01Origem
O semáforo é mais velho que o automóvel. Em 10 de dezembro de 1868, a polícia de Londres instalou diante do Parlamento, na esquina de Bridge Street com Great George Street, um poste de ferro fundido de cerca de seis metros com dois braços móveis, inspirados nos sinais ferroviários, e lanternas a gás vermelha e verde para a noite. O projeto era do engenheiro ferroviário John Peake Knight, e o objetivo não era controlar carros, que ainda não existiam, mas proteger pedestres e parlamentares do tráfego de carruagens e ônibus puxados a cavalo. Um policial operava os braços manualmente com uma alavanca.
O aparelho durou pouco. Em janeiro de 1869, um vazamento fez a lanterna explodir e feriu gravemente o policial de serviço; o sinal foi retirado, e a ideia ficou adormecida por mais de quarenta anos. Quando voltou, já havia automóveis e um problema novo: cruzamentos urbanos nos quais veículos rápidos chegavam de quatro direções. Nos Estados Unidos, policiais de trânsito em torres ou tablados começaram a reger o tráfego com apitos e placas, e vários deles, sem formação técnica, foram os responsáveis pelos primeiros sinais luminosos elétricos.
Costuma-se citar o policial Lester Wire, de Salt Lake City, que em 1912 teria montado uma caixa de madeira com lâmpadas vermelha e verde, mas o registro é indireto e ele não patenteou nada. O primeiro sinal elétrico bem documentado funcionou em Cleveland, em 5 de agosto de 1914, no cruzamento da Euclid Avenue com a East 105th Street, instalado pela American Traffic Signal Company a partir do projeto de James Hoge. Tinha luzes vermelha e verde e uma campainha que avisava a troca; era operado de uma cabine, e a polícia podia interromper tudo para a passagem dos bombeiros.
02Período histórico
O semáforo nasceu na Londres vitoriana, a maior cidade do mundo, com mais de três milhões de habitantes e ruas tomadas por carruagens, carroças, ônibus a cavalo e pedestres. Era o mesmo ambiente que já produzira a ferrovia, a polícia metropolitana e a sinalização por braços mecânicos, chamada de semáforo, de onde o aparelho tirou o nome.
Sua segunda vida, nos anos 1910 e 1920, acompanhou a explosão do automóvel nos Estados Unidos: o Ford Modelo T, lançado em 1908, levou milhões de carros às ruas em poucos anos, e os acidentes se multiplicaram. Cidades como Cleveland e Detroit, centros da indústria automobilística, foram também os laboratórios do controle de tráfego.
03Evolução ao longo do tempo
Vermelho e verde, com campainha
Os primeiros sinais elétricos americanos usavam apenas duas cores e dependiam de um operador. As cores vieram da ferrovia: o vermelho já significava perigo desde os anos 1840, e o verde passou a indicar via livre depois que o branco, usado antes, causou acidentes quando lentes vermelhas quebradas deixavam passar luz branca. A campainha de Cleveland foi a primeira solução para o problema da transição: avisar que a luz estava prestes a mudar. O sinal era caro e exigia um funcionário em tempo integral.
O amarelo e o cruzamento de quatro faces
Em 1920, o policial William Potts, de Detroit, montou com lâmpadas e tinta um sinal de três cores e quatro faces para o cruzamento da Woodward Avenue com a Michigan Avenue, controlando todas as direções ao mesmo tempo. O amarelo, intermediário, substituía a campainha. Em 1923, o inventor afro-americano Garrett Morgan patenteou um sinal mecânico com posição de parada total para todas as direções e vendeu os direitos à General Electric. Ao longo da década, temporizadores automáticos dispensaram o operador, e os sinais se espalharam pelos Estados Unidos e pela Europa.
Padronização e eletrônica
A Convenção de Viena sobre Sinalização Rodoviária, de 1968, fixou a sequência vermelho, amarelo e verde e sua posição, de cima para baixo, no mundo quase inteiro. Nas décadas seguintes vieram os sinais para pedestres, os controladores eletrônicos ligados em rede, os sensores de fluxo e, a partir dos anos 1990, as lâmpadas de LED, que consomem uma fração da energia das incandescentes e quase não queimam. Hoje centrais de controle ajustam os tempos de cada cruzamento em tempo real, e o semáforo virou um nó de uma rede de dados.
04Fatos curiosos
- O bonequinho dos sinais de pedestres de Berlim Oriental, o Ampelmännchen, foi criado pelo psicólogo de trânsito Karl Peglau em 1961 e sobreviveu à reunificação alemã, virando símbolo da cidade.
- No Japão, a luz de siga é chamada de azul, e não verde: a palavra ao cobria historicamente os dois tons, e o governo adotou lâmpadas de um verde azulado para conciliar a lei e o costume.
