01Origem
A colher não tem inventor nem pátria. Ela deriva de gestos e objetos anteriores a qualquer registro escrito: a mão em concha, a casca de fruta, a concha de molusco presa a um pedaço de pau. O próprio nome guarda essa memória. 'Colher' vem do latim 'cochleare', o utensílio para comer caracóis ('cochlea'), e o inglês 'spoon' vem de uma palavra germânica que significava lasca de madeira. Sítios neolíticos da China e da Europa central já renderam colheres de osso e de chifre com cerca de sete mil anos, usadas provavelmente para papas de cereais, as primeiras comidas que não podiam ser levadas à boca com os dedos.
Os exemplares mais elaborados da Antiguidade vêm do Egito. Entre 1500 e 1000 a.C., artesãos produziram colheres de marfim, madeira e ardósia com cabos esculpidos em forma de moças nadando, patos ou flores de lótus. Muitas foram achadas em túmulos e provavelmente serviam para unguentos e oferendas, não para comer. Já gregos e romanos tinham dois tipos bem definidos: o 'cochlear', pequeno, de concha redonda e cabo pontudo, usado para ovos e moluscos, e a 'ligula', maior e oval, para sopas e caldos.
Na Idade Média, a colher era o talher pessoal por excelência. Cada pessoa levava a sua, de madeira, chifre, estanho ou latão, e os ricos tinham exemplares de prata com o cabo gravado. Ela aparece em testamentos como bem valioso e era dada de presente em batizados; daí a expressão inglesa de que alguém 'nasceu com uma colher de prata na boca'. Ao contrário do garfo, nunca sofreu resistência moral ou religiosa: era vista como extensão natural da mão.
02Período histórico
A colher pertence ao mundo em que a humanidade começou a cozinhar em recipientes: panelas de barro, caldeirões, sopas e papas de cereais. Esse é o contexto do Neolítico, quando a agricultura fixou grupos humanos em aldeias e criou alimentos moles, quentes e líquidos. Antes disso, carne assada e frutas dispensavam talheres.
Nas civilizações do Mediterrâneo antigo, a colher ganhou a função de distinguir: no Egito e em Roma, a matéria-prima, fosse marfim, prata ou bronze, dizia a quem o objeto pertencia. A Idade Média europeia, com suas mesas coletivas e pouca louça individual, manteve a colher como objeto íntimo, do qual não se separava nem em viagem.
03Evolução ao longo do tempo
Concha, chifre e madeira
Por milênios, a colher foi feita do que a natureza oferecia: conchas de molusco amarradas a cabos, chifre de boi aquecido e moldado, madeira entalhada. Esse último material atravessou toda a história e segue na cozinha de hoje. A madeira não risca panelas, não esquenta demais e não altera o gosto da comida, o que explica a permanência da colher de pau mesmo após a chegada dos metais.
Prata e as colheres dos apóstolos
Entre os séculos XV e XVII, ourives ingleses e alemães produziram as 'colheres dos apóstolos', jogos de doze ou treze peças de prata com a figura de um apóstolo no topo do cabo, dadas como presente de batismo. Nessa época, a concha era em forma de figo, estreita junto ao cabo e larga na ponta. Os jogos completos são hoje raridades de museu.
A forma moderna
No século XVIII, a concha ganhou o formato oval e o cabo ficou mais largo e chato, um desenho que os ourives ingleses chamaram de 'Old English' e que ainda define a colher de mesa. Surgiram também tamanhos padronizados: sopa, sobremesa, chá, café. A padronização virou medida: a colher de sopa equivale a cerca de 15 ml e a de chá a 5 ml em receitas de todo o mundo.
Metais baratos para todos
Em 1743, Thomas Boulsover, em Sheffield, descobriu como fundir uma fina lâmina de prata sobre cobre, criando o 'Sheffield plate'. Em 1840, a eletrodeposição dos Elkington tornou isso mais barato ainda, e a alpaca prateada entrou nas casas de classe média. Com o aço inoxidável, a partir da década de 1920, a colher virou produto industrial de baixo custo, e a de plástico, após os anos 1950, item descartável.
04Fatos curiosos
- O 'cochlear' romano tinha o cabo pontudo por uma razão prática: servia para espetar e retirar caracóis e moluscos da concha antes de comê-los com a parte côncava.
- No País de Gales, ainda se entalham 'colheres de amor', peças de madeira ornamentadas que, a partir do século XVII, rapazes ofereciam como pedido de namoro.
- Colheres cosméticas egípcias com cabo em forma de mulher nadando estão entre os objetos mais reproduzidos da arte do Novo Império e aparecem em museus do Cairo, de Paris e de Londres.
