no centro do código, geraram nos anos 1980 a lenda de que o código esconderia o número 666; elas apenas sinalizam ao leitor onde começa e termina a sequência.
- O último dígito do código é calculado a partir dos anteriores e serve para o leitor conferir se a leitura foi correta.
05Contexto social
O código mudou o trabalho no caixa. A operadora deixou de memorizar preços e digitar números, o que acelerou as filas, mas também reduziu a qualificação exigida e aumentou o controle sobre a produtividade de cada funcionário, medida em itens por minuto. A etiqueta de preço em cada produto desapareceu em muitos países, o que gerou protestos de consumidores e leis obrigando a exibição do preço na gôndola.
Para as empresas, a identificação automática criou um fluxo de dados sobre o que se vende, onde e quando, base dos programas de fidelidade, da reposição automática e do comércio eletrônico. Esse mesmo fluxo abriu discussões sobre privacidade e sobre o poder das grandes redes diante dos fornecedores.
Fora do comércio, o código de barras tornou-se infraestrutura invisível de hospitais, que o usam em pulseiras de pacientes e medicamentos, de bibliotecas, de correios e de aeroportos. Poucas invenções do século XX são tão onipresentes e tão pouco notadas.
06No Brasil
O Brasil aderiu ao sistema europeu no fim de 1983, com a fundação da Associação Brasileira de Automação Comercial, a ABAC, que teve Antônio Galvão Vasconcelos como primeiro presidente, depois chamada EAN Brasil e hoje GS1 Brasil. Os códigos licenciados no país começam com os prefixos 789 e 790, que indicam a entidade responsável pelo registro, e não o local de fabricação do produto, como muitos acreditam.
A leitura ótica espalhou-se pelos supermercados nos anos 1990, com a estabilização da moeda e a modernização do varejo. O código de barras está no boleto bancário, nas notas fiscais eletrônicas e nas contas de luz, e a Lei 10.962, de 2004, regulou a exibição de preços nas lojas que o utilizam, exigindo leitores à disposição do consumidor. Em 2020, o QR code do Pix levou o princípio da identificação automática aos pagamentos entre pessoas.
07Linha do tempo
- 1949
Woodland e Silver pedem a patente do código de círculos concêntricos.
- 1952
A patente é concedida e vendida à Philco.
- 1967
As ferrovias americanas adotam o KarTrak para identificar vagões.
- 1973
O setor supermercadista escolhe o UPC, desenhado por George Laurer, da IBM.
- 1974
Um pacote de chicletes é o primeiro produto lido por código de barras, em Troy, Ohio.
- 1977
Nasce o padrão europeu EAN, de treze dígitos.
- 1983
É fundada no Brasil a ABAC, hoje GS1 Brasil.
- 1994
A Denso Wave cria o código QR no Japão.
08Comparativo
| Aspecto | Código de barras (EAN) | Código QR |
|---|---|---|
| Criado em | 1973 (UPC) e 1977 (EAN) | 1994 |
| Capacidade | 13 dígitos | Milhares de caracteres |
| Leitura | Laser ou câmera, em uma direção | Câmera, em qualquer direção |
| Tolerância a danos | Baixa | Alta, com correção de erros |
| Uso típico | Identificar produtos no caixa | Pagamentos, links, ingressos |
09Perguntas frequentes
Quem inventou o código de barras?
Norman Joseph Woodland e Bernard Silver, que patentearam em 1952 um código de círculos concêntricos. O formato de barras verticais usado hoje foi desenhado por George Laurer, da IBM, e adotado em 1973.
O prefixo 789 significa que o produto é brasileiro?
Não. Indica que o código foi licenciado pela GS1 Brasil, o que uma empresa estrangeira também pode fazer. O local de fabricação consta apenas na embalagem.
O código de barras vai acabar?
Não a curto prazo. A GS1 planeja que os caixas aceitem também códigos bidimensionais, como o QR, que guardam mais informação, mas as barras lineares continuarão impressas nas embalagens por muitos anos.
10Conteúdos relacionados
Lata de conserva
História da lata de conserva: do método de Nicolas Appert e da patente de Peter Durand, em 1810, à lata de alumínio e às sardinhas e goiabadas do Brasil.
Calculadora
A calculadora mecânica nasceu com Schickard e Pascal no século XVII, virou produto com o aritmômetro em 1851 e chegou ao bolso com chips na década de 1970.
Moeda
As primeiras moedas surgiram na Lídia por volta de 600 a.C. Veja como o disco de metal organizou economias, chegou ao Brasil e hoje cede lugar ao dinheiro digital.
Selo postal
A reforma de Rowland Hill, o Penny Black de 1840 e o Olho-de-Boi de 1843: como o selo postal baratizou a correspondência e virou objeto de coleção.
11Fontes consultadas
- Patente norte-americana 2.612.994, Classifying Apparatus and Method, Norman J. Woodland e Bernard Silver, 1952
- Stephen A. Brown, Revolution at the Checkout Counter: The Explosion of the Bar Code, Harvard University Press, 1997
- Smithsonian National Museum of American History, acervo sobre o primeiro produto lido por código de barras
- GS1 Brasil, Conhecendo o código de barras, caderno técnico
- Jordan Frith, Barcode, Bloomsbury Object Lessons, 2023
Este verbete foi redigido e revisado pela equipe editorial do Daily's Treasures a partir das fontes acima. Encontrou um erro? Escreva para nós.