- Em Syracuse, no estado de Nova York, há um semáforo instalado com o verde em cima e o vermelho embaixo desde os anos 1920, a pedido de moradores de origem irlandesa que não aceitavam o vermelho britânico acima do verde.
- Antes dos temporizadores, cidades americanas instalaram torres de controle no meio dos cruzamentos; as da Quinta Avenida, em Nova York, nos anos 1920, tinham cabines de bronze para o policial.
05Contexto social
O semáforo substituiu a autoridade pessoal do guarda de trânsito por uma máquina neutra, e com isso mudou a relação entre o Estado e as ruas. A luz não negocia nem reconhece a hierarquia social de quem passa: carruagem de luxo e carroça de verduras esperam o mesmo vermelho. Esse igualitarismo mecânico foi, no início, motivo de resistência tanto de motoristas ricos quanto de policiais que perderam função.
Ao mesmo tempo, o sinal consagrou a prioridade do automóvel sobre o pedestre. Os tempos de verde foram calculados para o fluxo de carros, e atravessar fora da faixa, antes um direito, passou a ser infração em muitos países. A crítica urbanística recente, de autores como Jan Gehl e de movimentos por cidades caminháveis, pede tempos mais longos e botoeiras acessíveis, e algumas cidades europeias experimentaram retirar sinais de cruzamentos pequenos para obrigar motoristas a negociar o espaço.
06No Brasil
Os registros sobre o primeiro semáforo brasileiro são imprecisos, mas apontam para a década de 1930, quando o Rio de Janeiro, então capital federal, e São Paulo instalaram os primeiros sinais luminosos em cruzamentos do centro, ainda com operação manual por guardas de trânsito. A expansão acompanhou a indústria automobilística instalada no fim dos anos 1950 e, em 1976, a cidade de São Paulo criou a Companhia de Engenharia de Tráfego, a CET, responsável por uma das maiores redes semafóricas do mundo, com milhares de cruzamentos controlados por centrais.
O aparelho ganhou nomes regionais: é farol em São Paulo, sinal no Rio de Janeiro, sinaleira no Rio Grande do Sul e semáforo na linguagem oficial do Código de Trânsito Brasileiro, de 1997, que define a sinalização semafórica e pune o avanço do sinal vermelho como infração gravíssima. Desde os anos 2000, cidades brasileiras substituíram lâmpadas incandescentes por LED e adotaram contadores regressivos para pedestres e motoristas, uma solução que se tornou comum na América Latina antes de se espalhar pela Europa.
07Linha do tempo
- 1868
Sinal a gás com braços móveis instalado diante do Parlamento britânico, em Londres.
- 1869
A lanterna explode, fere o policial e o sinal é retirado.
- 1912
Lester Wire teria montado um sinal elétrico de duas cores em Salt Lake City.
- 1914
Cleveland inaugura o primeiro sinal elétrico documentado, com campainha.
- 1920
William Potts cria em Detroit o sinal de três cores e quatro faces.
- 1923
Garrett Morgan patenteia seu sinal de trânsito com parada total.
- 1968
A Convenção de Viena padroniza a sinalização luminosa.
- 1976
São Paulo cria a CET, que centraliza a operação dos semáforos.
- década de 1990
Lâmpadas de LED começam a substituir as incandescentes.
08Comparativo
| Aspecto | Cleveland, 1914 | Hoje |
|---|---|---|
| Cores | Vermelho e verde | Vermelho, amarelo e verde |
| Aviso de troca | Campainha | Luz amarela e contador regressivo |
| Operação | Manual, de uma cabine | Automática, em rede |
| Fonte de luz | Lâmpadas incandescentes | LED |
| Pedestres | Sem sinal próprio | Sinal exclusivo com botoeira |
09Perguntas frequentes
Onde foi instalado o primeiro semáforo do mundo?
Em Londres, diante do Parlamento, em dezembro de 1868. Funcionava a gás, com braços mecânicos, e foi retirado após explodir e ferir o policial que o operava.
Quem inventou o semáforo de três cores?
O policial William Potts, de Detroit, montou em 1920 o primeiro sinal de três cores e quatro faces. O amarelo substituiu a campainha que avisava a troca de luz.
Por que o semáforo tem nomes diferentes no Brasil?
O uso regional consagrou farol em São Paulo, sinal no Rio de Janeiro e sinaleira no Sul; o Código de Trânsito usa o termo semáforo, de origem grega, que significa portador de sinal.
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11Fontes consultadas
- Peter D. Norton, Fighting Traffic: The Dawn of the Motor Age in the American City, MIT Press, 2008
- Brian Ladd, Autophobia: Love and Hate in the Automotive Age, University of Chicago Press, 2008
- Convenção de Viena sobre Sinalização Rodoviária, Nações Unidas, 1968
- Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo (CET), histórico institucional
- Código de Trânsito Brasileiro, Lei 9.503 de 1997
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