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Verbete nº 017 · Alimentação e utensílios

Garfo

O talher que a Europa demorou séculos para aceitar e que hoje parece ter existido desde sempre.

Idade Média Alimentar Utensílio Império Bizantino · c. século XI
Garfo: O talher que a Europa demorou séculos para aceitar e que hoje parece ter existido desde sempre.
Imagem: Bayne and Napier R.G. Reid · Wikimedia Commons · CC0 (domínio público)

01Origem

Garfos grandes, de duas pontas, existem desde a Antiguidade: gregos e romanos os usavam para segurar carne no espeto ou retirar pedaços de caldeirões fervendo. Eram instrumentos de cozinha e de altar, não de mesa. O garfo individual, levado à boca, é outra história, e ela começa no Império Bizantino. Entre os séculos VII e XI, a corte de Constantinopla já tinha pequenos garfos de prata ou ouro, geralmente de duas pontas, usados para comer frutas em calda e doces pegajosos sem sujar os dedos. Essa é a origem mais aceita pelos historiadores, embora a data exata do primeiro garfo de mesa permaneça incerta.

A chegada do objeto à Europa ocidental é contada por meio de uma princesa. Segundo o cardeal Pedro Damião, que escreveu em meados do século XI, a esposa bizantina do filho do doge de Veneza se recusava a tocar a comida com as mãos e a levava à boca com um pequeno garfo de ouro. O religioso viu nisso um sinal de vaidade e tratou a morte precoce da moça como castigo divino. A identificação dela com Maria Argiropulina, casada em 1004, é a hipótese mais aceita; uma versão alternativa atribui o gesto a Teofano, casada com o imperador Otão II em 972.

O garfo só se firmou na Itália entre os séculos XIV e XVI, e não por acaso: a massa longa, escorregadia e quente, era difícil de comer com os dedos. Dali ele seguiu para a França e para a Inglaterra, sempre com resistência. O viajante inglês Thomas Coryat, que descreveu os garfos italianos em 1611, foi ridicularizado pelos compatriotas e apelidado de 'furcifer', literalmente 'portador de forquilha'. Em boa parte da Europa, comer com as mãos continuou sendo o normal até o século XVIII.

02Período histórico

O garfo de mesa nasce no mundo bizantino, uma sociedade urbana, cristã e rica, herdeira direta de Roma, onde a corte cultivava rituais de refeição que separavam o imperador do restante da população. O objeto pertence a esse ambiente de ouro, seda e doces de mel, distante da Europa feudal da mesma época, em que senhores e camponeses comiam com a faca pessoal, a colher e os dedos, sobre fatias de pão que serviam de prato.

Quando o garfo ganha a Itália renascentista, o contexto é outro: cidades mercantis, banquetes como exibição de poder e um novo cuidado com os modos à mesa, codificado em tratados de civilidade como o de Erasmo de Roterdã, publicado em 1530. A mesa vira palco de distinção, e o garfo, um dos atores.

03Evolução ao longo do tempo

  1. Duas pontas retas

    Os primeiros garfos de mesa tinham duas pontas retas e longas, boas para espetar, péssimas para recolher grãos ou molho. Eram peças pessoais, guardadas em estojos de couro e levadas de casa em casa, porque anfitriões não forneciam talheres aos convidados. Em muitos inventários do século XVI, o garfo aparece como joia, avaliado pelo peso da prata.

  2. Três e quatro dentes

    No século XVII, artesãos franceses e alemães passaram a fabricar garfos de três e depois de quatro dentes, mais curtos e levemente curvados, o que permitiu usar o talher também como pequena pá. A curvatura foi uma resposta prática às comidas da época: ervilhas, arroz e purês. Por volta de 1700, o modelo de quatro dentes já era comum nas mesas abastadas da França, e no século XIX tornou-se o padrão da Europa e das Américas.

  3. Prata, alpaca e aço inoxidável

    A eletrodeposição, patenteada pelos irmãos Elkington em Birmingham em 1840, permitiu cobrir metais baratos com fina camada de prata, e o garfo saiu das casas ricas para a classe média. Em 1913, Harry Brearley, em Sheffield, desenvolveu o aço inoxidável; na década de 1920, talheres que não enferrujavam nem precisavam de polimento chegaram às lojas. Foi esse material que fez do garfo um objeto universal, vendido em jogos de dezenas de peças.

  4. Especialização e descarte

    A etiqueta vitoriana multiplicou os formatos: garfo de peixe, de ostra, de sobremesa, de salada, de caracol. Cada um tinha lugar definido à mesa, e saber distingui-los era prova de boa educação. O século XX seguiu o caminho inverso, com jogos simplificados e, a partir dos anos 1950, garfos descartáveis de plástico, hoje alvo de restrições ambientais em vários países.