- A expressão 'colher de chá', no Brasil, saiu da mesa para a linguagem: significa uma concessão ou facilidade dada a alguém.
- Jogos completos de colheres dos apóstolos do século XVI alcançam valores altíssimos em leilões: a maioria foi fundida ao longo dos séculos para reaproveitar a prata.
- A colher é o primeiro talher que uma criança aprende a usar, e por isso serve a pediatras como marco de desenvolvimento motor.
05Contexto social
Por ser barata e fácil de fazer, a colher foi o talher dos pobres e, em prata, o dos ricos. Essa dupla identidade a tornou um dos poucos objetos presentes em todas as camadas sociais da Europa pré-industrial. Camponeses a entalhavam no inverno; artesãos de estanho a vendiam em feiras; ourives a cinzelavam para a nobreza. Em muitas famílias, a colher de prata era o único bem valioso, penhorado em tempos de aperto e recuperado depois.
A colher também estrutura o trabalho da cozinha. A colher de pau, instrumento de quem cozinha, foi por séculos associada ao trabalho feminino doméstico e, nas mãos de cozinheiros profissionais, ganhou versões de metal e tamanhos industriais. Na indústria alimentar moderna, ela se transformou em medida: receitas, bulas de remédio e rótulos usam 'colheres' como unidade informal, o que só funciona porque o objeto está em toda parte.
06No Brasil
Antes da chegada dos portugueses, os povos indígenas do Brasil usavam cuias e cabaças cortadas como conchas, além de pequenas colheres de madeira e de osso, e essa tradição seguiu viva nas cozinhas do interior. Na colônia, a colher de prata era bem de inventário, citada em testamentos de Minas Gerais e de Pernambuco, enquanto a maioria da população comia com a colher de madeira ou de chifre.
Hoje a colher brasileira tem dois símbolos. O primeiro é a colher de pau, presente em quase toda cozinha caseira para mexer feijão, doce de leite e polenta, ainda que a vigilância sanitária desaconselhe madeira em cozinhas comerciais por reter umidade. O segundo é a colher de mesa de aço inoxidável, que no prato de arroz com feijão muitas vezes substitui o garfo. A Tramontina, no Rio Grande do Sul, está entre os maiores fabricantes mundiais de talheres de aço.
07Linha do tempo
- c. 5000 a.C.
Colheres de osso e chifre aparecem em sítios neolíticos da China e da Europa.
- c. 1400 a.C.
Egípcios do Novo Império produzem colheres cosméticas de marfim e madeira com cabos esculpidos.
- século I
Romanos usam o 'cochlear' e a 'ligula', dois tipos de colher para funções diferentes.
- século XV
Ourives ingleses produzem as primeiras colheres dos apóstolos.
- 1743
Thomas Boulsover cria o Sheffield plate, prata fundida sobre cobre.
- c. 1760
Concha oval e cabo chato definem a colher de mesa moderna.
- 1840
Eletrodeposição de prata patenteada pelos irmãos Elkington.
- década de 1920
Talheres de aço inoxidável chegam ao mercado.
08Comparativo
| Aspecto | Idade Média | Hoje |
|---|---|---|
| Material | Madeira, chifre, estanho ou prata | Aço inoxidável, madeira, plástico |
| Propriedade | Pessoal; cada um levava a sua | Da casa, em jogos |
| Formato da concha | Redondo ou em figo | Oval |
| Tamanhos | Um ou dois | Sopa, sobremesa, chá, café |
| Valor | Bem de testamento | Produto de baixo custo |
09Perguntas frequentes
Qual é o talher mais antigo?
A colher. Exemplares de osso e chifre com cerca de sete mil anos foram encontrados em sítios neolíticos, muito antes do garfo de mesa, que só surge na Idade Média.
De onde vem a palavra colher?
Do latim 'cochleare', o pequeno utensílio usado pelos romanos para comer caracóis ('cochlea'). O verbo 'colher', de apanhar, tem outra origem ('colligere'), apesar da grafia idêntica.
Por que a colher de pau ainda é usada?
Porque não risca panelas, não conduz calor para a mão e não reage com alimentos ácidos. Em cozinhas comerciais, porém, costuma ser substituída por silicone ou nylon por razões de higiene.
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11Fontes consultadas
- Bee Wilson, Consider the Fork: A History of How We Cook and Eat, 2012
- Museu Britânico, coleção de colheres egípcias e romanas, Londres
- Simon Moore, Spoons 1650-2000, Shire Publications, 2005
- Henry Petroski, The Evolution of Useful Things, 1992
- Luís da Câmara Cascudo, História da Alimentação no Brasil, 1967
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