04Fatos curiosos

  • Em parte do clero medieval, o garfo era visto com desconfiança por lembrar o tridente, atributo do diabo nas representações da época, e por sugerir que os dedos dados por Deus não bastavam.
  • A ideia de que Catarina de Médici levou o garfo para a França em 1533, ao se casar com o futuro Henrique II, é repetida há séculos, mas historiadores a tratam como lenda: garfos já constavam em inventários franceses anteriores.
  • A Marinha Real britânica serviu refeições sem garfos até o século XIX; marinheiros comiam com faca e colher.
  • A palavra 'garfo' vem do latim 'graphium', estilete de escrever, que em português passou a designar objetos pontiagudos antes de se fixar no talher.
  • Na França, os garfos são postos à mesa com os dentes para baixo, para exibir o brasão gravado no dorso; na Inglaterra, com os dentes para cima.

05Contexto social

Por séculos, o garfo foi marcador de classe. Possuir um exemplar de prata, carregá-lo em estojo e saber manejá-lo separava a aristocracia do resto. Tratados de civilidade do Renascimento ensinavam a não lamber os dedos, a não devolver o osso à travessa comum e, aos poucos, a usar o garfo; o sociólogo Norbert Elias viu nessa mudança um capítulo do 'processo civilizador', em que o controle do corpo à mesa reflete o controle social.

Houve também uma dimensão de gênero: nos primeiros relatos europeus, o garfo aparece associado a mulheres, a afetação e a melindre, enquanto o homem comia com a faca. A difusão do aço inoxidável no século XX dissolveu essas distinções. O garfo se tornou mercadoria industrial, presente em refeitórios de fábrica, escolas e quartéis, e seu uso passou a ser ensinado como norma básica de higiene, não de elegância.

06No Brasil

No Brasil colonial, o garfo era raridade importada. Inventários de Minas Gerais e da Bahia no século XVIII registram talheres de prata entre os bens de famílias ricas, mas a maioria da população comia com colher, faca e as mãos, muitas vezes em cuias e pratos de barro. A transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro, em 1808, e as encomendas de baixelas europeias que se seguiram espalharam o hábito entre a elite, como registrou o pintor Jean-Baptiste Debret, que viveu no país entre 1816 e 1831.

A industrialização chegou no século XX. Fábricas de talheres se instalaram em São Paulo e no Rio Grande do Sul, e a Tramontina, fundada em Carlos Barbosa em 1911 como pequena ferraria, tornou-se grande produtora de talheres de aço inoxidável. Na mesa brasileira, o garfo divide espaço com a colher no prato de arroz com feijão, e muita gente prefere juntar os dois talheres em vez de usar a faca.

07Linha do tempo

  1. Antiguidade

    Garfos grandes de bronze servem em cozinhas e rituais gregos e romanos.

  2. c. 1000

    A corte bizantina usa pequenos garfos de metal precioso para doces e frutas.

  3. 1004

    Casamento de Maria Argiropulina em Veneza; relato do garfo de ouro condenado por Pedro Damião.

  4. 1533

    Catarina de Médici se casa na França; a tradição lhe atribui a difusão do garfo, versão contestada.

  5. 1611

    Thomas Coryat publica relato sobre os garfos italianos e é ridicularizado na Inglaterra.

  6. c. 1700

    O garfo de quatro dentes curvos se consolida na França.

  7. 1840

    Patente da eletrodeposição de prata em Birmingham barateia os talheres.

  8. 1913

    Harry Brearley desenvolve o aço inoxidável em Sheffield.

08Comparativo

Garfo de mesa: século XVI e hoje
AspectoSéculo XVIHoje
MaterialPrata, ouro ou ferroAço inoxidável
DentesDois, retosQuatro, curvados
Quem possuíaNobreza e grandes mercadoresPraticamente todos os lares
Onde ficavaEstojo pessoal do donoGaveta da cozinha
FunçãoEspetar doces e frutasEspetar, cortar e recolher

09Perguntas frequentes

Quem inventou o garfo?

Ninguém em particular. Garfos de servir existem desde a Antiguidade; o garfo de mesa surgiu na corte bizantina por volta do século X e chegou à Itália no século XI, espalhando-se lentamente pela Europa.

Por que o garfo tem quatro dentes?

O modelo de quatro dentes curvos, fixado na França por volta de 1700, equilibra duas funções: espetar e recolher. Com dois dentes, grãos e molhos escapam; com cinco ou mais, o talher fica pesado e difícil de levar à boca.

Quando o garfo se popularizou no Brasil?

Era objeto de elite na colônia e no Império. Só com os talheres de aço inoxidável produzidos em escala industrial, a partir de meados do século XX, passou a ser comum em todas as classes.

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11Fontes consultadas

  • Bee Wilson, Consider the Fork: A History of How We Cook and Eat, 2012
  • Norbert Elias, O processo civilizador, vol. 1, 1939
  • Chiara Frugoni, Medioevo sul naso: occhiali, bottoni e altre invenzioni medievali, 2001
  • Henry Petroski, The Evolution of Useful Things, 1992
  • Victoria and Albert Museum, coleção de talheres, Londres

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